Início do conflito da Caxemira – 22 de outubro de 1947

Imagem: Ka Rashtriya Dhwaj via Canva Pro
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Inicialmente o território que nós entendemos por Índia e Paquistão constituía apenas um único Estado, a Índia. Colonizada pelo Império britânico de 1858 a 1947, ano da conquista de sua independência. Durante o período da luta por independência, a coroa britânica, com o intuito de diminuir os conflitos civis, dividiu o país nas duas principais religiões do país, a Hindu – predominante na Índia, que se opunha menos a coroa britânica – e a mulçumana, não tão favorável aos costumes britânicos impostos (BARBEDO, 2017).

A Índia, naquela época, era uma país onde conviviam entre si várias religiões – Hindu, Islã, Budismo, Jainismo e o Sikhismo. Durante a independência e com o país dividido pelos ingleses entre Paquistão oriental e ocidental, que mais tarde o Paquistão oriental se tornaria Bangladesh e a parte ocidental ficaria conhecida apenas por Paquistão.

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Fonte: Blog de Geografia

Partilha da Índia – Paquistão

Através da estratégia britânica de dividir para conquistar, foi atenuada as diferenças entre essas duas comunidades religiosas, que mais a diante iria-se criar, em contraposição ao Congresso Indiano Hindu, a Liga Mulçumana (PML). A PML foi criada em resposta a discriminação, falta de representatividade e direitos do povo mulçumano durante o período colonial, dentro da Índia britânica.

Personagens como Mahatma Gandhi e Jawaharlal Nehru são pessoas chave na independência da Índia e que pregavam uma unificação entre as comunidades hindu e mulçumana. Mas a Liga Mulçumana divergia e seu posicionamento ia mais do que apenas espaços de comunidades separados, vinha na construção de um novo Estado, emancipado da Índia – o Paquistão. Com a divisão da Índia por religião, a população mulçumana começou a migrar para esses locais, pois, nos locais que não eram identificados como mulçumanos a discriminação e violência com essa comunidade aumentava, aumentando assim, a noção de Nação e território constitutivos de um futuro no Estado. 

Durante a partilha da Índia pelos inglese, além dos definidos territórios do Paquistão oriental e ocidental, e o território indiano, foi separado também o território da Caxemira. Onde a coroa britânica propôs que através de um referendo, fosse definido a qual país o território gostaria de fazer parte. Dando-se assim, início a disputa dos dois países por esse território (CUNHA; FEITOSA NETO, 2019).

Conflito da Caxemira

De maioria mulçumana, mas governados por um Hindu, a Caxemira é palco do conflito bélico entre o Paquistão e Índia. Após a independência dos dois países da Inglaterra em 1947, como forma de conter as rebeliões de tribos paquistanesas, o governante hindu do território aceitou anexar a região a Índia em troca de ajuda, o que revoltou a população mulçumana e não foi aceito pelo recém criado Estado paquistanês, dando início a primeira guerra Indo-Paquistanesa na região da Caxemira. Em 1948, teve seu primeiro cessar-fogo sob mediação da ONU, sendo o território dividido pelo controle dos dois países, onde cada um alega posse sobre o todo (BERNUCCI, 2021).

Precedendo a primeira guerra Indo-Paquistanesa houveram outras duas em 1965 e 1971. Onde na terceira guerra (1971) houve a conquista do Paquistão oriental pela Índia, e então formando atualmente Bangladesh. E em 1972, houve o acordo de Simla, onde os dois Estados concordavam com um cessar-fogo e uma linha de controle (LoC), além de concordarem em tentar resolver o conflito por linhas diplomáticas.

Em uma linha do tempo do conflito, em 1999 após alguns problemas em anos anteriores com uma insurgência armada contra a Índia (1988), acontece o conflito de Kargil, militantes invadiram as principais repartições da Índia na Caxemira, causando um novo conflito armado entre os países, pois a Índia culpou o Paquistão pelo ataque. E em 2001, houve um ataque terrorista ao parlamento indiano que a Índia creditou a grupos paquistaneses, assinando o cessar-fogo apenas em 2003, que ainda está em vigor, mas que todas as partes se acusam ocasionalmente de violá-lo, como no ataque a Mumbai em 2008 e conflitos ocorridos em 2016 e 2019.

Potências Nucleares e domínio estratégico

A região da caxemira, faz a fronteira não apenas de Índia e Paquistão, mas também com a China – o Paquistão cedeu territórios ao país em 1962, aumentando as tensões e havendo conflitos entre as duas maiores potências da Ásia (Índia e China) resultando na morte de soldados (VIANA, 2020).

