Quando o presidente francês Emmanuel Macron viajou à China no início de dezembro para sua quarta visita de Estado, o itinerário começou com as formalidades esperadas. Houve uma recepção com tapete vermelho no Grande Salão do Povo, em Pequim, e reuniões de alto nível com o presidente Xi Jinping sobre comércio, tecnologia e a guerra na Ucrânia.
Mas a imagem definidora dessa viagem diplomática não ocorreu na capital. Ela se deu a mais de 1.000 milhas (1.600 km) de distância, em Chengdu, na província de Sichuan. Ali, Xi recebeu Macron em um raro exemplo do que a mídia chinesa chamou de “diplomacia sem gravata” (no-tie diplomacy), um termo usado para descrever um estilo mais relaxado e informal de condução das relações de Estado.
Ao se afastar dos protocolos rígidos de Pequim, Xi guiou pessoalmente Macron pelas montanhas cobertas de neblina de Sichuan. O gesto teve grande significado: foi a primeira vez que Xi recebeu um chefe de Estado estrangeiro para um encontro informal fora da capital, com um itinerário que incluiu o sistema de irrigação de Dujiangyan, uma visita à seleção nacional chinesa de tênis de mesa e à Chengdu Research Base of Giant Panda Breeding.

A atenção global permanece, compreensivelmente, focada em temas “duros” — tarifas comerciais, a guerra na Ucrânia e energia nuclear. Mas, como historiador cultural da China moderna, acredito que a coreografia dessa visita oferece uma janela essencial para a estratégia diplomática de Pequim. Ao colocar em primeiro plano elementos como canais antigos e o tênis de mesa, a China mobiliza uma forma sofisticada de diplomacia cultural, concebida para suavizar as arestas de um cenário geopolítico cada vez mais rígido.
A reciprocidade da “diplomacia doméstica”
A escolha de Chengdu para receber Macron não foi aleatória, mas um ato cuidadosamente calculado de reciprocidade diplomática. Em abril de 2024, Macron havia convidado Xi para seu retiro pessoal nos Pireneus franceses, um gesto voltado à criação de intimidade pessoal.
Durante a visita mais recente, Xi fez referência a esse encontro anterior, dizendo a Macron:
“No ano passado, você me convidou para sua cidade natal nos Altos Pireneus; acredito que esta visita aprofundará ainda mais sua compreensão sobre a China.”
Ao levar Macron a Sichuan, Xi retribuiu o gesto, deslocando a relação do plano estritamente profissional para o pessoal. Isso reflete uma mudança na diplomacia chinesa, afastando-se da mentalidade dos “Lobos Guerreiros” (Wolf Warrior diplomacy), marcada por confrontação e agressividade retórica, em direção a uma abordagem mais relacional com parceiros europeus estratégicos. Ao investir tempo nesse tipo de visita provincial, Pequim sinaliza que enxerga a França não apenas como parceira comercial, mas como um país digno de engajamento profundo e pessoal.
Essa aproximação é particularmente relevante em um momento em que as tensões comerciais entre China e Estados Unidos permanecem elevadas, levando Pequim a olhar para a União Europeia como componente central de sua estratégia mais ampla para contrabalançar os esforços de contenção liderados por Washington.
Governar acompanhando o fluxo
O ponto central do tour cultural de Macron foi o sistema de irrigação de Dujiangyan. Construído no século III a.C., esse Patrimônio Mundial da UNESCO continua sendo o mais antigo projeto hidráulico sem barragem ainda em funcionamento no mundo.

