A unificação da Arábia Saudita – 23 de Setembro de 1932

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Em 23 de setembro de 1932, Ibn Saud proclamou a fundação do Reino da Arábia Saudita. Para relatar tal processo de unificação, não podemos nos restringir somente ao tempo histórico relativo a este acontecimento. Dessa forma, abordaremos como se deu a trajetória da família Saudita, desde o século XVIII, com a sua aliança à teologia ortodoxa do Wahhabismo sunita, que é basilar para sua cultura até hoje.

Primeiro Estado Saudita (1745-1818)

Antes da unificação, o território árido da Arabia Saudita era subdividido por clãs tribais, emirados, reinos e distintas formas de organizações sociais. Neste contexto heterogêneo, o então Emirado de Diriyah era a terra natal dos Saudis, onde Muhammad ibn Saud fundaria o Primeiro Estado Saudita através da sua aliança com o então precursor do Wahhabismo, Muhammad ibn Abd al-Wahhab. Este, vivia mudando de moradia por conta da sua teologia conservadora, e não encontrava refúgio. Ambos tinham a ambição pela formação de um estado islâmico independente baseado na fé simples e rígida. Nesta comunhão, Wahhab encontrou a força militar para expandir seus preceitos, enquanto Muhammad ibn Saud teve o suporte religioso para crescer seus domínios por toda a península arábica (KOHN,1934).

Nos anos seguintes à expansão, a aliança Saudi-Wahhab colheu seus frutos vitoriosos, conquistando principalmente as cidades sagradas de Medina e Meca, além da cidade portuária de Jedá, de especial importância por conta do haje, com seus valores religiosos e econômicos. Entretanto, estas cidades estavam sob o domínio do Império Otomano desde 1517, que por consequência, respondeu à altura, extinguindo o Primeiro Estado Saudita, e inclusive demolindo a cidade de Diriyah, berço da casa Saudita em 1818 (WYNBRANDT, 2010).

Segundo Estado Saudita (1824-1891)

Agora sob autoridade Otomana, a pluralidade cultural e religiosa em terras árabes foi retomada. Apesar da derrota promovida pelo Império Otomano, as entidades Saudi-Wahhabistas mantiveram sua influência, pois o seu governo tinha unido, mesmo que à força, as tribos da região de Najd, conferindo uma estabilidade regional. Assim, com este vácuo de poder, a região voltou a ficar insegura com a anarquia tribal dos beduínos. Os Wahhabistas utilizaram-se deste revés, transformando a manutenção de sua fé em um símbolo de sua resistência a outras religiões  (WYNBRANDT, 2010).

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Fonte: Wikimedia Commons

Em 1824, Turki, neto do fundador da Casa Saudi, retorna com suporte de algumas tribos e assentamentos de Najd e retoma o controle da cidade de Riyadh, tornando-a nova sede da família Saud, e atual capital da Arábia Saudita. Em seu reinado, que durou até 1834 quando foi assassinado, trouxe de volta a estabilidade para a sua região, além de atrair de volta os refugiados que saíram de Diriyah. Coube a seu filho Faisal, assumir a posição de emir (WYNBRANDT, 2010).

Diferente do Primeiro Estado Saudita, a família Saudi não conseguiu repetir os feitos de seus antepassados, Faisal e seus filhos colidiram com a autoridade Otomana e a família Rashid, antes sua vassala, na ampliação de seus domínios, dificultando a manutenção da estabilidade. Ao longo deste período, internamente os Sauds contaram com disputas internas que enfraqueceram o próprio poderio militar e estratégico. Se beneficiando deste litígio entre os Sauds, por volta do meio do século 19, os Rashids se expandiram de norte a sul, de sua sede Ha’il. A dinastia Rashid foi um contraste na região de Najd, por serem tolerantes religiosamente e garantirem a segurança das peregrinações e dos mercantes, possibilitando assim, ainda mais atividade econômica (WYNBRANDT, 2010).

Com esta conduta, os Rashids atraíram aqueles que eram descontentes com as imposições wahhabistas dos Sauds, entre eles os Otomanos e as tribos Shammar. Já contando com a pressão Otomana e diversas derrotas na tentativa de expansão, os Sauds receberam o último golpe de Al Rashid em 1891, na Batalha de Mulayada, com a perda da cidade de Riyadh e o exílio da família Saud para o Kuwait em 1893 (WYNBRANDT, 2010).

