Política Externa Brasileira no governo Bolsonaro – O país conseguirá recuperar sua boa imagem perante o sistema internacional?

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A 7° edição do projeto “Gênero, Número & Grau” da Revista Relações Exteriores trará uma reflexão acerca da imagem internacional do Brasil durante o governo Bolsonaro.

Contexto

O Brasil é reconhecido internacionalmente por sua forte tradição diplomática, prezando pela negociação e pelo diálogo para solucionar controvérsias. O país se envolveu em poucos conflitos armados, o que também é um ponto a ser considerado. Vale destacar os princípios da diplomacia brasileira, que guiaram a maioria das ações e iniciativas exteriores do país a partir do final do século XIX, que são: soberania, autonomia, desenvolvimento nacional e não intervenção, o que dá ao Estado brasileiro uma imagem positiva no campo internacional. Para o Brasil, as relações internacionais não precisam ser marcadas pelo conflito, mas pelo diálogo e pela cooperação. (PATRIOTA, 2013)

Apesar de seu uma diplomacia principiológica, ao longo da história a política externa brasileira sofreu mudanças, tendo em vista as orientações políticas dos governos; o que era traduzido em distanciamento ou em equidistância pragmática, além de lograr feitos importantes para nosso desenvolvimento em negociações internacionais. Por mais que tenha havido mudanças na política externa do país, a imagem diplomática do Brasil conseguia ser reparada.

Contudo, atualmente o país passa por uma crise diplomática. Com a ascensão de Jair Bolsonaro ao cargo de presidente da república, o Brasil está vendo a sua imagem perante o sistema internacional ruir, com o envolvimento do país em discussões com Estados parceiros, e com as polêmicas ditas pelo presidente. Dentre as divergências internacionais podemos citar o embate entre Macron e Bolsonaro sobre o desmatamento na Amazônia, evento este que causou o bloqueio de repasse de dinheiro pela Alemanha e pela Noruega em 2019. Ademais, os desacordos entre França e Brasil podem impactar negativamente o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul.

Outro ponto que está gerando preocupação são os constantes ataques do país a China, o principal parceiro comercial do Brasil desde 2009. O Estado Chinês vem sofrendo diversos ataques, principalmente por conta do coronavírus, que Bolsonaro afirma ter sido criado em laboratório chinês, e do comunismo, que o presidente alega ser uma ameaça ao país. O número de polêmicas que o Brasil se envolveu nos últimos anos é grande, mas o que podemos ver é que a imagem do país perante o sistema internacional está ruindo cada vez mais.

Referências bibliográficas:

PATRIOTA, Antonio de Aguiar. Política externa brasileira: discursos, artigos e entrevistas (2011-2012). Brasília : FUNAG, 2013.

Pergunta

Tendo em vista o que foi apresentado acima, e em conformidade com os seus conhecimentos com analista, avalie a expressão abaixo:

O Brasil precisará trabalhar bastante a sua diplomacia para recuperar a boa imagem que o país tinha internacionalmente, e reatar as relações que foram balançadas com outros países nos últimos anos.

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DISCORDA EM PARTES

Lucien Vilhalva de Campos

Doutorando em Relações Internacionais na Universidade de Lisboa | Pesquisador visitante na Universidade de Düsseldorf

Depois de alguns anos estudando os processos de formulação da política externa dos Estados e consequente prática da diplomacia, tudo me leva a acreditar que tanto a política externa quanto a diplomacia também manifestam dinâmicas subjetivas, maleáveis e, de certa forma, transigentes e transformadoras.

Isto deve-se, em grande medida, a duas características que só podem ser entendidas através de uma leitura personificada da diplomacia. Vou tentar ser mais sucinto e menos acadêmico para explicar tais características que permitem que uma possível troca de governo e corpo diplomático a partir de 2023 recupere sem muito trabalho a boa imagem do Brasil nas relações internacionais.

A primeira característica da diplomacia é a dialética, popularmente entendida como a arte do diálogo entre os seus atores praticantes. A dialética fornece uma conotação mais humana e personificada, pois nos mostra que a diplomacia de um Estado não se trata apenas de uma prática objetiva, natural e imutável, e sim de uma construção social da mente humana.

