Guerra do Golfo 30 anos depois: razões e consequências

Visto em uma loja de eletrodomésticos em Bryn Mawr, Pensilvânia, o presidente Bush anuncia ataques aéreos das forças aliadas contra o Iraque em 17 de janeiro de 1991. Foto: AP / Amy Sancetta

Não é possível compreender a Guerra do Iraque exclusivamente como um resultado, consequência dos atentados do 11 de setembro de 2001, e correspondentemente, em relação a política da administração Bush intitulada de Guerra ao Terror. A Guerra do Iraque tem raízes ainda em 1979 com a Revolução Iraniana, quando Saddam Hussein era tido como um aliado do governo dos Estados Unidos. Mas, toda a construção da invasão ao país árabe foi estruturada durante os anos 1990, com destaque, a Guerra do Golfo (1990-1991), objeto deste ensaio.

A estrutura que desencadeou a Guerra do Iraque em 2003 começou a ser arquitetada ainda nos anos 1990, com destaque, a Guerra do Golfo, que foi um divisor de águas dentro do campo das Relações Internacionais Contemporâneas, uma vez que é o conflito internacional que marca o pós-Guerra Fria. Por mais que a operação Tempestade no Deserto tenha ocorrido em poucas horas, as consequências e aprendizados deixados por este confronto bélico são latentes para entender o Oriente Médio contemporâneo, assim como a geopolítica norte-americana para a região.

Operação Tempestade no Deserto - 24-28 de Fevereiro de 1991
Operação Tempestade no Deserto – 24-28 de Fevereiro de 1991

Guerra do Golfo: razões e consequências nas Relações Internacionais

A Guerra do Golfo foi um marco dentro da história das Relações Internacionais, sendo a primeira guerra do pós-Guerra Fria, inaugurando a nova ordem mundial, se tornou um ponto de inflexão para os Estados Unidos, agora como superpotência solitária, e por ter sido um confronto por recursos energéticos. É importante atentar-se que a primazia militar, supremacia aérea e de informação foram decisivas no embate, especialmente ao que se refere a operação Tempestade no Deserto, que durou apenas 100 horas. Tal confronto foi considerado como um marco nos assuntos militares, uma vez que a partir de então, a superioridade aérea passaria a ter uma nova posição nas guerras.

Uma das razões que levaram o Iraque invadir o Kuwait em 1990 deve-se as consequências da Guerra Irã-Iraque, que deixou muitas dívidas e uma crise econômica sem precedentes ao país governado por Saddam Hussein. A maneira encontrada pelo Iraque de reerguer sua economia e quitar as enormes dívidas contraídas durante o confronto anterior era aumentar o preço do petróleo, seu principal produto de exportação. Mas, o preço deste item no mercado internacional estava um pouco abaixo do pretendido, o que fazia o país vender muito para conseguir um determinado valor de dólares. Uma das razões para que isso tenha ocorrido era devido aos elevados níveis de produção dos demais Estados exportadores e principalmente, pelo fato do Kuwait ter excedido sua cota de produção estipulada pela OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). Fatores esses que tornaram difíceis o aumento do valor do petróleo, principal produto exportável da balança comercial iraquiana.

Vale ressaltar, que o Kuwait além de estar extraindo mais petróleo do que o combinado (KLARE, 2002, p.22), dificultando de certa maneira, a recuperação econômica do Iraque, segundo as autoridades de Bagdá, detinha cerca de 10% das reservas petrolíferas mundiais, o que aumentava a cobiça iraquiana sobre o país. A história de formação do Estado kuwaitiano, a pequena extensão territorial, a contiguidade territorial com o Iraque e principalmente, a sua riqueza em fontes petrolíferas, tornava o Kuwait um alvo preferencial para as ambições imperialistas de Saddam Hussein (EBRAICO apud AJAMI, 1988/89, p.154). Não à toa, o Kuwait se sentia extremamente ameaçado pelo Iraque, tanto é que o país demorou a reconhecer a independência kuwaitiana, só a fazendo anos mais tarde (SCHIOCCHET, 2011).

