Massacre do túmulo dos patriarcas na Cisjordânia: o conflito Árabe-Israelense e a Kach – 25 de fevereiro de 1994

Imagem: Haaretz News | Design: Marianna Oliveira via Canva Pro
Massacre do túmulo dos patriarcas na Cisjordânia: o conflito Árabe-Israelense e a Kach – 25 de fevereiro de 1994 1

Introdução 

Em 25 de fevereiro de 1994, durante os feriados religiosos coincidentes do Purim Judaico e do Ramadã mulçumano, o americano-israelense Baruch Goldstein, membro de um grupo extremista israelense denominado Kach, atacou e assassinou 29 pessoas e deixou 125 feridos. O extremista Goldstein abriu fogo dentro da mesquita Ibrahimi no complexo da caverna dos patriarcas em Hebron na Cisjordânia. 

Este acontecimento desencadeou diversos protestos entre os árabes, judeus e no mundo, onde alguns comemoraram o ato e outros o condenaram. A ONU- Organização das Nações Unidas na resolução de 904 do CSNU- Conselho de Segurança das nações Unidas em 18 de março de 1994 condenou o ataque e colocou a comunidade internacional em grande reflexão e alerta, onde podem chegar as ações de grupos extremistas como o Kach que ainda persistem em ameaçar a paz e as Relações Internacionais e como podem intervir para melhorar este ambiente e combater estes grupos sem ameaçar a segurança e a paz internacionais e diretamente os grupos envolvidos no massacre. Vamos entender um pouco como foi este acontecimento marcante que repercute até os dias de hoje e que grupo extremista foi o partido Kach.

Quem foi Goldstein e sua ligação com o Kach 

Baruch Goldstein, nasceu na década de 1970 e morava no Brooklyn, Nova York, ele era membro da Liga de defesa judaica, ao imigrar para Israel em 1983 serviu como médico nas forças de defesa de Israel primeiramente como recruta e depois nas forças de reserva. Após o fim do serviço ativo, Goldstein trabalhou como médico e morou em um assentamento perto de Hebron, onde atendia emergências. Naquela ocasião ele filiou-se na Kach.

Em 1981 Goldstein chegou a escrever para o jornal The New York Times, que dizia que Israel “deveria agir decisivamente para remover a minoria árabe de dentro das fronteiras “o que “poderia ser conseguido oferecendo engajamento, encorajamento e incentivos aos árabes para deixarem seu próprio acordo”. Segundo relatórios houve um registro de denúncia 4 anos antes do massacre sobre Goldstein, que foi ignorado pelas autoridades naquele momento. 

Kach foi um partido político judeu ortodoxo israelense que existiu entre 1971 a 1994, sua fundação se deu pelo rabino Meir Kahane em 1971, com base em sua ideologia ortodoxa nacionalista, o partido só conquistou uma vez o assento em 1984. Já não muito distante de sua fundação, foi bloqueado de concorrer às eleições em 1988 por considerações racistas e extremistas em seus discursos. Com o assassinado de Meir Kahane em 1990, o partido foi dividido por seu sucessor Kahane Chai onde separou o mesmo da principal frente do partido Kach. Com o massacre no túmulo dos patriarcas com o envolvimento do partido com o assassino o mesmo foi definitivamente banido no mesmo ano do acontecimento em 1994 pelo presidente de Israel no momento.  

Atualmente o partido é considerado terrorista e extremista, mas ainda foi registrado como movimentação clandestina de adeptos ao mesmo, ligado a um outro partido chamado Otzma Yehudit. Na única atuação de Kahane Chai, no partido com assento em 1984, os seus discursos já foram considerados racistas e extremistas e diversas vezes chegaram a ser boicotados. Apesar dos boicotes o partido chegou a se destacar. Após o seu envolvimento breve com Goldstein, que passou a fazer parte do partido, foi assassinado e Goldstein declarou vingança pela sua morte que ocorreu em Nova York em 1990.

Histórico do Massacre

Situada a 40km do sul de Jerusalém, Hebron é um local considerado sagrado para Judeus, Árabes e Cristãos, nesta importante cidade ergue-se o “túmulo dos patriarcas”, onde se encontram enterrados Abraão, Isaac e Jacó, com suas respectivas esposas, segundo tradição local. Também na mesma cidade situa-se a mesquita de Ibrahim, onde comemora-se na data de 25 de fevereiro 2 festas tradicionais que movimenta grande número de Judeus, Árabes e turistas. Os Judeus vão para a festa de Purim, e os mulçumanos para a festa de Ramadã (GOLAN;2021). 

