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Por que a Conferência de Segurança de Munique 2026 importa para a América Latina – e para o Brasil
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Por que a Conferência de Segurança de Munique 2026 importa para a América Latina – e para o Brasil

Photo by CHUTTERSNAP on Unsplash

A Conferência de Segurança de Munique 2026, realizada entre os dias 13 e 15 de fevereiro, foi concebida, de acordo com o próprio relatório oficial do encontro, como uma espécie de velório de um mundo que conhecemos.

Sob o lema “Under Destruction” (Em Demolição), os organizadores sustentam que o velho ordenamento internacional baseado em regras, instituições multilaterais e cooperação entre democracias simplesmente deixou de existir.

Esse diagnóstico, formulado no coração da Europa atlântica, parece à primeira vista distante da América Latina – mas, na prática, redesenha o ambiente de segurança em que Brasil e região terão de atuar.

Relatório acusa os EUA de liderar ‘política de demolição’

O eixo dramático de Munique 2026 foi a relação entre Estados Unidos e Europa no primeiro ano do novo mandato de Donald Trump. O relatório da conferência acusa Washington de liderar uma “política da demolição”, ao atacar três pilares do que chama de “triângulo kantiano da paz”: confiança em instituições internacionais, abertura econômica e associação entre democracia e segurança.

A ofensiva inclui desde a ameaça de anexar, “por bem ou por mal”, a Groenlândia – território de um aliado da OTAN – até a reinterpretação de alianças tradicionais como vínculos condicionais, em que os EUA escolhem quando e como honrar compromissos de defesa coletiva.

discurso do secretário de Estado Marco Rubio, cuidadosamente coreografado em Munique, cristaliza essa ambiguidade. Ele promete “revitalizar uma velha amizade” com a Europa, reafirma a importância da OTAN e recorre a uma retórica emotiva de “civilização ocidental” comum, ao mesmo tempo em que insiste que a aliança só sobreviverá se ajustada aos interesses definidos pela Casa Branca.

A mensagem é clara: os EUA continuarão a agir sozinhos sempre que julgarem necessário – como se vangloriou Rubio ao citar operações unilaterais em Venezuela e Irã – e os aliados são convidados a se alinhar a esse rumo.

Alemanha e França advogam por uma ‘refundação’ da OTAN

A Europa, por sua vez, reage em duas direções complementares. De um lado, o chanceler alemão Friedrich Merz e o presidente francês Emmanuel Macron advogam por uma “refundação” da OTAN e por uma “Europa forte”, inclusive discutindo, pela primeira vez de forma aberta, a extensão do guarda‑chuva nuclear francês para outros países europeus. De outro, lideranças como Ursula von der Leyen e Keir Starmer defendem uma “coluna vertebral europeia” de capacidades militares e maior independência estratégica, sem romper com Washington.

O pano de fundo é a percepção de que, se os EUA deslocam sua prioridade para o Indo‑Pacífico e tratam a Europa como espaço negociável, o continente precisa ser capaz de se defender e de negociar em seu próprio nome.

EUA reativam a lógica das esferas de influência com nova roupagem

Onde entra a América Latina nisso – e, em particular, o Brasil? Primeiro, a nova Estratégia de Segurança dos EUA, discutida em paralelo à conferência, explicita que Washington pretende concentrar recursos na defesa do território norte‑americano e do hemisfério ocidental, entendido como seu “quintal dos fundos”.

Isso reativa, com roupagem contemporânea, a lógica de esferas de influência, na qual a região é vista simultaneamente como fonte de ameaças (migração, narcotráfico, instabilidade política) e de oportunidades econômicas e estratégicas.

Ao mesmo tempo, o governo Trump descreve a América Latina como parte dos problemas globais que justificam uma política de força – inclusive admitindo o uso de operações especiais em solo latino‑americano, como no caso venezuelano.

Segundo, o enfraquecimento do multilateralismo e a degradação da ordem baseada em regras têm impacto direto sobre temas centrais para o Brasil: Amazônia e clima, governança de recursos naturais críticos, rotas de migração e crime organizado transnacional.

Se grandes potências passam a tratar instituições como ONU e OMC como instrumentos descartáveis, disputas sobre desmatamento, minerais estratégicos ou fluxos migratórios tendem a ser resolvidas mais na chave da pressão e da securitização do que na da negociação jurídica.

Para um país que historicamente apostou em normas, diplomacia e construção de coalizões, isso significa operar em um ambiente menos previsível e mais propenso a imposições unilaterais – inclusive em nome da “segurança” de terceiros.

Terceiro, Munique 2026 deixa clara a centralidade do chamado “Sul Global” no imaginário de segurança das potências. Tanto europeus quanto norte‑americanos reconhecem que, se querem manter relevância num mundo mais competitivo, precisam disputar influência em regiões como América Latina, África e Sudeste Asiático – seja por meio de cadeias de suprimentos de minerais, seja por parcerias em energia, tecnologia e controle de fronteiras.

Na ‘era da demolição’, o verdadeiro rearme necessário é moral e político

Isso abre espaço para que Brasil e vizinhos negociem com mais assertividade, mas também aumenta o risco de serem tratados como peças de tabuleiro em arranjos decididos entre Washington, Bruxelas, Pequim e outras capitais.

Por fim, a própria experiência europeia pode servir de alerta para o Brasil. Em Munique, líderes como Pedro Sánchez insistiram que, diante da “era da demolição”, o verdadeiro “rearme” necessário é moral e político, não apenas militar, e que a defesa de integridade territorial e direitos humanos não pode ser seletiva – seja na Ucrânia, seja em Gaza.

Para a América Latina, a lição é dupla: fortalecer capacidades próprias de defesa e gestão de crises, sem cair em corridas armamentistas insustentáveis, e defender com consistência princípios de não intervenção, solução pacífica de controvérsias e respeito a direitos – inclusive quando as pressões vierem de aliados tradicionais.

Munique 2026 pode parecer um ritual interno do Atlântico Norte, mas o que se decide – e o que se revela – ali terá efeitos duradouros sobre a margem de manobra do Brasil em segurança, economia e política externa. Ignorar esse espelho seria um luxo que o país e a região já não podem se permitir.

Este artigo, intitulado “Por que a Conferência de Segurança de Munique 2026 importa para a América Latina – e para o Brasil”, de autoria de Armando Alvares Garcia Júnior, Profesor de Derecho Internacional y de Relaciones Internacionales na UNIR — Universidad Internacional de La Rioja, foi publicado originalmente em The Conversation. Está licenciado sob Creative Commons – Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-ND 4.0).

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