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Este hemisfério pertence a todos nós?Lula, a Doutrina Donroe e a crise da ordem interamericana
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Este hemisfério pertence a todos nós?Lula, a Doutrina Donroe e a crise da ordem interamericana

"26.10.2025 - Encontro com o Presidente dos Estados Unidos (54880980650)" by Lula Oficial is licensed under CC BY-SA 4.0

O retorno explícito da política de poder

O artigo publicado por Luiz Inácio Lula da Silva no New York Times em 18 de janeiro de 2026 não deve ser lido apenas como uma manifestação diplomática ocasional, tampouco como um simples gesto retórico em defesa do multilateralismo. Trata-se de um posicionamento político estratégico, cuidadosamente calculado, diante de uma mudança estrutural na ordem hemisférica e, mais amplamente, na própria lógica de funcionamento do sistema internacional.

A publicação ocorre em um contexto excepcional: a retomada aberta da política de intervenção direta dos Estados Unidos na América do Sul, materializada no ataque em território venezuelano e na captura do presidente do país. Esse episódio não representa apenas um evento isolado de coerção militar, mas um marco simbólico do colapso definitivo da contenção jurídica que, ao menos formalmente, sustentava a ordem internacional desde 1945.

Ao escolher o New York Times como veículo, Lula fala diretamente ao centro narrativo do sistema liberal. Não se dirige prioritariamente aos governos latino-americanos, mas às elites políticas, econômicas e intelectuais do próprio Ocidente. O gesto revela uma compreensão clara: a disputa contemporânea não é apenas por território, recursos ou influência, mas também por legitimidade discursiva.

O argumento central do texto é simples e, ao mesmo tempo, profundamente perturbador para a lógica da política de poder: não existe legitimidade na justiça unilateral. Quando um Estado se arroga o direito de punir, capturar ou intervir em outro, fora de qualquer mandato coletivo, não está defendendo a ordem — está apenas substituindo regras por força.

Essa afirmação atinge o núcleo da Doutrina Donroe, versão contemporânea da Doutrina Monroe, que retoma a concepção das Américas como espaço natural de tutela estratégica dos Estados Unidos. A diferença é que, agora, essa tutela deixa de ser apenas implícita e volta a assumir forma operacional, militar e coercitiva.

Lula não menciona diretamente a Doutrina Donroe, mas todo o seu texto é uma resposta a ela. Quando afirma que a divisão do mundo em zonas de influência é “ultrapassada e danosa”, ele está atacando o princípio estruturante do realismo clássico e do realismo ofensivo: a ideia de que grandes potências têm direito natural a esferas de controle.

O presidente brasileiro também toca em um ponto central da crise atual da ordem internacional: a seletividade do Direito Internacional. Normas que só se aplicam aos fracos deixam de ser normas e passam a ser instrumentos de dominação. Nesse cenário, a legalidade não protege, apenas legitima a hierarquia.

Ao afirmar que nenhum líder detém o monopólio do sofrimento de seu povo, Lula tenta deslocar o debate da moralidade seletiva para a universalidade das regras. Contudo, ao mesmo tempo, recusa a noção de que a punição possa ser terceirizada a uma potência que se apresenta como juiz global.

Esse é o ponto mais sensível do texto: Lula não está defendendo governos, mas defendendo o princípio de que apenas processos políticos internos e coletivos podem gerar legitimidade. Trata-se de uma crítica direta à lógica da mudança de regime promovida externamente.

Ao mesmo tempo, o artigo reconhece a realidade da interdependência. Lula não rompe com os Estados Unidos. Pelo contrário, reafirma o diálogo, a cooperação e a necessidade de articulação entre as duas maiores democracias do continente. O que ele recusa não é a parceria, mas a hierarquia.

Essa ambiguidade é central para compreender o texto. O Brasil não confronta os Estados Unidos como adversário estratégico, mas como parceiro que se afastou das próprias regras que ajudou a criar.

O artigo, portanto, não é antiamericano. Ele é, paradoxalmente, uma crítica interna à tradição liberal ocidental feita a partir da periferia do sistema. Lula fala como alguém que ainda reivindica a validade da ordem liberal, mesmo quando essa ordem já se encontra em processo avançado de erosão.

É justamente por isso que o texto causa desconforto. Ele não acusa apenas Trump, nem apenas a política externa atual dos Estados Unidos. Ele acusa uma trajetória histórica de normalização da exceção, na qual o uso da força deixa de ser último recurso e passa a ser instrumento rotineiro de gestão política.

Nesse sentido, o artigo deve ser lido menos como denúncia e mais como alerta: quando a política internacional se organiza exclusivamente pelo medo, a estabilidade se torna ilusória. A coerção produz obediência temporária, mas destrói a legitimidade que sustenta qualquer ordem duradoura.

A pergunta que Lula lança, ainda que implicitamente, é simples e profunda: se o hemisfério pertence a todos, quem decide o seu destino?

Essa questão não será respondida apenas por discursos, nem por artigos em jornais. Ela será respondida pela capacidade — ou incapacidade — dos países latino-americanos de transformar princípios em estratégia, e soberania em poder efetivo.