Ou seja, o Estado, e seu respectivo comportamento nas relações internacionais, se configura como um ator composto por "cérebros" (quadros), indivíduos propositivos de um diálogo construído que visa alcançar certos objetivos e interesses. Por exemplo, os diálogos postos em prática pela diplomacia brasileira através do Ex-chanceler Ernesto Araújo cumpriram com o interesse negacionista da pandemia e do desmatamento da Amazônia que acabou promovendo atritos com parceiros essenciais, como China e União Europeia.

Nestes casos, através da dialética a tradição de uma diplomacia principiológica brasileira foi rompida, caracterizando assim, uma diplomacia pária e disfuncional. Isto ocorreu devido aos novos "cérebros" escolhidos para liderar e compor o corpo diplomático brasileiro nos últimos anos. Seguindo esta lógica, também podemos explorar a segunda característica da diplomacia, que é a cognitiva.

Tal característica se refere aos mecanismos mentais que os indivíduos praticantes da diplomacia se valem ao utilizar a percepção, memória e razão. Numa leitura cognitiva, portanto, um governo só é capaz de "ver", "pensar" e "agir" no mundo diplomático por intermédio dos "cérebros" que o constitui. Nesse sentido, a prática da diplomacia também depende da percepção e vontade dos "cérebros" em alterar as diretrizes da políticas externa do país que eles representam de acordo com os seus interesses.

Tudo isso pra dizer que através da dialética e cognição, os "cérebros" da diplomacia podem modificar a política externa do Estado, tanto para a disfuncionalidade quanto para o redirecionamento das boas práticas diplomáticas. As relações internacionais nos mostram que algumas dinâmicas da conjuntura internacional, como a diplomacia, não são fixas, estáticas e permanentes.

Lá fora, os "cérebros" da diplomacia internacional sabem disso. Eles estão apenas esperando a mudança de quadros da diplomacia brasileira em 2023 para, eventualmente, voltar a trabalhar com o Brasil e retomar as relações bilaterais e multilaterais.

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DISCORDA EM PARTES

Leonardo Capovilla

Estudante de Relações internacionais na Unesp - Franca | Professor no projeto de extensão "Cursinho Popular S.E.U."

Para compreender a política externa de um país, faz-se necessário entender a distinção entre país, Estado e governo. Em poucas palavras, pode-se definir país como sendo o resultado da soma de diversos atores dispostos em um território delimitado e reconhecido internacionalmente. O Estado, por outro lado, seria o corpo institucional do país comandado por um chefe – no caso brasileiro, o presidente. 

O Governo, contudo, não se define pelas instituições, mas pelo ordenamento político deste Estado, por onde se tomam as decisões em nome de todos cidadãos, assumindo, inclusive, as premissas diplomáticas. Como Chefe de Estado e de Governo, o presidente da república brasileira não só nomeia os ministros – entre eles o mais importante para as relações diplomáticas, o Ministro das Relações Exteriores -, mas também orienta a ação externa do país diante do meio internacional.

É de se imaginar, portanto, que o momento diplomático vivido por um país de maneira considerável do seu governante. Por extensão, os alinhamentos ou desavenças internacionais entre Estados podem – entre outros fatores – ser fortemente influenciados pelo alinhamento ou desavenças ideológico-políticos desses políticos. Desse modo, o que se viu nos primeiros anos de governo de J. Bolsonaro, assessorado por Ernesto Araújo, foi uma tentativa de aproximação de governos mais conservadores, mesmo que isso implicasse no detrimento de relações com demais linhas ideológicas.

Contudo, apesar de divergir da história diplomática brasileira, a atual gerência diplomática não pode ser firmada ainda como uma definitiva mudança na tradição da diplomacia, tendo em vista que o próprio Itamaraty atuou de maneiras contrárias ao próprio governo para tentar garantir o bem-estar internacional. Contudo, pode ser compreendido como um primeiro momento de mudança, que se for continuado nos próximos governos, pode dificultar uma futura recuperação, senão, poderá ser visto apenas como um momento único destoante na história da diplomacia brasileira.

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CONCORDA EM PARTES

Rafael Vieira

Graduando em Relações Internacionais no Centro Universitário Jorge Amado (Salvador/BA)

Desde o início da gestão Bolsonaro, a diplomacia brasileira passou a ser refém de uma série de bravatas oriundas da concepção mundial de Olavo de Carvalho, figura que apadrinhou o ministro das Relações Exteriores até março de 2021, Ernesto Araújo.

