Declaração da Guerra ao Terror pelos EUA – 20 de setembro de 2001

Presidente George W. Bush faz discurso no Congresso após os ataques de 11 de setembro de 2001 | Fonte: Eric Draper, The U.S. National Archives via Flickr
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Os discursos são poderosos elementos da política e ao longo de todo o percurso histórico, emoções, pesares e sentimentos de glória foram ditos de bancadas de congressos, nas televisões e nos rádios, ajuntando o povo e as classes para a comoção ou para iniciar guerras. No início do novo milênio, cheio de expectativas, o mundo se viu estupefato diante do ataque às torres gêmeas do World Trade Center em Nova York. 

Dias após o atentado, em 20 de setembro de 2001, o presidente George W. Bush se dirige ao Congresso dos EUA e consequentemente para o mundo em um discurso forte, contundente, que demarca inimigos e faz uma declaração: os EUA estão em uma guerra, uma guerra ao Terror.

Aquela declaração faz 20 anos em 2021, e abriu precedentes para uma série de crises e acusações contra os EUA e sua guerra ao terror que após a morte do principal articulador do ataque, o líder do grupo terrorista Al-Qaeda, Osama Bin Laden, perdeu força e sentido, e as intervenções no Iraque contribuíram para o aparecimento do ISIS (Estado Islâmico).

A declaração de guerra ao Terror por George W. Bush foi depois procedida por uma agenda de política externa conhecida como “Doutrina Bush”, que alterou o comportamento internacional dos EUA e que teve resquícios inclusive na Era Obama, com uma postura altamente militarizada, de ação autônoma e de desrespeito aos organismos internacionais e que de uma maneira ou outra, fracassou.

Oriente Médio: onde tudo começou 

É impossível dissertar sobre o atentado sem retornar ao seu ponto de partida inicial: o Oriente Médio, grande fonte de divergências e disputas políticas e econômicas desde a Era Moderna. Na década de 1990, o mundo ainda vivia uma era pós-Guerra Fria com forte dominância estadunidense na política mundial. Ainda assim, vale pontuar que durante o período que antecedeu a queda do Muro de Berlim, os Estados Unidos foi responsável por prover com armamentos e treinamentos militares o seu mais recente aliado, o Afeganistão – visando evitar que o poder soviético se expandisse na região e alcançasse áreas estratégicas, como os poços de petróleo. 

As tropas lideradas por Osama Bin Laden – até o momento aliado dos EUA -, saíram vitoriosas, porém as consequências sofridas pelas forças afegãs foram desastrosas. A situação foi agravada quando o governo americano se recusou a prover o Afeganistão com recursos financeiros para a sua construção. Ademais, soma-se a esses fatos o extenso histórico de intervenções dos ianques no Oriente Médio: como a Guerra do Golfo (1990-1991), apoio a criação do Estado de Israel, intervenções no Irã e Kuwait. Foi nesse contexto histórico que grupos religiosos radicais passaram a atribuir ao Ocidente e, principalmente, aos Estados Unidos, os males que acometia o povo muçulmano. 

Após ataques da Al-Qaeda às embaixadas norte-americanas no Quênia e na Tanzânia (1998), idealizados por Bin Laden, George W. Bush exigiu do governo do Afeganistão que o líder da organização terrorista fosse extraditado, assim como a Al-Qaeda expulsa do território. Entretanto, cabe ressaltar que o país era governado pelo Talibã, grupo fundamentalista de orientação sunita. O Afeganistão, claramente, recusou a proposta, o que desencadeou na Operação Militar (2001) no país, que perdurou até os dias atuais. Foi apenas em maio de 2021 que o governo norte-americano iniciou a retirada das suas tropas do país, ato político que causou diversos questionamentos no cenário internacional. Em agosto, o Talibã retomou o controle de Cabul, a capital afegã – após a fuga do Presidente Ashraf Ghani.

11 de Setembro de 2001: um dia sem fim

Foi na manhã desse dia que terroristas sequestraram quatro aviões comerciais com passageiros a bordo. Dois desses aviões foram propositalmente colididos contra o World Trade Center, mais conhecido como “Torres Gêmeas”. O atentado matou todos que estavam no avião, junto às vítimas que morreram com o impacto da colisão ou com o desmoronamento dos prédios. O terceiro avião foi lançado contra o Pentágono, na capital estadunidense. O quarto avião foi o único que atingiu um campo aberto, caindo na Pensilvânia. É noticiado que os passageiros a bordo do quarto voo tentaram retomar o controle do avião e enfrentarem os sequestradores, que pretendiam, segundo relatos, atingir a Casa Branca. Fatalmente, não houve nenhum sobrevivente. Os números do atentado são ainda mais trágicos. Aproximadamente 3 mil pessoas morreram, sendo a grande maioria civis.

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Fonte: Wikimedia Commons

Com isso, o mundo conheceu – de forma catrastrófica – os males das “Guerras do Futuro”, tendo entre elas, o terrorismo. Com sua atuação descentralizada, em um mundo globalizado com fronteiras cada vez mais permeáveis, tornou-se uma pauta importante da política externa das grandes potências mundiais, principalmente dos Estados Unidos. 