Multilateralismo, seletividade e a falência da legitimidade

O núcleo normativo do artigo de Lula repousa sobre uma ideia central: a crise da ordem internacional não decorre apenas do comportamento de potências específicas, mas da erosão sistemática da legitimidade das regras que deveriam organizar o sistema.

Quando o presidente brasileiro afirma que a autoridade das Nações Unidas vem sendo corroída ano após ano, ele reconhece um processo estrutural: a transformação do multilateralismo em instrumento seletivo das grandes potências. O Conselho de Segurança, concebido como instância de equilíbrio, passou a operar como espaço de bloqueio político ou de legitimação circunstancial, dependendo do interesse dos membros permanentes.

Nesse ambiente, o uso da força deixa de ser exceção e se converte em prática recorrente. A consequência é aquilo que Lula descreve como anomia internacional: um sistema sem norma efetiva, no qual o poder substitui o direito.

Esse diagnóstico é consistente com grande parte da literatura contemporânea sobre crise da governança global. Autores do institucionalismo liberal, do realismo crítico e da escola inglesa convergem em um ponto: normas só sobrevivem quando são percebidas como legítimas. Quando passam a ser aplicadas apenas contra determinados atores, deixam de produzir obediência voluntária e passam a depender exclusivamente da coerção.

É nesse ponto que o comentário preliminar de Paulo Roberto de Almeida adquire relevância analítica. Ao lembrar que muitos dos argumentos de Lula também se aplicam à Rússia e à guerra na Ucrânia, ele expõe a principal fragilidade do discurso internacional contemporâneo: a seletividade moral.

A crítica não invalida o texto de Lula. Pelo contrário, o aprofunda. Ela revela que o problema não é quem viola o Direito Internacional, mas o fato de que as violações se tornaram estruturalmente normalizadas. O sistema já não reage por princípio, mas por conveniência.

Essa seletividade produz um efeito devastador: transforma o Direito Internacional em linguagem política, e não mais em limite ao poder. O resultado é a substituição progressiva da legalidade pela narrativa.

No caso latino-americano, esse fenômeno é ainda mais sensível. A região construiu sua identidade diplomática em torno de três pilares: soberania, não intervenção e solução pacífica de controvérsias. Quando uma intervenção militar direta ocorre no subcontinente, não se trata apenas de uma violação jurídica, mas de uma ruptura simbólica da identidade política regional.

Lula explora esse ponto ao afirmar que esta é a primeira vez, em mais de dois séculos, que a América do Sul sofre um ataque militar direto dos Estados Unidos. A frase não é apenas histórica; é estratégica. Ela reconecta o presente a uma memória coletiva de tutela, dependência e subordinação.

Ao mesmo tempo, o presidente brasileiro evita a retórica de confronto ideológico. Não fala em imperialismo, não menciona socialismo, não mobiliza categorias da Guerra Fria. Sua linguagem é institucional, jurídica e moral. Ele busca legitimar sua crítica dentro da própria gramática liberal.

Esse é um movimento político sofisticado: Lula tenta disputar a ordem liberal por dentro, não contra ela.

Contudo, essa estratégia carrega uma tensão fundamental. Ao defender normas que já não são respeitadas pelos próprios arquitetos do sistema, o discurso corre o risco de se tornar normativamente correto, mas politicamente impotente.

É aqui que a análise precisa ser mais dura. O multilateralismo contemporâneo não está em crise apenas por causa da ação das grandes potências, mas também pela incapacidade das potências médias de convertê-lo em instrumento efetivo de proteção.

O Brasil, por exemplo, defende a soberania, mas não dispõe de mecanismos regionais robustos de segurança coletiva. Defende a autodeterminação, mas opera em uma América Latina profundamente fragmentada. Defende a multipolaridade, mas carece de uma estratégia clara de inserção nesse sistema multipolar.

O discurso, portanto, é coerente. A capacidade, ainda não.

Lula também critica a divisão do mundo em zonas de influência. Essa crítica, embora normativamente correta, colide frontalmente com a lógica estrutural do sistema internacional. Desde o século XIX, a política internacional é organizada em torno de esferas de controle, explícitas ou implícitas. O que mudou não foi a lógica, mas a disposição em reconhecê-la abertamente.

A Doutrina Donroe apenas formaliza aquilo que já estava em operação: a reinterpretação das Américas como espaço prioritário de projeção estratégica dos Estados Unidos em um mundo de competição sistêmica.

Nesse cenário, a fala de Lula assume um caráter quase contra-hegemônico, ainda que formulada em linguagem diplomática. Ele tenta reintroduzir a ideia de universalidade das normas em um sistema que já voltou a operar segundo a lógica da hierarquia.

O paradoxo é evidente: Lula fala em nome de uma ordem que está morrendo, enquanto tenta preservar seus princípios para um futuro ainda incerto.

Sua defesa da cooperação, do investimento, da integração e do desenvolvimento regional revela uma compreensão clara de que a soberania, no século XXI, não se sustenta apenas com discurso político, mas com capacidade econômica, tecnológica e institucional.