Da afirmação de que as mudanças climáticas são um "plano globalista chinês", passando pela percepção do Brasil como combatente do "tecno-totalitarismo" e de um antiglobalismo esquizofrênico insistente, chegando até o enfrentamento à OMS e ao assim chamado "comunavírus" chinês – a passagem do indicado de Olavo de Carvalho no MRE fraturou a imagem do Brasil de forma significativa.

Sendo assim, concordo em partes que o Brasil terá dificuldade para remontar todo o aparato de soft power fortificado na gestão de Celso Amorim. que foi desmontado na gestão de Ernesto Araújo. Inclusive, a política externa do governo Bolsonaro se caracteriza pela lamentável consolidação de uma "soft weakness", pois se o caráter soft da política externa de um país diz respeito à sua projeção internacional em termos culturais, imagéticos, institucionais, diplomáticos e até publicitários, então o que tivemos na recém falecida gestão de Ernesto Araújo foi justamente um enfraquecimento dessa característica.

Minha concordância se dá em partes pois, com uma mudança de governo, o mundo tende a ficar mais suscetível e leniente ao Brasil, já que muitos dos danos causados à imagem brasileira têm sido compreendidos como causados pelo governo atual e não pelo Estado brasileiro como um todo – o que dá margem para uma retomada ágil da política externa brasileira caso um novo presidente seja eleito.

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CONCORDA EM PARTES

Andreia G. P. Aizawa

Advogada | Pós-graduada em Direito Internacional | Colunista e Pesquisadora Voluntária da Revista Relações Exteriores

Há décadas, e por diferentes governos, a diplomacia brasileira caracterizava-se: pela independência do país em relação aos EUA nos assuntos externos; aproximação com países africanos; não interferência em assuntos internos de outros países, inclusive da América do Sul; pelo pragmatismo com os principais países europeus; e pelo diálogo pela paz e conciliação pelo mundo.

No entanto, no atual governo do presidente Jair M. Bolsonaro, adotou-se uma visão radical de extrema direita, com uma política externa baseada em afinidade pessoal ideológica com outros líderes, ataques a parceiros comerciais, distanciamento das agendas: ambiental, dos direitos humanos, da quebra de patentes e do multilateralismo. Além disso, a forte instabilidade nos discursos e nas respostas internacionais, e o negacionismo científico quanto a pandemia, colocaram o Brasil em uma situação de párea, isto é, isolado do mundo.

Nesse sentido, considerando a análise acima, nota-se que houve um rompimento na tradição e estabilidade das posições brasileiras em sua política externa, o que gerou tanto internamente como externamente uma instabilidade e desconfiança em relação ao Brasil, sendo inclusive, um dos motivos para a queda e a substituição do ministro Ernesto Araújo, pelo atual embaixador Carlos Alberto Franco França, o qual é mais discreto em suas posições.

Por fim, a tentativa de recuperar a boa imagem não será superada nesse governo apesar da troca de ministros, pois não há mudanças nas declarações do ministério ou do presidente. Logo, para os próximos governos, o desafio será não só trabalhar fortemente a imagem, mas superar a desconfiança e restabelecer a estabilidade de posições do Brasil no cenário internacional.

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CONCORDA EM PARTES

Danilo André Ferreira

Graduado em Relações Internacionais pelo Uni-BH | Pesquisador na área de Política Internacional Africana.

A política externa do atual governo tem sido de fato desastrosa. Ao adotar medidas altamente incongruentes com a realidade, os aspectos ideológicos colocados na mesa conseguiram transformar em piada até mesmo uma sólida tradição diplomática. Atitudes como as concessões feitas aos Estados Unidos e a tomada de lado no conflito entre Israel e Palestina, para citar apenas algumas das mais icônicas, além de reatar uma relação de caráter altamente submisso, e afrouxada a muito custo, ainda colocaram em xeque a relação do Brasil com seus principais parceiros comerciais.

No entanto, a diplomacia brasileira ainda conta com um legado de credibilidade no que diz respeito a mediação de conflitos, além do que, nas últimas décadas foram gerados importantes mecanismos voltados para a cooperação entre o Sul Global, sem no entanto, optar pelo isolamento em relação aos vizinhos do Norte. Baseado nesse histórico, acredito que se o governo subsequente tiver um mínimo de habilidade no que tange o aspecto diplomático e conseguir manter uma postura prática e sensata diante das reais condições de barganha do país, ainda seja possível dentro do período de um único governo se recuperar desses estragos causados até aqui.