O massacre teve coincidência com os dois festivais, sendo um dos mais sangrentos ataques na Cisjordânia, desde o início da ocupação dos israelenses em 1976, ocorrendo no dia 25 de fevereiro de 1994. Já em Hebron, antes mesmo do massacre ocorriam tensões após o acordo de Oslo assinado em 1993, inclusive, nesse mesmo ano, um amigo do assassino Goldstein, Mordechai Lapid e seu filho Shalom Lapid, foram mortos nesta mesma cidade. Na época Goldstein era o responsável emergencial de um assentamento próximo a Hebron, e estava presente na cena do crime do assassinato, onde referenciou os mesmo como terroristas e nazistas. Antes do ocorrido ele já havia demonstrado juntamente com o amigo traços de extremista anti-árabes como citado nos relatórios após o massacre (GOLAN;2021)).

Na ocasião da festa de Purim, no momento em que estava sendo realizada a leitura sobre Amelek, Goldstein entrou na mesquita de Ibrahim. Na data tanto judeus como mulçumanos tiveram permissão para acessar suas respectivas partes do complexo do túmulo dos patriarcas. As 05:00 horas da manhã do dia 25 de fevereiro de 1994, cerca de 800 mulçumanos obtiveram permissão para passar pelo portão leste da caverna para participar da Fajr, que é nome dado a primeiras das 5 orações islâmicas diárias. A caverna, onde se situa o túmulo dos patriarcas, estava sob guarda do exército israelense, mas dos 9 soldados que deveriam estar no serviço, 4 chegaram atrasados e 1 oficial apenas ficou lá (GOLAN;2021).

Como oficial do exército, Goldstein entrou no salão Isaac onde estavam os mulçumanos, ele portava um rifle de assalto e munições, como não foi parado, presumiram que ele se encaminharia para o local reservado para os Judeus realizarem suas orações. Segundo relatado, ele parou em frente ao local de saída dos mulçumanos e jogou uma granada e abriu fogo, matando 29 pessoas e deixando 125 feridos. Logo após atirar contra os mulçumanos, alguém o acertou com um extintor que, ao ser golpeado pelas pessoas no local, o atacaram e espancaram até a morte. Os relatórios oficiais finais foram contraditórios, uns falaram que Goldstein agiu sozinho e outros disseram o ver acompanhado, o que dificultou as investigações. 

Após o incidente ser divulgado pela imprensa, houve uma onda de protestos e conflitos em diversas localidades, principalmente entre os palestinos, em Israel também houveram alguns conflitos. Os protestos se arrastaram mundo a fora, e seu teve como foco o combate as atitudes extremistas e ao terrorismo. Sobre o movimento Kach no qual Goldstein era filiado, foi declarado ilegal e como organização terrorista extremista, confiscaram as armas de fogo pelo governo de Israel que também tomou medidas extremas contra os palestinos, banindo ruas de Hebron ao acesso, permitindo circulação apenas para judeus-israelenses e turistas estrangeiros. 

Consequências e Considerações Finais

Uma das principais consequências oriundas do massacre cometido contra os palestinos no túmulo dos patriarcas foi a Resolução de 904 do CSNU, adotada sem votação no dia 18 de março de 1994. O CSNU apelou à tomada de medidas para a segurança e proteção dos palestinos e todos envolvidos contra ações terroristas e de extremismo, além de condenar o ataque em Hebron e pedir a Israel que confiscasse todas as armas e manter suspenso o partido Kach.

Ademais, a ONU juntamente com o CSNU passou a incentivar ações fiscalizatórias sobre discursos extremistas como o apresentado por Goldstein períodos antes do massacre em outras ocasiões (UNITED NATIONS). Partidos de cunho extremistas e terroristas também entraram na pauta das discussões do Conselho de Segurança da ONU, procurando adotar medidas para erradicar partidos como o Kach (UNITED NATIONS). Toda a comunidade internacional ficou mobilizada com o acontecimento que, acarretando em modificações de políticas implantadas sobre Hebron por Israel, bem como medidas necessárias para manter a segurança da região, logo que, ainda continua sendo palco e referência religiosa tanto para os judeus quanto para os árabes. 

Referências Bibliográficas

GOLAN, Yair. Kahane Volta? Paz Agora, 2021. Disponível em: http://www.pazagora.org/2021/02/13395/ Acesso em 19 jan. 2022

MASSACRE da Caverna dos Patriarcas. Disponível em: <https://stringfixer.com/pt/Cave_of_the_Patriarchs_massacre>. Acesso em: 22 jan. 2022.

RODRIGUES, Denise dos Santos. O dilema contemporâneo do fundamentalismo: do extremismo à intolerância. In.: Revista Espaço Acadêmico, Maringá: Edição 206 – julho/ 2018. Disponível em: <http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/43584/751375137900>. Acesso em: 20 jan. 2022.

UNITED Nations: Resolution 904. Adopted by the Security Council at its 3351st meeting, on 18 March 1994. Disponível em: <https://undocs.org/S/RES/904(1994)>. Acesso em 18 jan. 2022

UNITED Nations: Security Council Resolution Concerning the Mosque Massacre on the West Bank, Safety and Protection of Palestinian Civilians, and the Middle East Peace Process. (1994). International Legal Materials, 33(2), 548-549. doi:10.1017/S0020782900026449.

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