Início do conflito Irã-Iraque – 22 de Setembro de 1980

Imagem: Wikimedia Commons
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O dia 22 de setembro de 1980 marca o início da Guerra Irã-Iraque, com a invasão do território iraniano pelo Iraque. Característico pela sua longa duração, altos custos materiais e grandes perdas de vidas, o conflito não atingiu nenhum dos objetivos almejados pelos países participantes. Ele é considerado uma das guerras convencionais mais mortíferas da história moderna, na qual estima-se que 500.000 pessoas foram mortas em ambos os lados, enquanto centenas de milhares ficaram feridas ou desaparecidas.

Antecedentes do conflito

Com a retirada da presença britânica da região do Golfo Pérsico no fim dos anos de 1960 e início dos anos de 1970, a estratégia iraniana para com o seu entorno iniciou uma nova tomada de postura. Querendo estabelecer-se como “xerife regional”, o Xá queria que seu país fosse a principal potência na região, substituindo o Reino Unido. Um dos motivos para isso era que Teerã percebia que a saída da potência europeia poderia criar um vácuo de poder na região abrindo espaço para que “forças pró-comunistas, esquerdistas, ou revolucionárias se movessem para a região, portanto, uma ameaça direta à segurança da região” (DONOVAN, 2010, p. 47, tradução nossa).

O Iraque, por sua vez, era controlado pelo partido Baathista e estava mais preocupado com as questões internas. Desde movimentos separatistas, como o movimento nacional curdo, até ameaças causadas pelo Partido Comunista Iraquiano (PCI), Bagdá se dedicava a “assegurar legitimidade política e controle sobre a população iraquiana” (Ibidem, p.47). Essa falta de tranquilidade interna e inseguranças em relação à sua soberania geravam complicações para o papel e status autodesignado do Iraque de ser o líder da comunidade de países árabes ao mesmo tempo em que o Irã buscava preponderância regional.

Dessa forma, pode-se ver que havia duas grandes estratégias regionais mutuamente excludentes. Apesar de não serem diretamente construídas como rivais, seus objetivos acabam se chocando em termos geográficos. O Irã tinha o objetivo de substituir o papel do Reino Unido como principal potência na região do Golfo para assegurar a segurança regional. Ao mesmo tempo, o Iraque se autodenominava como líder da comunidade árabe, o que incluía países inseridos na mesma região determinada como alvo por Teerã. São essas estratégias que iriam fortalecer as justificativas de guerra entre os dois países.

A partir de 1969, começaram a haver disputas territoriais entre o Irã e o Iraque devido ao retiro iraniano do Tratado de Londres de 1937, o qual definia questões fronteiriças entre os dois países. Houve mobilizações militares das duas partes para a região disputada e o Iraque começou a deportar iranianos residindo dentro de suas fronteiras (Ibidem, p. 49). Além disso, houve rumores de que Teerã estaria apoiando o movimento curdo no norte iraquiano fazendo com que Bagdá também financiasse propaganda incitando os curdos no território iraniano. Toda essa movimentação acabou a tensionar ainda mais as relações entre as duas potências.  

Diplomaticamente, a situação se agravou quando o Iraque declarou que houveram iniciativas iranianas de derrubar o governo Baathista. Isso resultou na expulsão dos representantes oficiais do Irã e no fechamento de três consulados iranianos no Iraque, com as mesmas ações sendo tomadas pelo Irã. Diante disso, como um contra-ataque às pretensões do Irã, o governo iraquiano começou a mobilizar outros países do Golfo ao iniciar a narrativa de que ele seria um defensor do “caráter árabe” da região, diante das investidas iranianas.  Essa construção de uma frente árabe foi acelerada depois da tomada das ilhas de Hormuz pelo Irã o que, apesar de não terem sido violações do território iraquiano, foram percebidas como uma afronta iraniana diante ao projeto iraquiano de líder da região. 

No entanto, houve uma mudança do cenário desfavorecendo o Iraque depois que o mesmo se envolveu em questões fronteiriças com o Kuwait. Diante desse conflito, o Irã percebeu uma oportunidade de enfraquecer a frente árabe ao oferecer apoio ao Kuwait, apesar de ele mesmo temer as pretensões iranianas. Dessa forma, o Irã tentava consolidar seu papel de líder na região. Outros exemplos que confirmam isso foram o deslocamento de 300 tropas nacionais para o Omã como ajuda militar, e o financiamento ao governo do Iêmen contra as guerrilhas esquerdistas apoiadas pelo Iêmen do Sul e pelos soviéticos (Ibidem, p.54).

Foi no ano de 1974 que as tensões entre os dois países chegaram ao seu pico desde 1969. Foram reportados o uso extensivo de veículos blindados, artilharia pesada, e suporte aéreo pelos dois lados (Ibidem, p.55). O envolvimento das duas partes era tão intenso que mesmo um cessar-fogo promovido pela ONU não resultou em uma distensão do conflito. Contudo, em 1975, foi assinado o Acordo de Argel cujo conteúdo definia o fim das hostilidades com o encontro entre o Xá do Irã e o vice-presidente do Iraque, Saddam Hussein. Apesar das escaladas do conflito, as relações entre os Estados tiveram uma reversão repentina em março de 1975 com a assinatura do Acordo de Argel. O resultado foi um fim cooperativo para as hostilidades e conflito entre as duas nações (Ibidem, p.56).