Este ano (2021), o atentado completa 20 anos. Muitas medidas de antiterrorismo foram tomadas desde então, principalmente no que diz respeito à segurança internacional. Entretanto, para os parentes das vítimas e para aqueles que vivenciaram – mesmo que à distância – o atentado, esse dia – 11 de setembro de 2001 – nunca acabou. 

A Doutrina Bush 

A “Declaração de Guerra ao Terror” feita em 20 de setembro de 2001 foi consolidada com uma agenda de política externa que ficou conhecida como Doutrina Bush. O presidente Bush, no início de 2002 apresentou ao Congresso a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América (NSS-2002), tal proposta transformou o comportamento do país no palco internacional.

Essa nova postura é marcada por um reposicionamento global dos Estados Unidos, que ao contrário do período da Guerra Fria que era defensiva e reativa, passa agora por um comportamento belicoso, unilateral e proativo. Ao “Declarar Guerra ao Terror”, o governo norte-amercicano atualizava sua agenda internacional, ou melhor, colocava em prática sua nova articulação de hegemonia global, que há quase 10 anos perdia fôlego ao cair o Muro de Berlim.

A guerra ao terrorismo é uma disputa de poder estadunidense pela primazia do exemplo, desse modo, a prerrogativa era simples: quem é a favor dos EUA, da democracia liberal e da ordem é meu amigo, quem estiver de algum modo ligado a grupos que não compactuavam com a política norte-americana, eram inimigos declarados.

Por fim, podemos apontar alguns aspectos centrais da Doutrina Bush:

  • Em um pensamento derivado da Guerra Fria, Bush usa o termo “Eixo do Mal” para se referir aos inimigos dos EUA, que eram Irã, Iraque e Coreia Popular (Coreia do Norte). A classificação decorre da suspeita de que tais países possuíssem armas de destruição em massa e que o objetivo era atacar o país. Esse fato causou a guerra ao Iraque.
  • O princípio da “Guerra Preventiva”, em que os EUA atacaria todo o país que fosse suspeito de ameaçar a segurança nacional, mesmo que não houvesse provas de perigo real.
  • O terrorismo foi declarado um inimigo transnacional e que os EUA deve agir de forma pró-ativa para combater tais grupos, onde quer quer esteja, por isso vimos ações contra rebeldes na Chechênia, contra a Al-Qaeda e na Colômbia contra as FARC.

A Doutrina Bush então aprofunda a “Declaração de Guerra ao Terror” e reposiciona o país no campo internacional, para uma ação contundente, belicosa e unilateral. Da Guerra ao Terror passando pela adesão a essa doutrina, os EUA gastaram bilhões de dólares em guerras e conflitos que colocaram fim a vida de civis e militares.

Consequências

Com a fervorosa declaração de Guerra ao Terror, a geopolítica internacional foi reinventada. A pauta do terrorismo passou a circular em fóruns mundiais, assim como tornou-se uma das principais preocupações da política externa ocidental. Com isso, a doutrina adotada por Bush motivou a invasão estadunidense ao Iraque e ao Afeganistão. Outrossim, com a segurança nacional ganhando extrema relevância já no início do século, a vigilância governamental e o uso de dados por intermédio estatal também se tornou um modelo comum norte-americano para prever possíveis ataques e localizar ameaças. O USA PATRIOTIC Act, por exemplo, foi criado durante a Era Bush e permitia que a rede de segurança dos Estados Unidos interceptasse, sem nenhuma autorização prévia da Justiça, ligações e e-mails de organizações e pessoas que pudessem ser possíveis suspeitos de terrorismo. No campo político-militar, os Estados Unidos continuaram a marcar forte presença no Oriente-Médio, principalmente em áreas estratégicas para seu entorno geopolítico. Após uma perseguição que durou aproximadamente 10 anos, o líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, foi assassinado em 2011 por tropas de elite dos EUA. 

Mais recentemente, o governo estadunidense abriu caminho para tirar sigilos de documentos do 11 de setembro, a pedido da família das vítimas e congressistas, que questionam um possível envolvimento saudita no ataque. 

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Fonte: Liam Enea / Flickr

Pode-se concluir, dessa forma, que a política externa estadunidense continua a ser moldada pelos princípios que regeram a Doutrina Bush. Por fim, destaca-se que “diante dos ataques que vitimaram milhares de norte-americanos viu-se o fortalecimento da ideologia neoconservadora, militarista em essência, calcada no unilateralismo e na promoção dos valores democráticos” (SOUZA, André de Mello et al., 2014, p.59). 

Referências

RESENDE, Erica. Uma análise da Doutrina Bush no décimo aniversário do Onze de Setembro. Revista Textos & Debates, Boa Vista, n.18, 2001, p. 7-18.

SOUZA, André de Mello et al. Do 11 de setembro de 2001 à guerra ao terror: reflexões sobre o terrorismo no século XXI. 2014.

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