Mais do que atração turística, Dujiangyan é a manifestação física de uma filosofia política chinesa. Diferentemente das barragens modernas, que bloqueiam a água, o sistema administra o fluxo por meio de sua divisão. Ele incorpora o princípio taoísta do wu wei (não-ação) e a metáfora frequentemente utilizada por Xi: “governar a água é governar o país”.
Ao destacar esse local, Xi ofereceu uma lição sutil de arte de governar: uma governança baseada em equilíbrio, adaptabilidade e cooperação com forças naturais, em vez do confronto direto.
No contexto das relações internacionais tensionadas, a mensagem à França foi clara: a cooperação não deve ser limitada por binarismos rígidos entre Oriente e Ocidente, nem moldada pela lógica da contenção. Ela deve seguir o fluxo natural dos interesses mútuos — do comércio e da ação climática ao intercâmbio cultural e educacional.
Diplomacia do pingue-pongue 2.0
Se Dujiangyan representou a sabedoria antiga, a visita ao Ginásio Provincial de Sichuan levou a diplomacia ao ambiente moderno e energético do esporte.
O tênis de mesa ocupa lugar quase mítico na história diplomática chinesa. A “diplomacia do pingue-pongue” do início dos anos 1970 ajudou a romper o gelo entre China e Estados Unidos, abrindo caminho para a visita histórica do presidente Richard Nixon em 1972. Como argumenta o historiador Pete Millwood em Improbable Diplomats, esses intercâmbios esportivos criaram um espaço politicamente seguro e socialmente aceitável para sinalizar uma grande mudança nas relações bilaterais.
Em 5 de dezembro, Macron acionou esse legado ao visitar o local da Copa do Mundo de Equipes Mistas da ITTF 2025 e participar de uma partida improvisada. Ao jogar ao lado dos franceses Félix Lebrun e Prithika Pavade contra as estrelas chinesas Wang Chuqin e Sun Yingsha, protagonizou um momento descontraído que viralizou nas redes sociais chinesas.
Em uma era de interações diplomáticas roteirizadas e austeras, episódios assim humanizam o “outro lado” para o público doméstico, criando um reservatório de boa vontade pública que líderes podem acionar ao lidar com compromissos políticos difíceis.
Soft power com pelos
Enquanto os dois líderes interagiam nas mesas, Brigitte Macron, primeira-dama da França, se envolvia com o ativo de soft power mais duradouro da China: o panda-gigante.
A chamada “diplomacia do panda” é elemento central da política externa chinesa desde a década de 1950. O empréstimo desses animais funciona como termômetro do grau de proximidade política; sua retirada pode sinalizar esfriamento.

A primeira-dama visitou a Chengdu Research Base of Giant Panda Breeding para ver Yuan Meng. Primeiro panda nascido na França, filho de pais emprestados pela China, Yuan Meng é um símbolo vivo da relação bilateral sino-francesa. Brigitte Macron, sua madrinha, ajudou a viabilizar o retorno de Yuan Meng à China com seus pais, em novembro de 2025.
Após a visita, o anúncio de um novo acordo para enviar mais dois pandas à França até 2027 funcionou como resultado concreto do encontro de cúpula.
Os limites da diplomacia cultural
O que somam obras hidráulicas, pingue-pongue e pandas?
Críticos podem descartar esses eventos como mera encenação — uma luva de veludo ocultando o punho duro do realismo político. De fato, uma partida amistosa não resolve as preocupações da União Europeia sobre subsídios estatais chineses, nem supera divergências quanto à posição da China sobre a guerra na Ucrânia.
Ainda assim, ignorar a dimensão cultural é ignorar como Pequim entende a diplomacia. Para a China, um “ambiente amistoso” costuma ser pré-requisito para avanços em temas políticos substantivos.
O encontro Xi-Macron em Chengdu também sinalizou um refinamento do soft power chinês, afastando-se da retórica combativa recente e adotando uma estratégia de fortalecimento de laços com potências europeias centrais, como a França.
Embora a cultura não substitua a diplomacia de alto impacto, a visita demonstra que, em 2025, o caminho para consensos políticos em Pequim pode muito bem passar pelo recinto dos pandas e pela arena do tênis de mesa.
Essa intenção de longo prazo ficou evidente na despedida em Dujiangyan. Ao se separarem, Xi brincou:
“Da próxima vez, veremos outro lugar.”
A resposta imediata de Macron —
“Claro, com certeza” —
sugere que essa diplomacia cultural foi pensada para ser contínua.
Este artigo, intitulado “Pandas, pingpong and ancient canals: President Xi’s hosting style says a lot about Chinese diplomacy”, de autoria de Xianda Huang, Ph.D. Student in Asian Languages and Cultures na University of California, Los Angeles, foi publicado originalmente em The Conversation. Está licenciado sob Creative Commons – Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-ND 4.0).
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