Análise Comparativa entre as técnicas de pesquisa de observação direta: entrevista e questionário

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Análise Comparativa entre as técnicas de pesquisa de observação direta: entrevista e questionário 1

Introdução

O presente ensaio apresenta uma análise comparativa sobre as técnicas de pesquisa de observação direta, entrevista e questionário, com o objetivo de descrever seus respectivos conjuntos de características principais. Além disso, o presente trabalho busca analisar de que forma essas técnicas são aplicadas em pesquisas, quais tipos de dados e informações são coletados por essas técnicas, além de apontar como pode ser a otimização e a limitação de suas utilizações.

Antes de analisar, é importante entender a pesquisa em si como um procedimento crítico e formal, com uma série de etapas, que tem como principal fim permitir a descoberta de dados e outros conjuntos de informações relacionados a qualquer campo de conhecimento, com diferentes classificações (MARCONI, LAKATOS, 2003). De acordo com as etapas do procedimento, a pesquisa ganha corpo e se direciona especificamente para seu objetivo conforme suas particularidades desde a escolha do tema, a definição de problema e de seus próprios objetivos, até sua conclusão (ZANELLA, VIEIRA, MORAES, 2013).

Em relação à técnica da pesquisa, ela consiste basicamente em um conjunto de procedimentos para identificar de que forma a ciência será realizada, ou seja, por meio de quais procedimentos, técnicas utilizadas, a pesquisa chegará à obtenção dos dados a serem analisados, possivelmente definidos como resultados posteriormente (MARCONI, LAKATOS, 2003). Essa utilização da técnica pode ser definida de acordo com metodologias e epistemologias distintas, porém precisa ser diretamente compatível com o método a ser aplicado (SEVERINO, 2013).

Entende-se que a técnica da pesquisa e sua escolha, qual será aplicada, decorre de acordo com o problema da pesquisa e também com os objetivos da mesma. Durante o planejamento e a definição das etapas do processo científico, o pesquisador precisa organizar onde e de que forma irá obter as informações necessárias para desenvolver sua problemática, assim como definir de que maneira os dados recolhidos serão utilizados (ZANELLA, VIEIRA, MORAES, 2013).

No presente ensaio serão comparadas duas formas de observação na pesquisa, a observação direta intensiva com a técnica de entrevista e a observação direta extensiva com a técnica de questionário. Segundo Marconi e Lakatos (2003), a observação direta intensiva é realizada por meio de duas técnicas, a observação e a entrevista, que será analisada a seguir. Posteriormente, analisaremos a observação direta extensiva da técnica de questionário.

Entrevista 

A entrevista como técnica de pesquisa consiste em um encontro entre duas pessoas com o objetivo de que uma delas adquira informações e dados sobre determinado assunto, caracterizada por uma conversação de natureza profissional e previamente formalizada. Essa técnica é colocada em prática de maneira metódica na pesquisa, realizada em um contexto face a face, onde o entrevistador capacitado promove ao entrevistado um conjunto de informações para guiar a conversa e obter as informações solicitadas. Alguns autores apontam que, quando utilizada por um entrevistador experiente, de acordo com a forma que ocorre, a entrevista acaba por ser uma técnica superior às demais para a obtenção de dados (MARCONI, LAKATOS, 2003).

Alguns dos pontos mais relevantes sobre a utilização da técnica de entrevista como coleta de dados para a pesquisa se baseia em sua vantagem relacionada a acessibilidade e inclusão. Por ser inclusiva, a entrevista pode ser realizada com todos os segmentos e diferentes grupos da população, e possibilita a inclusão de analfabetos, que consiste em 11 milhões de pessoas no Brasil segundo IBGE 2020 (ZANELLA, VIEIRA, MORAES, 2013).

Assim como adotada muito funcionalmente em pesquisas qualitativas, os dados podem ser analisados também na forma quantitativa, além de sua forma se aplicação presencial permitir ao entrevistador uma análise sobre as reações, atitudes e comportamentos em geral, assim se caracteriza como uma técnica de pesquisa que proporciona ao pesquisador maior flexibilidade. Ainda sobre seu conjunto de características, a técnica de entrevista pode ser desenvolvida individualmente ou em grupo, o que também depende dos objetivos de sua utilização para ser definido, o que ocorre previamente (ZANELLA, VIEIRA, MORAES, 2013). 