Após o Acordo de Argel, as relações entre Irã e Iraque permaneceram harmoniosas até fevereiro de 1979, quando a Revolução Iraniana forçou o Xá a se exilar e instaurou um regime teocrático xiita, sob o comando supremo de Ayatollah Khomeini. Nesse cenário, os objetivos iranianos tomam outro foco: propagar o pan-islamismo pela região, isto é, exportar a revolução de caráter islâmico fundamentalista aos outros países da região, os quais eram considerados não totalmente independentes e subservientes aos Estados Unidos (Ibidem, p.89). Isso preocupou o governo iraquiano devido ao tom de ameaça ao seu regime secular.

Ao longo dos anos de 1979 e 1980, as tensões cresceram exponencialmente. Em junho de 1979, emergiram acusações do Iraque de que o governo de Khomeini estaria apoiando o movimento xiita árabe e convocando revoltas contra o governo de Saddam. Entre março e abril de 1980, o embaixador iraniano no Iraque, Mohammed Duaei, foi expulso do Iraque e o vice-primeiro-ministro iraquiano, Tariq Aziz, sofreu uma tentativa de assassinato por revolucionários persas (Ibidem, p.89). Enquanto isso, os problemas nas fronteiras não paravam de aumentar, com conflitos violentos esporádicos ocorrendo ao longo do período, além de disputas diplomáticas. Em 17 de setembro de 1980, o Iraque anunciou oficialmente que havia rescindido o Acordo de Argel (Ibidem, p.90).

O Conflito Irã-Iraque (1980-1988)

No dia 22 de setembro de 1980, a Guerra Irã-Iraque tem início com a invasão do Iraque ao território iraniano, rapidamente conquistando a cidade de Khorramshahr e isolando as cidades industriais de Abadan e Ahvaz. Saddam Hussein proclamou que lutaria “até que cada centímetro de terra usurpada fosse restaurada ao controle árabe” (TAKEYH, 2010, p.366). O Irã lutou na guerra com desvantagens notáveis, tal como a falta de aliados confiáveis e de um suprimento favorável de armas. Por outro lado, foi capaz de sustentar um conflito de oito anos devido a sua capacidade de mobilizar a sociedade e de consolidar seu poder sob coação, além de seu grande reservatório de mão de obra, sua profundidade estratégica e sua força econômica.

Ainda, a religião se tornou um condutor de guerra essencial para os iranianos. O que antes era um conflito interestatal por ajuste territorial e objetivos políticos, agora, sob o Estado clerical, tornou-se também uma competição de ideologias e religião. Isso porque, para o regime teocrático xiita, a guerra foi um ataque ao Islã e ao legado do Profeta por forças profanas da descrença. Isto é, o reinado secular de Saddam era visto como uma manifestação de inautenticidade e corrupção, que deveria ser derrubado a fim de cumprir a missão do Profeta e espalhar a Revolução Islâmica. Assim, era obrigação moral dos cidadãos defender o Irã como se estivessem salvaguardando a própria religião, fundindo a religião às reivindicações nacionalistas e transformando a guerra em uma “terceira revolução”. Dessa forma, a religião foi uma ferramenta para a mobilização de uma população por um governo que sublimava todas as suas lutas e sacrifícios (Ibidem, p.366).

Em janeiro de 1981, o Irã começou seu contra-ataque e rapidamente obteve ganhos impressionantes. Apesar do sucesso no campo de batalha, no entanto, o estabelecimento militar do Irã foi atormentado pela improvisação custosa, má coordenação entre os diferentes ramos das forças armadas e ataques de ondas humanas que eram basicamente missões suicidas em grande escala (Ibidem, p.368).

Em junho de 1982, o Irã praticamente expulsou o Iraque de seu território, decidindo continuar a guerra ao atacar o território iraquiano. As motivações para prolongar o conflito foram a percepção de que a guerra seria rápida, o medo de que se Saddam não fosse contido ele invadira o Irã novamente, e a ideia de que a guerra não era apenas sobre a restauração territorial, mas também sobre a defesa do Islã e a difusão da revolução. Assim, o resultado ideal era uma extensão do modelo islâmico do Irã para o Iraque (Ibidem, p.371-372).

À medida que o conflito se arrastava, ambos os lados modificaram suas táticas, experimentaram novas armas e cultivaram forças de oposição. No entanto, no final, todas as estratégias alteradas falharam em ajustar os parâmetros essenciais da guerra. A Guerra Irã-Iraque havia se transformado em um impasse clássico, que nenhuma das partes poderia vencer ou abandonar (Ibidem, p.373).

