Compreendendo os dilemas da pandemia de Covid-19 através de “a Peste” de Albert Camus

Capa do livro A Peste, de Albert Camus | Imagem: Reprodução/BestBolso | Design: Marianna Oliveira via Canva Pro
Compreendendo os dilemas da pandemia de Covid-19 através de “a Peste” de Albert Camus 1

Publicada em 1947, a obra La Peste (A Peste) do filósofo e romancista franco-argelino Albert Camus (1913-1960) é uma obra de ficção centrada em investigar a capacidade de resiliência do ser humano em face de uma continuidade de tragédias, constantemente evocando a pergunta: o que fazer quando as coisas não melhoram? O mergulho no espírito humano, em meio a uma epidemia de uma peste mortal na cidade de Orã na Argélia colonial, reverbera com potente significado nos desafios que se impuseram à humanidade com o advento da pandemia de Covid-19. Antes de falarmos com mais detalhes sobre o livro e sua relevância não apenas para as Relações Internacionais (RI) em tempos pandêmicos, mas também para as relações humanas em seu âmago, vamos conhecer um pouco mais sobre o autor.

Quem foi Albert Camus?

Quando morreu em um acidente de carro no início de 1960, Albert Camus tinha apenas 46 anos. No entanto, ele já era ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, cedido ao autor apenas 3 anos antes, além de ser conhecido por suas experiências jornalísticas durante a ocupação nazista da França, período no qual foi editor-chefe do periódico clandestino Combat, resistindo até o fim do domínio alemão e, posteriormente, se tornando um dos principais jornais do país após a vitória dos Aliados na segunda guerra mundial.

Além de A Peste, várias outras obras do autor marcaram o mundo da literatura e da filosofia. O Estrangeiro e a sua história sobre a condição humana, repleta de elementos da filosofia existencialista de Camus e de suas reflexões a respeito do absurdo, é até hoje conhecida como sua principal publicação. Já O Mito de Sísifo é a sua principal publicação filosófica, na qual o autor aborda a incessante busca do ser humano por sua essência e por atribuir algum sentido à vida, contrastando essa procura com a realidade e o seu caos e ininteligibilidade, elencando as religiões e as ideologias políticas como causadoras de confusão cognitiva nesse processo – o livro é a principal fonte para a compreensão da filosofia do absurdo de Camus. Outras obras conhecidas e que seguem sendo lidas e discutidas até os dias atuais são O homem revoltado, onde Camus analisa a noção de revolta a partir de uma investigação filosófica e histórica, e A Queda, romance filosófico impregnado de reflexões sobre a verdade, a inocência e a “queda” do homem, nos moldes do clássico livro Memórias do subsolo do autor russo Fiódor Dostoiévski.

Entendamos, então, qual o enredo d’A Peste de Camus, a fim de identificar os paralelos entre a trama e os dilemas que permeiam a pandemia de COVID-19 que surpreendeu o mundo inteiro em 2020, trazendo à tona uma sensação de fragilidade e impotência que clamam pela leitura da obra do franco-argelino para a sua compreensão completa.

O enredo da obra

O livro A Peste tem como pano de fundo a cidade de Orã, na Argélia, em um ano não-especificado da década de 1940. Camus nos conta a história de uma cidade assolada por uma epidemia de uma doença contagiosa com uma taxa de mortalidade altíssima, deixando a cidade isolada do mundo após a instauração de um lockdown pelo governo local. No decorrer da trama, Camus descreve como um seleto grupo de residentes europeus da cidade lidam com a crise.

O protagonista do livro é o médico Bernard Rieux, que demanda uma resposta rápida para impedir a propagação da doença assim que percebe o risco que ela impõe aos cidadãos. Logo no início da trama conhecemos Jean Tarrou, que passa a se tornar amigo de Rieu, ajudando-o a formar equipes com voluntários para lidar com as consequências da epidemia na cidade. O lema de Tarrou é que a peste é responsabilidade de todos e que todas as pessoas deveriam fazer a sua parte no combate à doença.