Enquanto suas classificações, em razão da forma que se organizam, as entrevistas devem ser estruturadas, não estruturadas e semi-estruturadas. A entrevista estruturada ou padronizada como também é chamada contém em sua característica principal a presença de um roteiro a ser seguido, previamente definido, que impede o entrevistador da liberdade de incluir perguntas ou até mesmo de alterar a ordem pré-estabelecida (ZANELLA, VIEIRA, MORAES, 2013).

Já a entrevista não estruturada, aberta, despadronizada ou não diretiva, possui como principal característica a liberdade para o direcionamento do tema proposto, mas sem condicionar o entrevistado a uma seqüência programada e pétrea de perguntas, e permite assim que o tema seja desenvolvido de acordo com a conversa, sem roteiro pré-estabelecido. No caso da entrevista semi estruturada a característica principal consiste também em um roteiro definido pelo entrevistador, que precisa estar atento para não se prender somente ao que foi estabelecido previamente, e sim seguir a entrevista conforme os depoimentos, a utilizar o roteiro somente como base, mas direcionando o tema de acordo com cada depoimento (ZANELLA, VIEIRA, MORAES, 2013).

Além das três classificações de entrevistas, há também a sondagem de opinião que se desenvolve por meio da utilização de outra técnica de pesquisa, o questionário estruturado, que será explicado a seguir. 

No caso da sondagem de opinião, o entrevistador utiliza uma sequência de perguntas fechadas de múltiplas escolhas ou dicotômicas, ou seja, perguntas que possuem somente duas opções para respostas. Nesse cenário, o entrevistador pergunta e registra a resposta do entrevistado no documento já estruturado, e o questionário aparece com um instrumento de coleta de dados, enquanto a técnica utilizada é a entrevista em formato de sondagem de opinião, que exige muita habilidade do pesquisador por ser uma das técnicas de pesquisa onde há maior interação (ZANELLA, VIEIRA, MORAES, 2013).

Não somente para este formato como para os demais, a técnica de entrevista exige do pesquisador um olhar atento e um alto nível de escuta ativa, capaz de contribuir para todos os níveis de percepção desde a linguagem oral, gestual e demais expressões. Ainda sobre a percepção, o pesquisador entrevistador deve se policiar para não emitir julgamentos ou discordâncias no decorrer das entrevistas de modo que possa influenciar até mesmo involuntariamente nos depoimentos, causando interferências ou possíveis previsibilidades nas respostas, refletindo no grau de confiabilidade da pesquisa (ZANELLA, VIEIRA, MORAES, 2013).

Diante desses aspectos, é possível perceber que a técnica de entrevista, assim como as demais técnicas de pesquisa, possui um conjunto de vantagens e limitações, como por exemplo, a inclusão e a flexibilidade que já foram mencionadas anteriormente. Uma outra vantagem relevante consiste na oportunidade de oferecer dados e informações que não se encontram em fontes de documentos, e que sejam relevantes e significativos igualmente para o desenvolvimento da pesquisa (MARCONI, LAKATOS, 2003).

A respeito das limitações, quando mencionado sobre a importância da habilidade do pesquisador entrevistador e sua escuta ativa, é possível pontuar a possibilidade de incompreensão como limitação, onde um entendimento errôneo do significado das perguntas pode levar a uma falsa conclusão ou interpretação sobre a informação que se deseja obter. Outra limitação consiste na possibilidade do entrevistado ser influenciado pelo pesquisador, seja de forma consciente ou inconsciente por meio de possíveis reações e atitudes, que não podem ser demonstradas como discutido anteriormente. A depender do tema trabalhado como problema de pesquisa, outra limitação consiste na retenção de alguns dados relevantes por conta do receio que pode haver por parte do entrevistado em ter sua identidade revelada (MARCONI, LAKATOS, 2003).

Questionário

Já o questionário, segundo Marconi e Lakatos (2003) consiste em uma técnica ou instrumento de coleta de dados e informações de observação direta extensiva, caracterizada por uma sequência ordenada de perguntas a serem respondidas por escrito, sem a presença de um pesquisador. É necessário identificar e ressaltar que um dos fatores essenciais do questionário é que nenhuma questão deve ser em vão. Cada uma das perguntas precisa ter uma finalidade explícita e, por esse fator, recomenda-se que as mesmas sejam agrupadas de acordo com seus objetivos pretendidos (MAIA, 2020).