Incapaz de obrigar o Irã a aceitar qualquer proposta de cessar-fogo, Saddam procurou mudar as dimensões da guerra, visando cidades e danificando a infraestrutura de petróleo do Irã. Em 1984, tem-se a retaliação iraquiana contra a cidade de Dezful, na província do Khuzistão, rica em petróleo. Ao atacar alvos ligados à indústria de petróleo e exportação iranianas, esperava-se criar dificuldades econômicas para a República Islâmica, na tentativa de incapacitar o governo de importar equipamentos para a guerra e alimentos para uma população que se tornava cada vez mais inquieta (EL-SHAZLY, 1998, p.2).

Ademais, as duas potências começaram a atacar os centros de população civil uma da outra. Durante os últimos estágios da guerra, à medida que o Iraque aumentava sua capacidade de mísseis e aeronaves, e era capaz de atacar Teerã e outras cidades distantes, a guerra nas áreas urbanas contribuiu para a desmoralização da população iraniana (TAKEYH, 2010, p.374).  Já em 1983, o Iraque começou a usar agentes químicos como um componente integral de sua estratégia de guerra. O objetivo do gás não era apenas diminuir os ataques das ondas humanas do Irã, mas também aterrorizar o inimigo e minar sua moral (Ibidem, p.375).

Como reação, Teerã optou por retaliar os navios dos Emirados do Golfo que sustentavam financeiramente a máquina de guerra de Saddam e, consequentemente, dificultar o uso de poder marítimo do Iraque. Após seu sucesso no campo de batalha em meados da década de 1980, o Irã teve que lutar com a comunidade do Golfo liderada pelos sauditas, que aumentou sua produção de petróleo para deprimir os preços e prejudicar as perspectivas financeiras do Irã (Ibidem, p.375). Por outro lado, o Iraque foi privado de exportar seu petróleo através do Golfo devido a manobra iraniana. Assim, o Iraque se deparou com um grave problema geoestratégico: a commodity de que dependia sua economia tinha de ser exportada por meio de países vizinhos, de cuja disposição dependia (EL-SHAZLY, 1998, p.3).

Internacionalmente, o conflito entre os países persa e árabe passou a envolver os sheiks do Golfo, os Estados Unidos e as nações da Europa Ocidental (TAKEYH, 2010,p.368).  Tanto os Emirados do Golfo quanto os Estados Unidos optaram por apoiar o Iraque como meio de barrar as aspirações expansionistas do Irã, não como uma real aliança ou devoção ao país árabe (Ibidem, p.370). Esse apoio foi visto com a formação de uma aliança anti-iraniana (Conselho de Cooperação do Golfo), o fornecimento de dados de inteligência (“programa limitado de compartilhamento de inteligência com o Iraque”), de créditos comerciais para compra de produtos agrícolas, (Commodity Credit Corporation), e a venda de armas e meios de transporte. Além disso, a guerra teve sua cota de mediação e diplomacia buscando resolver o conflito, incluindo apelo do Conselho de Segurança da ONU ao fim da guerra e à restauração das fronteiras anteriores.

Em 1988, tem-se o fim do conflito com a aceitação pelos dois países da Resolução 598 da ONU. Ela delineou um plano de oito estágios para encerrar as hostilidades e enfatizou que qualquer poder que rejeitasse a proposta estaria sujeito a sanções obrigatórias. Essa resolução foi aceita pelo Irã após período de incerteza, mas o regime teocrático aceitou visto que não estava  mais apto para guerra devido ao uso pesado de armas químicas pelo Iraque, ao uso iraquiano de dados de inteligência fornecidos pelos Estados Unidos (Ibidem, p.379), ao medo de internacionalização da guerra, principalmente o envolvimento dos EUA, e à falta de recursos econômicos para sustentar o conflito (Ibidem, p.381-382).

Considerações finais

Depois de uma luta inconclusiva, o Irã não conseguiu derrotar o Iraque, transformar o Oriente Médio ou projetar seu modelo islâmico além de suas fronteiras. Já o Iraque não conseguiu avançar suas fronteiras nem tirar do poder o regime teocrático que ameaçava sua soberania. A Guerra Irã-Iraque tornou-se essencial para compreender a invasão do Kuwait pelo Iraque, em 1990, a Guerra do Golfo, em 1991, e a derrubada de Saddam Hussein do poder, em 2003.

Referências

DONOVAN, Jerome. The Iran-Iraq War: Antecedent and conflict escalation. 1ª Ed. Oxon: Routledge, 2011. 

EL-SHAZLY, Nadia El-Sayed. The Gulf Tanker War: Iran and Iraq’s Maritime Swordplay. 1ª Ed. Nova York: St. Martin’s Press, INC., 1998.

MAHMOUD, Sinan S. Legacy of Iran-Iraq War still reverberates 40 years later. Al Jazeera, Bagdá, 22 de setembro de 2020. Disponível em: <https://www.aljazeera.com/news/2020/9/22/legacy-of-iran-iraq-war-still-reverberates-40-years-later>. Acesso em: 25/08/2021

TAKEYH, Ray. The Iran-Iraq War: A Reassessment. Middle East Journal, Volume 64, No. 3, summer 2010.

WIKIMEDIA COMMONS. Children in Iraq-Iran War. Disponível em<https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Children_In_iraq-iran_war4.jpg>. Acesso em: 24/08/2021

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