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CONCORDA TOTALMENTE

Thiago Augusto Lima Alves

Mestrando em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) | Especialista em Direito Constitucional pela Universidade Regional do Cariri (URCA) | Graduado em Direito pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR) | Advogado | ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6354-3107

Com certeza, o trabalho vai ser árduo para recuperar a imagem arranhada deixada pelo governo Bolsonaro. Isso não significa que devemos desanimar diante desse fato, porque é natural, no exercício da diplomacia, que algumas relações se alterem e devemos estar conscientes de que os outros países sabem que estamos atravessando momentos delicados neste governo. O corpo diplomático brasileiro trabalha com excelência e certamente conseguirá, numa época mais propensa, construir as pontes derrubadas.

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CONCORDA TOTALMENTE

Thomas Tavares

Mestrando em Relações Internacionais pela Universidade da Beira Interior em Portugal | Licenciado em Letras - Português e Inglês pela Faculdade São Bernardo do Campo | Lattes: http://lattes.cnpq.br/9613122658892095

Concordo totalmente! Por vezes, torna-se penoso conceber a ideia que o Brasil, que desde o final do século XIX passou a ter a diplomacia, o diálogo e a cooperação como valores intrínsecos na construção de sua imagem no exterior, tenha tão rapidamente, em pouco mais de dois anos, se tornado uma espécie de pária internacional. Um país à margem do mundo e, em simultâneo, inerte nas discussões e conduções de pautas importantes como, por exemplo, o meio ambiente.

A vigente crise diplomática que o Brasil enfrenta a duras penas, ocasionada pelas falas e atitudes polêmicas do presidente Jair Bolsonaro, bem como demais membros de seu governo, fazem com que o Brasil caia ainda mais na lista de prioridades do mundo e dentre as prioridades dos próprios parceiros do país, como: China, França, Alemanha e até mesmo os Estados Unidos.

Neste sentido, (tendo-se em vista que o aquecimento para a corrida eleitoral em 2022 já começou e que há candidatos se preparando em todos os lados) o Brasil precisará sim, trabalhar muito a sua política externa e seu marketing internacional nas gestões futuras, de modo a conseguir, ao menos, recuperar um pouco de sua reputação como player internacional.

Essa reconciliação para com o restante do mundo não será fácil e exigirá do Brasil muito soft power, paciência e planejamento estratégico; pois será bem provável que para reconquistar velhos parceiros, o país tenha que num primeiro momento se sentar à mesa e ouvir quais serão os termos impostos por estes com o intuito de resgatar tais relações.

Tal atitude pode deixar o Brasil ligeiramente vulnerável (ao menos inicialmente), pois  precisará cumprir com uma série de novos termos e determinações promovidas pelos demais Estados, a fim de reconquistar sua "confiança", assim como nossa posição de outrora tão promissora no sistema internacional.

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CONCORDA TOTALMENTE

Alexandre Piamolini

Mestre (2020) em Estudos Estratégicos Internacionais pela UFRGS/PPGEEI | Bacharel (2017) em Relações Internacionais pela UniRitter de Porto Alegre/RS.

A diplomacia da República Federativa do Brasil está ancorada nas premissas do Barão de Rio Branco, famoso ex-diplomata brasileiro e ministro das relações exteriores, e pioneiro na construção do campo diplomático como profissão imprescindível para a nação brasileira. Sustentada nas premissas do diálogo e cooperação, a diplomacia brasileira ficou caracterizada na política internacional como uma nação que sempre procurou o caminho das conversações diplomáticas; além de ser amplamente respeitada.

Assim, a diplomacia brasileira expandiu as suas relações com grandes potências atuantes no tabuleiro internacional, como China, Estados Unidos e a Rússia. Ademais, houve a expansão para as nações africanas, a União Europeia – além de reforçar as suas relações internacionais para as regiões asiáticas e árabes. Logo, através da ferramenta diplomática, a nação brasileira, de caráter pragmática, aprofundou a sua inserção internacional nos campos político e econômico – tornando-se um país de grande relevância internacional.

Contudo, desde a chegada de Jair Bolsonaro na presidência em 2019, a diplomacia brasileira sofreu mudanças em detrimento de sua condução política no exterior. Sendo assim, as tensões com a França e a Noruega (e também a Alemanha) sobre as queimadas na Amazônia implicou na recusa por enviar remessas destinadas à contribuição para a manutenção da Amazônia.