Além dos dois amigos, Camus também nos traz mais alguns personagens que ganham um papel central no decorrer do livro: o padre Paneloux, que irá premiar os leitores com reflexões sobre o papel da religião numa crise e sobre o significado da fé em face dos horrores aleatórios que a vida proporciona; Cottard, um homem misterioso e ambicioso, que faz da chegada da peste uma oportunidade para si, se aproveitando do medo generalizado para lucrar com os vícios que se afloram em momentos de crise, vendendo cigarros e bebidas; e, por fim, um outro personagem que se destaca é Raymond Rambert, um jornalista de Paris que estava na cidade para investigar a condição sanitária da população árabe de Orã e se vê desesperado após o anúncio de lockdown, tentando voltar para a França de várias formas a fim de se reencontrar com sua esposa.

A Peste é, no fim das contas, uma narrativa mundana sobre os efeitos de estar preso em sua própria cidade, exilado dentro de sua própria casa, oprimido pela crueldade da natureza em sua revolta patológica, evidenciando as diversas facetas do sofrimento humano através dos cidadãos de Orã e suas jornadas perante a peste. Apesar disso tudo, A Peste não é uma ode ao pessimismo; pelo contrário, há uma consistente dramatização da vitória do espírito humano e da solidariedade em face do desolamento e das intempéries que rondam a vida, sejam elas uma doença contagiosa, uma guerra ou até mesmo a própria existência humana por si mesmo, revelando o imenso poder alegórico da obra.

Desta forma, se colocar diante da narrativa desenvolvida por Camus em A Peste surge como uma tarefa permeada de reflexos dos tempos contemporâneos: se a obra já servia como espelho alegórico de muitas das catástrofes, naturais ou não, enfrentadas pela humanidade, o advento da Covid-19 e a sua compatibilidade literal com o enredo da obra apenas exacerbou a utilidade crítica e reflexiva presente no livro do filósofo franco-argelino. Vejamos, então, as lições e os reflexos da pandemia de Covid-19 n’A Peste de Camus.

A pandemia de Covid-19 refletida n’A Peste de Camus

Não foi à toa que A Peste se tornou best-seller já no começo da pandemia em 2020: a sua primeira faceta é como um livro que, dentro de sua narrativa ficcional, detém uma série de instruções e lições de como lidar com uma situação como essas. Desde as ações do Dr. Rieux em alertar as autoridades, passando pelas nuances de como ele lida com o fato de estar na linha de frente do campo de batalha que é a luta por salvar as vidas dos infectados e finalmente chegando às ponderações religiosas do padre Paneloux, o livro é um apanhado de formas de lidar com a pandemia na medida em que penetra nas mais diversas searas afetadas por uma doença de tal alcance.

Outra lição que fica é a trajetória do personagem Cottard, que em seu egoísmo e oportunismo, revela os diversos dilemas de solidariedade que se impuseram desde o início da pandemia de Covid-19: seja com a necessidade de garantir meios de subsistência para aqueles que tiverem os seus meios de sustento prejudicados, seja com a empatia necessária para que cada um faça sua parte em conter a propagação do vírus, aderindo às recomendações sanitárias cruciais para o enfretamento da pandemia. Cottard incorpora muitos que, em face de uma dificuldade coletiva, apenas puderam enxergar suas próprias necessidades e vontades.

Além das contribuições para os dilemas pessoais que muitos tiveram de encarar durante a pandemia, o livro A Peste promove um nível de reflexão maior, útil para as considerações das Relações Internacionais sobre a pandemia. Vejamos uma passagem do livro:

Todo mundo sabe que as pestes costumam se repetir no mundo; no entanto, de alguma forma, achamos difícil acreditar naquelas que caem de repente em nossas cabeças de um céu azul […] Houve tantas pragas quanto guerras na história; ainda assim, pragas e guerras sempre pegam as pessoas igualmente de surpresa (CAMUS, 2017, p. 30).