É de extrema importância e da natureza dessa técnica de pesquisa que, juntamente ao questionário seja entregue ou enviado uma nota, carta ou termo que esclareça a natureza da pesquisa, explicitando a importância daquela coleta de informações para o desenvolvimento da pesquisa. Esse termo pode ser inclusive um grande aspecto para incentivar que o questionário seja respondido, tornando acessível o conhecimento sobre ele e informando de que forma aquela resposta vai contribuir (MARCONI, LAKATOS, 2003).

Para a construção de um questionário são necessárias informações e características a serem levantadas que precisam ser separadas, além da necessidade de identificar de que forma as características serão mensuradas. Dessa forma, a partir da identificação sobre como os dados colhidos serão mensurados, às demais particularidades do questionário pode ser definido com mais clareza e objetividade para sua finalidade (ZANELLA, VIEIRA, MORAES, 2013).

A aplicabilidade de um questionário implica sua forma de coleta de dados preliminares tanto sobre o tema quanto sobre a população alvo da pesquisa. Tanto a introdução como o preâmbulo atuam como o informativo necessário apontado anteriormente, como também atuam como um incentivo para obter respostas (ZANELLA, VIEIRA, MORAES, 2013).

De acordo com o preenchimento, o questionário precisa ser claro sobre suas instruções para que a pessoa respondente não possua dúvidas, eventualmente venha preencher de forma errada, assinalando mais de uma resposta ou interpretando de maneira duplicada alguma instrução. Enquanto a sequência de temas e objetivos a serem agrupados, é necessário que a ordem possua coerência para o entendimento da utilidade da pesquisa, além de ser uma forma de incentivar que o mesmo seja respondido. Outro fator que contribui para isso é a aparência, que afeta diretamente no interesse do respondente pelo questionário. Assim, tanto a extensão do questionário quanto a fonte utilizada devem ser analisadas conforme a motivação das pessoas que serão solicitadas para respostas, como um atrativo, para que o questionário não seja abandonado (MAIA, 2020).

Em relação aos tipos de perguntas e respostas, as principais alternativas, tanto de múltipla escolha quanto dicotômicas, ambas possuem uma limitação significativa em seus respectivos formatos de resposta quando comparadas com a possibilidade de respostas nas três, ou quatro caso seja considerada a sondagem de opinião, classificações da técnica de entrevista, que são capazes de guiar a temática da conversa dependendo dos depoimentos de respostas (MARCONI, LAKATOS, 2003).

Sobre as aplicações, uma das mais frequentes da técnica de questionário é a pesquisa de satisfação de estabelecimentos e prestação de serviços. Uma das características do questionário que contribui para essa utilização é o seu potencial de objetividade como termômetro e rapidez para avaliar o quanto o cliente, por exemplo, está satisfeito com o serviço. Os principais fatores que influenciam na probabilidade de resposta e retorno dos questionários é a facilidade para seu preenchimento, como apontado anteriormente (MARCONI, LAKATOS, 2003). A ausência de complexidade é um fator que pode contribuir para o preenchimento do questionário e também a precisão dos dados. Dessa forma, é importante também ter atenção na construção do questionário para que o mesmo não possua perguntas longas, que podem incluir duas perguntas em uma mesma questão, sem expressões que generalizem dados ou que possam restringir a resposta (MAIA, 2020).

Vantagens e desvantagens entre as técnicas de entrevista e questionário

Quando comparamos o fator acessibilidade, principalmente se avaliarmos um cenário de uma pesquisa da área temática de políticas públicas, por exemplo, a técnica de questionário possui pouca relevância no sentido de inclusão, onde muito provavelmente pessoas analfabetas só poderão participar da pesquisa e aplicação do questionário caso sejam orientadas por familiares ou outras pessoas, enquanto a entrevista permite a participação direta da população nesse segmento (ZANELLA, VIEIRA, MORAES, 2013).

De acordo com o quadro a seguir, que aponta algumas das vantagens e desvantagens a respeito da aplicação das técnicas de questionário e entrevista, é possível identificar alguns desafios sobre a aplicação de cada uma delas. Segundo Maia (2020), tanto o questionário como a entrevista exigem do pesquisador um grande preparo, a considerar que a ausência de clareza sobre as informações a serem coletadas podem direcionar a pesquisa para um fim equivocado e enviesado. 