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Fonte: Toda Matéria

A caxemira é extremamente estratégica para os países envolvidos no conflito, para a Índia e Paquistão, lá é onde se dá a nascente de seus principais rios, o Ganges e o Indo. E para o Paquistão, especificamente, o não ter o controle da região afetaria a sua agricultura, pois qualquer barragem ou mudança no curso do rio Indo afetaria seu fornecimento de água de maneira séria (BERNUCCI, 2021).

Além de o conflito ter durado por mais de 70 anos, as inúmeras mortes e desentendimentos entre os dois países, outra coisa que o foi advindo desse conflito foi a capacidade nuclear que esses dois Estados adquiriram, o que faz qualquer escalada do conflito algo bem mais sério. Tanto a Índia como o Paquistão têm capacidade nuclear desde 1999 (ANUNCIAÇÃO, 2013).

Desde a Guerra Fria e as tensões entre EUA e União Soviética, é pensado e temido o uso de armas nucleares em conflitos por sua enorme capacidade de destruição. Essa mesma preocupação é levada ao conflito na Caxemira, onde além de testes de armas nucleares como forma de ameaça e demonstração de seu poder bélico, também há o conhecimento de que pelo menos uma vez durante as crises o Paquistão já chegou a acionar o transporte das ogivas nucleares para perto dos misseis, o próximo passo seria utilizar esses misseis com as ogivas.

O conflito atualmente

Sem resolução, as tensões na região ainda continuam. Com acusações de infringir o cessar-fogo de 2003 dos dois lados, o bombardeio e confrontos entre militares, a morte de inúmeros civis e a repressão a ativistas e jornalistas, o conflito continua e sem previsão para um acordo sobre a delimitação da fronteira na região, perpetuando um risco não apenas para a região, mas para a comunidade internacional (ANUNCIAÇÃO, 2013). Mas as partes avançam, bombardeiam, atacam e depois voltam para o discurso que todas as partes envolvidas concordam em resolver o problema por vias diplomáticas.

Referências bibliográficas

ANUNCIAÇÃO, Arthur Sá. O Conflito em Caxemira: uma luta identitária e a perpetuação de um risco internacional. 2013. 171 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Mestrado em Relações Internacionais, Universidade de Coimbra, Coimbra, 2013.

BARBEDO, Guilherme Sampaio. Relações Índia-Paquistão: uma análise a partir da independência sob o prisma da segurança regional. 2017. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Relações Internacionais) – Faculdade de Ciência Jurídicas e Sociais, Centro Universitário de Brasília, Brasília, 2017. Disponível em:https://repositorio.uniceub.br/jspui/handle/prefix/13569. Acesso em: 20 set.2021

BERNUCCI, Mariana Neto. O Paquistão: sua formação, sua organização estatal e seu conflito (caso caxemira). 5 f. TCC (Graduação) – Curso de História, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul. Disponível em: https://ebooks.pucrs.br/edipucrs/acessolivre/anais/ephis/assets/edicoes/2018/arquivos/35.pdf. Acesso em: 15 set. 2021.

CUNHA, Júlia Andrade da; FEITOSA NETO, Pedro Meneses. CONFLITO INDO-PAQUISTANÊS: 70 anos de direitos violados na região da caxemira. In: SEMANA DE PESQUISA DA UNIT, 21., 2019, Sergipe. Anais […] . Sergipe: Universidade Tiradentes, 2020. p. 01-03. Disponível em: https://eventos.set.edu.br/sempesq/article/view/13321. Acesso em: 27 set. 2021.
VIANA, Thaisa da Silva. NAS BORDAS DE AKSAI CHIN: a importância da caxemira para a geopolítica chinesa. In: ROCHA, Marcio; FIGUEIREDO, Eurico de Lima (org.). ESTUDOS ESTRATÉGICOS & RELAÇÕES INTERNACIONAIS: o protagonismo da china no século 21. Niterói: Luzes, 2020. p. 117-128.

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Sobre o Autor

Mestranda em Relações Internacionais pela Universidade da Integração Latino Americana (UNILA), Pós-graduanda em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e Bacharel emRelações Internacionais pela Universidade Potiguar (UNP). Atualmente sou Coordenadora do Grupo de Ativismo Natal da Anistia Internacional Brasil e Podcaster do podcast “E eu com isso?”. Áreas de interesse: Gênero, Feminismo, Estudos Pós-coloniais, Direitos Humanos, Relações Internacionais, Movimentos Sociais, Oriente, Política Internacional.

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