Terceiro Estado Saudita: Reestabilização Saudita (1902-1913)

Após a queda de Riyadh, e vitória dos Rashids sobre a região de Najd, o suporte Otomano se consolidou. Mesmo exilado, Abd al Rahman, último soberano Saudita, manteve contato com a região e seu filho, Abd al-Aziz ibn Abd al-Rahman ibn Faisal Al Saud (1880–1953), também conhecido como Ibn Saud, foi tutelado pelos beduínos e cresceu aprendendo a vida do deserto, assim como acompanhou seu pai em suas campanhas militares. Apesar de ter sido instruído fortemente pelas bases wahhabistas, sempre buscou uma posição mais neutra que promovesse mais o crescimento de seu poder, o que futuramente promoveu tensões dentro das suas alas ainda mais fundamentalistas (AL-RASHEED, 2010). 

Ibn Saud, que acompanhou sua família ao buscar refúgio no Kuwait, agora na virada do século, traçou como elemento chave da redenção de sua ancestralidade a reconquista de Riyadh. Deste modo, de forma quase mítica, contando com cerca de somente 40 apoiadores, fora capaz de reconquistar a cidade, em 1902. Deu-se assim, o primeiro grande passo na direção da expansão saudita e seu estado islamico tão sonhado desde centenas de anos atrás (AL-RASHEED, 2010). 

Neste primeiro momento, seus principais adversários eram os Rashids, que controlavam o Najd. Sua influência já não se mostrava tão forte quanto no final do século, quando expulsaram os Sauds. Após a morte de Al Rashid, em 1897 seu sucessor Ibn Rashid não manteve as práticas mais aprazíveis, impiedosamente subjugou movimentos, aumentou taxas, saqueou assentamentos e atacou o Kuwait como tentativa de expandir o seu território (WYNBRANDT, 2010). 

Ainda que enfraquecido, o Império Otomano dava suporte aos Rashids, já os Sauds tiveram suporte dos Kuwaitianos. Neste conflito, que ficou conhecido como Guerra Saudita-Rashid (1903-1907), os Sauditas saíram como vencedores, com Ibn Rashid morto e recuo Otomano para a cidade sagrada de Medina. Compreendendo seus limites, Ibn Saud não fez avanços nos próximos anos, e somente em 1913, voltou a avançar, tomando dos Otomanos a cidade de Hasa. Desta maneira, os Otomanos reconheceram Ibn Saud como soberano Najd (AL-RASHEED, 2010).

Terceiro Estado Saudita: Construção da Força Militar e Primeira Guerra (1913-1918)

Em 1912, com pouco poder financeiro, Ibn Saud identificava a necessidade de desenvolver sua força militar, neste momento ele não controlava as rotas de comércio, como os Rashids, ou tinha retornos dos dízimos das cidades sagradas como os Xarifes de Meca. Então em conjunto com os mutawwa’a, uma ala ainda mais fundamentalista dos wahhabistas, estabeleceu as hujar, assentamentos com propósito de produzir seu poderio militar doutrinando beduínos da região a estarem sempre preparados para a jihad. As hujar, tinham objetivo de serem também comunidades agrícolas, mas esses frutos nunca floresceram (AL-RASHEED, 2010). 

Com o estopim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Ibn Saud tentou convencer a Arábia a ficar neutra. Já os Xarifes de Meca viram como uma oportunidade de expurgar o controle Otomano da região de Hejaz, enquanto os Rashids seguiram do lado Otomano. Em 1915, após a aproximação Britânica, Ibn Saud realizou um ataque, conhecido como Batalha de Jarrab, aos Rashids. Entretanto, foi derrotado e este fracasso fez com que os britânicos deslocassem seus esforços e suporte aos Xarifes de Meca, assim promovendo a Revolta Árabe (1916-1918), resultando na expulsão e ao findar da guerra a dissolução do Império Otomano (WYNBRANDT, 2010).

Terceiro Estado Saudita: Expansão Saudi e Unificação da Arábia (1919-1932) 

Apesar da pouca participação na guerra, Ibn Saud estreitou os laços com os Britânicos, em 1915, no Tratado de Darin, obtendo o reconhecimento de sua soberania e legitimidade ocidental sobre Najd. Ao final da guerra, a rivalidade entre os Sauds e Hashemitas intensificou-se visto que as duas dinastias ganharam poder derrotando os Otomanos, e em contraste os Rashids perderam o suporte Otomano. 

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Fonte: WYNBRANDT, 2010

Agora sem a guerra, as forças da península voltaram seus escopos para os adversários vizinhos. Já em 1919, Ibn Saud dá um passo ao oeste e conquista o oásis estratégico de Al-Khurma dos Hashemitas, mas com intervenção britânica, Ibn Saud recua e estabelece um armistício entre as duas famílias, que duraria 4 anos. Se aproveitando disso e do vácuo deixado pelo Império Otomano, Ibn Saud inicia sua campanha de expansão pela região, e seu alvo agora são os Rashids (AL-RASHEED, 2010).