No que tange à China, provavelmente é a maior instabilidade vivenciada no campo diplomático entre Brasília e Pequim. Grande parceiro estratégico, a diplomacia brasileira, chefiada até então por Ernesto Araújo, estabeleceu uma série de ataques contra os chineses, através das mídias sociais, como nas acusações referentes à criação do coronavírus em laboratório, além da ameaça comunista chinesa.

As acusações foram também realizadas pelo núcleo familiar próximo do presidente Bolsonaro; e inclusive do ex-ministro da educação, Abraham Weintraub. Diante disso, coube à demais políticos a incumbência de acalmar as relações com um parceiro imprescindível para o comércio brasileiro, com a necessidade de atuarem como "bombeiros" no Planalto e Itamaraty – a fim de evitar que a instabilidade prejudicasse nas relações comerciais entre Brasília e Pequim. 

Por fim, na questão do coronavírus, a imagem brasileira tem sido amplamente criticada no campo internacional, uma vez que a chefia do Planalto prioriza medicamentos sem comprovação científica, ao invés da vacinação massiva da população, sem contar as polêmicas declarações a respeito da pandemia, utilização de máscaras, distanciamento social; e as medidas tomadas por governadores para frear a disseminação do vírus nos Estados brasileiros.

No entanto, com as recentes substituições no ministério das relações exteriores e da saúde, espera-se que a nação brasileira consiga ser reorientada para uma administração mais séria e comprometida com a diplomacia brasileira, e principalmente com a vacinação da população. A imagem de pária internacional (país isolado no campo internacional) tem sido repercutida por inúmeras nações, o que impacta seriamente num país que sempre buscou reforçar a sua atuação internacional como um Estado exemplar.   

Portanto, as constantes polêmicas vivenciadas na diplomacia e no atual governo necessitarão de um grande esforço para reinserir o Brasil nas relações internacionais, no campo diplomático e, sobretudo, como país respeitado nas grandes Instituições Internacionais. A necessidade de um governo e um corpo diplomático sério e técnico (e sem influência partidária e aparelhamento ideológico) é crucial para reforçar a imagem da nação brasileira na diplomacia internacional.         

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Leila Fonseca

Bacharel em Relações Internacionais pela PUC Goiás | Bacharel em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Sergipe | MBA em Gestão Empresarial pela Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro | Analista de TI no Tribunal Regional Eleitoral de Goiás com foco em Planejamento Estratégico, Gerenciamento de Projetos e Business Intelligence.

O Brasil vem sofrendo, nos últimos tempos, um verdadeiro desmonte no que tange à sua política externa brasileira. O atual governo, que decidiu por um alinhamento ideológico e não de Estado, adotou o "Trumpismo" como norte, e viu seu isolamento aumentar ainda mais com a derrota de Donald Trump nas últimas eleições americanas.

Já não bastassem o distanciamento em relação à União Europeia e as atrapalhadas junto à China, o Brasil isolou-se também dos seus parceiros no eixo Sul-Sul, desconstruindo todo uma conquista e protagonismo alcançados nos últimos governos.

O BRICS e o Mercosul, blocos relevantes do multilateralismo brasileiro e que poderiam ter sido grandes aliados nestes tempos de pandemia, praticamente deixaram de compor a agenda do país. O Brasil precisa de uma política externa baseada no interesse nacional e não na ideologia. O cenário é desafiador e exigirá, nos próximos anos, muito trabalho da diplomacia brasileira para que se consiga, ao menos, chegar ao patamar de antes. 

Edições anteriores:

1° edição: Eleições Americanas 2020 – A mudança de presidente é positiva para a América Latina?

2º edição: A nova constituição chilena de 2021 – Sua elaboração significa a superação dos resquícios do passado ditatorial?

3° edição: Coronavírus e a cooperação internacional – A pandemia contribuirá para uma maior cooperação e integração em temas de saúde?

4° edição: A Mutilação Genital Feminina e os Direitos Humanos – O sistema internacional deve combater esta prática apesar de questões culturais ou religiosas?

5º edição: Covid-19 e a negligência para com os povos originários do Brasil – O modo como o governo vem atuando com os povos nativos é mais um exemplo de como o país negligencia os direitos e a vida dos povos originários do Brasil?

6° edição: A reforma tributária na Colômbia em meio a pandemia de coronavírus – É cabível implementar uma reforma tributária no país neste momento?

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Sobre o Autor

Analista de Relações Internacionais. Editora assistente da Revista Relações Exteriores. Pós-graduanda em Comunicação e Jornalismo Digital. Pesquisadora do NEFRI.

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