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Os céus de Bagdá explodem com tiros antiaéreos quando aviões de guerra dos EUA atingem alvos na capital iraquiana na manhã de quinta-feira, 18 de janeiro de 1991. (AP / Dominique Mollard)

Dessa maneira, o Iraque, detentor do 4º exército do mundo e com armamentos e tecnologias recebidas durante a Guerra Irã-Iraque (1980-88), compreende que se invadir e anexar ao seu território o Kuwait, e posteriormente, a Arábia Saudita, passaria a deter metade das reservas petrolíferas mundiais, possuindo um enorme poder de monopólio, controlando seu preço e oferta, o que seria benéfico para reestruturar sua economia. Uma vez detendo tamanho poderio sobre a principal fonte energética dos países industriais, o que não era interessante para os interesses dos Estados Unidos, entende-se melhor o porquê afirmar que a Guerra do Golfo foi um ponto de inflexão na estratégia americana no coração energético mundial e ser conhecida como uma guerra por petróleo.

Os Estados Unidos não aprovavam essa ação expansionista de Saddam Hussein, justamente pelo fato que uma liderança, potência regional no Golfo Pérsico teria um grande poder de monopólio sobre as reservas petrolíferas da região – vale ressaltar, que todo a região apresenta cerca de 62% das reservas mundiais de petróleo em seu território (EBRAICO, 2005) – atrapalhando o fornecimento energético ocidental, vital para a economia e liderança mundial norte-americana. Em suma, o Iraque deter um poder de monopólio sobre o petróleo, representaria uma grande ameaça à independência econômica dos Estados Unidos. Por isso, era tão importante para a potência mundial a manutenção do acesso às fontes petrolíferas da região, e principalmente, ter governos aliados, o que não acontecia com o Iraque nesse momento.

Organizações Internacionais e a Guerra do Golfo

Outro fator que faz a Guerra do Golfo ser tão emblemática na nova ordem mundial, construção do pós-Guerra Fria, diz respeito, a atuação do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Em decorrência da invasão iraquiana no Kuwait no dia 01º de agosto de 1990, o Conselho de Segurança condenou a ação, apresentando o artigo 2.4 da Carta das Nações Unidas, que tinha sido violado, e a Resolução 660 determinando a retirada das tropas do território invadido e reprovando a invasão.

É interessante observar também que a Liga Árabe, também conhecida como Liga dos Estados Árabes, inclusive condenou a ação pedindo a evacuação imediata dos soldados iraquianos do Kuwait, o que revela que a própria região estava empenhada em resolver um problema interno, doméstico, sem o auxílio e intervenção estrangeira. Entretanto, Saddam Hussein ignorou ambas resoluções. Desse modo, os Estados Unidos, como já haviam mencionado, com o apoio do Conselho de Segurança passaram a impor sanções econômicas ao país árabe, o que só contribuiu para arruinar ainda mais a já fragilizada economia iraquiana, levando a patamares socioeconômicos únicos em sua história recente (PADOVAN, 2010).

Operação Tempestade no Deserto

Como mencionado anteriormente, a Guerra do Golfo, em 1991, foi um marco na História contemporânea, uma vez que inaugura o período pós-Guerra Fria e a atuação dos Estados Unidos no Sistema Internacional passa a ser mais latente, já que se configura como a superpotência solitária, o hegemón responsável pela ordem mundial. Mas, o que mais destaca a atuação do país na região é a presença de recursos petrolíferos, vitais para a manutenção da sua economia.

A Operação Tempestade no Deserto durou apenas 100 horas de combates e foi uma vitória avassaladora com poucas perdas humanas e materiais, e contou com os norte-americanos liderando uma coalizão internacional com mais de 30 países. O palco da batalha se concentrou no Kuwait e no sul do Iraque, região esta que concentrou mais de 1 milhão de combatentes durante o breve período de enfrentamentos. Uma das consequências desta guerra foi a revolução promovida nos assuntos militares, com destaque ao novo papel que o poder aéreo passa a deter. Na visão de Robert Pape, o poder aéreo, a partir desse momento, ganhou nas batalhas tradicionais, um novo peso.

Não se acreditava que o Iraque ganharia a batalha, mas a maneira como os Estados Unidos venceram rapidamente e com poucas baixas foi, de certa maneira, algo inédito. A supremacia aérea adquirida pela coalizão, o domínio de tecnologia nova e de ponta e a diferença de treinamentos e táticas militares são os principais aspectos da vitória esmagadora e tão bem planejada e articulada por parte dos Estados Unidos. Em suma, conclui-se que a Guerra do Golfo foi uma marca na temática militar.