Quadro 1 – Vantagens e desvantagens
QuestionárioEntrevista
Menor detalhamento das respostas que dependem da redação do participante;Maior detalhamento das respostas;
Questões não podem ser reformuladas;A obtenção dos dados pode ser mais abrangente;
Depende da compreensão e interpretação do informante;Coleta demora mais;
Coleta é mais rápida;Dificuldade de amostra maior;
Facilidade de amostra maior;Interação verbal pode influenciar os dados.
Menor inibição do Informante pelo anonimato.
Fonte: MAIA (2020) p. 19

O conjunto de principais vantagens do questionário consiste nos seguintes aspectos: economia de tempo, obtenção de respostas mais rápidas e objetivas; há menos risco de distorção das informações pela não influência do pesquisador, que não está presente; pode ser respondido no tempo favorável ao indivíduo (MARCONI, LAKATOS, 2003). Já no conjunto de desvantagens se destacam a baixa percentagem de questionários devolvidos e grande número de perguntas não respondidas, além da não inclusão por não poder ser aplicado em pessoas analfabetas, o acesso e a leitura de perguntas posteriores antes de serem respondidas podem causar influência nas demais respostas (MARCONI, LAKATOS, 2003).

Ainda no campo de desvantagens, a técnica de questionário apresenta a impossibilidade de ajudar o informante em perguntas mal compreendidas como um aspecto negativo. Nesse sentido ao mesmo tempo é possível perceber que na técnica de entrevista esse fator e essa possível ajuda para a interpretação adequada da pergunta exige do entrevistador um cuidado extremo e uma grande habilidade, como pontuada anteriormente, para que o mesmo não influencie na resposta ou depoimento do entrevistado conforme sua interpretação.

Considerações Finais

De acordo com a análise realizada sobre as principais características, é possível identificar que as técnicas possuem diferentes aspectos que permitem um estudo de comparação entre suas vantagens e desvantagens, possibilitando interpretações distintas sobre suas respectivas aplicabilidades. Assim, é possível identificar que, é por meio da identificação dos objetivos e também do grau de especificidade dos dados necessários para a pesquisa que  a técnica com maior compatibilidade será adotada.

Cabe identificar que determinados aspectos diante uma técnica pode ser vantajoso de acordo com sua aplicação, e em outro cenário a mesma técnica pode não se encaixar, diante os objetivos e planejamentos que formam a particularidade da pesquisa. Assim como os demais aspectos iniciais, a escolha da técnica irá basicamente direcionar os processos da pesquisa, como também será capaz de corresponder ao formato de coleta de dados mais adequado conforme o objetivo e o resultado que se espera.

Cada uma das técnicas de pesquisa apresentadas possuem um conjunto de aspectos característicos que são significativamente compatíveis com as finalidades que sugerem a partir da identificação dos dados a serem adquiridos. Dessa forma, é possível perceber que alguns aspectos possuem diferentes funções em cada uma das técnicas, caracterizando seus formatos, direcionados para seus objetivos e ao interesse equivalente do pesquisador e do problema de sua pesquisa.

Referências

MAIA, Ana Cláudia Bortolozzi. Questionário e entrevista na pesquisa qualitativa: elaboração, aplicação e análise de conteúdo – Manual Didático. São Carlos: Pedro & João Editores, 2020. 

MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de metodologia científica. 5ª. Ed. – São Paulo: Atlas. 2003.

SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. São Paulo: Cortez. 2013.ZANELLA, Liane Carly Hermes; VIEIRA, Eleonora Milano Falcão; MORAES, Marialice. Técnicas de pesquisa. 2013.

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Sobre o Autor

Bacharela em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba. Foi integrante do Projeto Universidade em Ação (PUA): Capacitando para a Cultura de Paz, membro do Grupo de Estudos de Paz e Segurança Mundial (GEPASM); Pesquisadora bolsista do Programa de Inicação Científica da UEPB (PRPGP/UEPB – Cota 2018-2019), Participou da Empresa Júnior de Relações Internacionais Dignata Jr. Como Assessora Administrativo-financeira e Assessora de Marketing (2016-2017). Atuou como Diretora da Comissão Administrativa do Modelo Universitário de Diplomacia: Projeto de Negociações e Organizações Internacionais. Voluntária digital no UNICEF Brasil no #tmjUNICEF, integrante da página Política e Relações Internacionais (@politica.ri), participante do Upkey Virtual Intership Program-Summer 2021 e do Jornadas pelo Clima. Áreas de interesse: Segurança Internacional com ênfase em Estudos para a Paz (Educação para a Paz), Segurança Humana, Resolução de Conflitos, Direito Internacional, Economia Política Internacional, Governança de Recursos, Geografia e Meio Ambiente.

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