Ainda assim, permanece a pergunta central: como proteger a soberania em um sistema que voltou a ser governado pelo poder?

O texto de Lula não oferece essa resposta. Ele oferece apenas o diagnóstico normativo do problema.

E talvez seja exatamente por isso que o artigo é tão importante: ele revela, com clareza, a distância entre o mundo que desejamos e o mundo que efetivamente se impõe.

Venezuela, América Latina e o limite do discurso

A Venezuela ocupa, no texto de Lula, um papel que vai além do caso específico. Ela funciona como símbolo da nova ordem hemisférica: um laboratório de coerção, um aviso político e uma demonstração de poder.

Quando o presidente brasileiro afirma que o futuro da Venezuela deve permanecer nas mãos de seu próprio povo, ele não está apenas defendendo um princípio jurídico. Está, implicitamente, rejeitando a lógica da mudança de regime conduzida externamente, prática que marcou profundamente a história latino-americana ao longo do século XX e que retorna, agora, sob novas justificativas.

A captura do presidente venezuelano, somada ao ataque militar em seu território, inaugura um precedente perigoso. Não se trata apenas de uma violação do Direito Internacional, mas da normalização de uma prática: a transformação da soberania em variável condicional. Estados deixam de ser sujeitos plenos e passam a ser avaliados segundo critérios políticos definidos externamente.

Esse processo não atinge apenas a Venezuela. Ele redefine o ambiente estratégico de toda a América Latina. Ao aceitar, mesmo de forma passiva, que um governo possa ser removido por decisão unilateral de uma potência, a região aceita também a fragilização estrutural de sua própria autonomia.

Nesse sentido, o discurso de Lula não é apenas sobre Caracas. É sobre Brasília, Buenos Aires, Bogotá, Santiago e qualquer capital que, em algum momento, possa ser considerada inconveniente.

O problema central, contudo, é que a América Latina enfrenta essa realidade sem um sistema regional de proteção efetiva. A Unasul, a Celac, a OEA e outros fóruns operam mais como espaços de discurso do que como instrumentos de poder. Não existe hoje, no continente, uma arquitetura de segurança coletiva capaz de gerar custos reais para a violação da soberania de um de seus membros.

Essa fragilidade transforma o discurso em vulnerabilidade.

Ao mesmo tempo, Lula tenta preservar uma relação construtiva com os Estados Unidos. Ele reconhece a interdependência, a cooperação e a necessidade de diálogo. Essa postura revela maturidade diplomática, mas também evidencia o dilema brasileiro: como defender princípios sem possuir instrumentos equivalentes de dissuasão?

O Brasil fala como potência média responsável, mas opera em um sistema que voltou a ser estruturado pelas grandes potências. Defende normas, mas não controla os mecanismos de aplicação dessas normas. Defende a multipolaridade, mas ainda não consolidou sua posição em nenhum dos polos.

Esse descompasso entre discurso e capacidade é o limite estrutural da política externa brasileira contemporânea.

O artigo de Lula, portanto, deve ser lido como um documento de transição histórica. Ele marca o momento em que o Brasil reconhece, ainda que de forma indireta, que a ordem liberal deixou de ser garantida por seus próprios criadores. Ao mesmo tempo, revela a tentativa de preservar seus princípios como horizonte normativo, mesmo quando a realidade já opera sob outra lógica.

A Doutrina Donroe simboliza esse novo momento. Ela não é apenas uma política para a América Latina, mas uma expressão regional de uma transformação global: o retorno explícito da política de poder, da coerção, das esferas de influência e da hierarquia.

Nesse contexto, a frase “este hemisfério pertence a todos nós” assume um caráter quase trágico. Ela expressa mais um desejo do que uma descrição da realidade.

O hemisfério pertence, na prática, a quem dispõe de capacidade militar, econômica, tecnológica e narrativa para impor sua vontade. O pertencimento coletivo só existe quando acompanhado de poder coletivo.

É justamente aí que reside o maior desafio da América Latina e do Brasil. Defender a soberania exige mais do que princípios. Exige estratégia, integração real, capacidade de coordenação e construção de poder regional.

Sem isso, a região continuará reagindo a decisões tomadas fora dela.

O texto de Lula é, portanto, necessário. Ele é correto. Ele é coerente. Ele é legítimo. Mas ele também revela a assimetria fundamental entre a linguagem da diplomacia e a lógica da geopolítica.

A crise da ordem internacional não é apenas institucional. Ela é, sobretudo, uma crise de autoridade. Autoridade não se decreta. Ela se constrói.

Se o hemisfério deve pertencer a todos, então todos precisam ter condições reais de defendê-lo.

Essa é a tarefa histórica que se impõe à América Latina no século XXI.

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Analista de Relações Internacionais at ESRI | Website |  + posts

Analista de Relações Internacionais, organizador do Congresso de Relações Internacionais e editor da Revista Relações Exteriores. Professor, Palestrante e Empreendedor. Contato profissional: guilherme.bueno(a)esri.net.br

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