Estes agora absolutamente fragilizados, e já prevendo as intenções dos Sauds, tentaram negociar suporte com Hashemitas e os emires do Kuwait, que já percebiam a ameaça que Ibn Saud apresentava para seus domínios. Pouco foi conseguido nessas negociações, e diante disso os Rashids não conseguiram segurar o avanço Saudita em seu território. Após aplicar pressão econômica e sitiar a família em sua cidade natal Ha’il, em 1921, Ibn Saud conquista e extingue seus opositores na região de Najd. (WYNBRANDT, 2010)

Os britânicos observavam a expansão feita pelos Ikhwam Sauditas e temiam incursões no Iraque e Kuwait, visto que o conceito de fronteiras era estranho a essa tribo militar. Sobre a região de Hejaz as relações já tinham se deteriorado muito  desde o final da guerra com Xarife Hussein, líder da revolta árabe, ainda que após a guerra seus filhos tenham sido escolhidos pelos britânicos para reinar sobre a Jordânia e o Iraque, em 1921 (WYNBRANDT, 2010). 

Em 1924, Ibn Saud viu isto como o momento para avançar e conquistar as cidades sagradas, que além do interesse religioso, dariam o fluxo financeiro para que ele sustentasse o seu reino. Vendo a campanha de Saud crescer na sua região, Hussein pede ajuda aos britânicos, mas é ignorado, e abdica do trono para seu filho Ali. Com as circunstâncias já definidas, Ali pouco pôde fazer, ao final de 1925, Ibn Saud retoma as cidades sagradas, quase consagrando seu objetivo final de seus antepassados (AL-RASHEED, 2010).

Agora com as principais cidades conquistadas por Ibn Saud, era o momento de administrar, mas seus guerreiros tribais Ikhwan não compreendiam a necessidade de parar. Conforme apresentado, Saud foi pragmático tomando suas decisões fazendo juízo da sua capacidade de expansão sempre considerando seu entorno. Assinou o tratado de Jeddah em 1927 com os britânicos, onde foi reconhecida a sua independência. 

Neste momento, Ibn Saud, buscou controlar a insatisfação de seus guerreiros, mas foi em vão, doutrinados pelos mutawwa’a, eram excessivamente irredutíveis em suas convicções wahhabistas, pois viam contradições em seu discurso de conciliação com estrangeiros infiéis, além de serem opostos as inovações tecnológicas, algo inconcebível para o grupo “religioso-tribal” (AL-RASHEED, 2010). 

Ibn Saud agora estava diante da Revolta dos Ikhwan (1927-1930), os guerreiros seguiram tentando expandir seus territórios ignorando as orientações de seu soberano, ao longo destes anos o seguiram fazendo incursões nos países vizinhos que eram protetorados britânicos como Kuwait e Iraque. Para Saud, estes combatentes foram uma eficiente forma militar, mas se tornaram problemáticos para consolidar sua autoridade. Ao final de 1930, em conjunto com forças britânicas, Saud combateu as últimas forças emergentes que seguiam constrangendo sua soberania. Com esta resolução, Ibn Saud pode proclamar a fundação do Reino da Arabia Saudita, em 1932 (WYNBRANDT, 2010).

Nascimento do Reino 1932

Foi reconhecido por Inglaterra, Rússia e outros governos estrangeiros. Como forma de contentar a ala wahhabista declarou leis mais restritas, baniu certas práticas ocidentais que se sustentam até hoje. Tendo que lidar com dívidas, sem novos investimentos e sem empréstimos à vista, Ibn Saud sabia que seria necessário encontrar uma fonte de renda que sustentasse a sua monarquia absolutista teocrática. Para seu esplendor, em 1938 foi descoberto petróleo em seu território, e desse momento em diante tem relações estreitas com os EUA.     

Referências Bibliográficas

AL-RASHEED, Madawi. A history of Saudi Arabia. 2ª Ed. Cambridge University Press, 2010.

CONVERGENCE STRIDE. Siege of Mecca: The precursor to 911 and ISIS. 2015. Disponível em: http://www.convergencestride.com/2015/03/siege-of-mecca-1979/. Acesso em: 23 de ago. 2021.

KOHN, Hans. The Unification of Arabia. Foreign Affairs, 13(1), 91–103, 1934

WYNBRANDT, James. A brief history of Saudi Arabia. 2ª Ed. Nova Iorque: Facts on File, 2010.

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