A reflexão presente em A Peste é, portanto, útil para que entendamos como as dinâmicas presentes numa crise sanitária possuem paralelo com os enfrentamentos típicos de uma guerra, ressaltando o papel do elemento surpresa em ambas as situações, o que acaba contribuindo para a disseminação do caos que tende a ser exibida, em especial, nos momentos iniciais da catástrofe. Assim, o livro traz esse ponto crítico tão fundamental para as Relações Internacionais que, enquanto campo acadêmico, busca desvendar as soluções políticas que são engendradas em meio ao caos provocado por tais situações.

Mais à frente, Camus continua: “quando uma guerra começa, as pessoas dizem: ‘é algo muito estúpido; não pode durar muito.’ Mas embora uma guerra possa ser ‘muito estúpida’, isso não a impede de durar. A estupidez tem um jeito de se instaurar” (CAMUS, 2017, p. 31). Com essa colocação, o autor encaixa, dentro da narrativa, uma reflexão a respeito das decisões equivocadas que se acumulam durante uma pandemia, sejam elas vindas do governo ou da sociedade, mais uma vez agindo como uma espécie de profecia das diversas situações que surgiram ao longo da pandemia: como a rejeição de políticos e grupos ideológicos dos métodos necessárias para parar a propagação do vírus e os questionamentos infundados sobre a eficácia das vacinas. De fato, como pontua Camus, a estupidez sempre encontra um jeito de se fixar – ainda mais no caos.

Considerações Finais

A leitura do livro A Peste se tornou uma tarefa quase que obrigatória durante a pandemia, com o livro fazendo um sucesso imenso e sendo amplamente divulgado. Sendo assim, a sua importância já foi amplamente consagrada ao longo do caos patológico que o mundo viveu – e ainda vive. O existencialismo de Camus e as suas reflexões presentes no livro funcionam, ao mesmo tempo, como um calmante e um antídoto aos males da pandemia; não curando a doença, tarefa esta que a leitura do livro evidencia ser um papel colaborativo e, nas palavras do personagem Tarrou, uma responsabilidade de todos, mas sim inserindo na mente do leitor uma perspectiva capaz de dar significado à luta existencial que permeia uma sociedade que enfrenta uma crise desse tipo. Em suma, os dilemas da pandemia de Covid-19 perdem o seu mistério à luz d’A Peste de Camus – e, ao perdê-lo, nos clamam para encarar o que agora é uma dura realidade escancarada.

Referências

CAMUS, Albert. A Peste. São Paulo: Record, 2020.

‘A Peste’, de Albert Camus, vira best-seller em meio à pandemia de coronavírus. BBC News, 2020. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/curiosidades-51843967>. Acesso em: 17 de nov. de 2021.

Ficha técnica:

CAMUS, Albert. A Peste. São Paulo: Record, 2020. 288 páginas.ISBN-13: 978-8501111241.

Marcadores:
Avatar
Sobre o Autor

Graduando em Relações Internacionais (6º período) no Centro Universitário Jorge Amado (Salvador/BA). Faço análises que misturam cinema, cultura pop e literatura com as Relações Internacionais em: instagram.com/raffzvieira. Atuei como criador de conteúdo para os sites Neoiluminismo (http://neoiluminismo.com.br/), Insurgere (https://insurgere.com.br/) e Diário das Nações (https://diariodasnacoes.wordpress.com/). Atuo como colunista da Revista Relações Exteriores. Participei como estagiário voluntário na Gestão de Mídias Sociais da ANAPRI (Associação Nacional dos Profissionais de Relações Internacionais) e atuo como estagiário na Gestão de Conteúdo da OpenIGO Network. Áreas de interesse: América Latina, América do Sul, Globalização, Economia Política, Economia, Teoria das Relações Internacionais, História das Relações Internacionais, Geopolítica, Política Externa, Desenvolvimento Econômico, Estudos Culturais e Organizações Internacionais.

Deixe um comentário