O governo iraquiano sabia que não venceria os Estados Unidos em um possível confronto aberto entre os dois países. Desse modo, a sua estratégia era levar em conta a diferença que ambos os governos tinham em relação ao objeto de disputa, no caso, o Kuwait. Era mais importante para o Iraque deter posse do território kuwaitiano do que os norte-americanos a independência desse país (ALVES, 2010). Saddam Hussein queria barganhar a respeito dessa temática, uma vez que entendia que os Estados Unidos tinham muito menos a perder do que eles, queria poder trabalhar com a interpretação de um “novo Vietnã”. A ideia era que se o Iraque conseguisse barrar e dificultar a ação norte-americana, fazendo com que o país precisasse investir e gastar mais para manter o conflito, poderiam negociar com uma certa facilidade. Mas, esta tática não funcionou e em poucas horas de confronto, os Estados Unidos alcançaram uma rápida e estrondosa vitória sobre as tropas de Saddam Hussein.

Considerações finais

Sem dúvidas, esta crise desencadeada pela ocupação do Kuwait anunciou alterações na política internacional no pós-Guerra Fria. Naquele momento acreditara-se que as Organizações Internacionais desempenhariam um papel mais atuante e enérgico na resolução de problemas internacionais, visto a rápida manifestação e adoção de sanções por parte do Conselho de Segurança em relação a atitude do Iraque ao invadir o Kuwait. Mas, passados 30 anos da eclosão do conflito e da instauração da nova Ordem Mundial, observa-se que não foi bem isso o que aconteceu, e as Nações Unidas ainda apresentam dificuldades em ter uma atuação mais categórica frente as instabilidades internacionais.

Como foi abordado ao decorrer deste ensaio, a manutenção do acesso às fontes petrolíferas do Golfo Pérsico era uma condição indispensável para os Estados Unidos garantir seu bom desempenho econômico e posição de hegemón no Sistema Internacional. Também não era interessante ao país, ter um Estado da região agindo como liderança, tampouco detendo um monopólio sobre o recurso, como almejava o Iraque, bem como o plano de Saddam Hussein de construir a Grande Arábia.

Portanto, conclui-se que os Estados Unidos, mesmo na condição de potência solitária, só interviram na invasão iraquiana em virtude das grandes reservas petrolíferas no Golfo Pérsico, decisivas para o seu benefício. Logo, a Guerra do Golfo foi essencial para a compreensão da opção geopolítica americana para a região, bem como configurou-se como a primeira guerra para garantir o suprimento de petróleo para as economias ocidentais industrializadas.

Referências bibliográficas

ALVES, Vágner Camilo. A Guerra do Golfo. Tensões Mundiais/World Tensions. v. 6, n. 10. 2010, p.191-211. Disponível em: http://www.tensoesmundiais.net/index.php/tm/article/view/166. Acesso em: 21 de maio de 2020.

ARRAES, Virgílio Caixeta. Guerra do Golfo: a crise da nova ordem mundial. Revista Brasileira de Política Internacional, vol.47, nº 1, p.112-139, 2004.

EBRAICO, Paula Rubea Bretanha Mendonça. As opções de geopolítica americana: o caso do Golfo Pérsico. 2005. (136 f.) Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais) – Departamento de Relações Internacionais, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2005.

MEARSHEIMER, J.; WALT, S. M. An Unnecessary War. Foreign Policy, Washington, n.134, p. 50-60, jan./fev. 2003.

PADOVAN, Gisela Maria Figueiredo. Diplomacia e uso da força: os painéis do Iraque. Brasília: FUNAG, 2010.

SCHIOCCHET, Leonardo. Extremo Oriente Médio, admirável mundo novo: a construção do Oriente Médio e a Primavera Árabe. Revista Tempo do Mundo, Brasília, v.3, n.2, p.37-82, 2011.

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Sobre o Autor

Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Possui interesse em pesquisas na área de geopolítica, especialmente, a norte-americana para o Oriente Médio. Dedica-se aos estudos sobre Guerra do Golfo e Guerra do Iraque.

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