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Irã em ponto de ruptura: crise de legitimidade, paralisia no topo e a nova geopolítica do regime 1 Irã em ponto de ruptura: crise de legitimidade, paralisia no topo e a nova geopolítica do regime 2

Irã em ponto de ruptura: crise de legitimidade, paralisia no topo e a nova geopolítica do regime

"Iran Protests" by Taymaz Valley is licensed under CC BY 2.0

O Irã vive, desde o final de 2025, a mais intensa onda de protestos desde a mobilização nacional desencadeada pela morte de Mahsa Amini, em 2022. O que começou como uma reação ao colapso do poder de compra e à desvalorização acelerada do rial rapidamente se transformou em uma contestação mais ampla à própria estrutura do regime.

A resposta do Estado foi imediata e brutal. O apagão nacional da internet, que ultrapassou quatro dias consecutivos, a repressão armada nas principais cidades e o número crescente de mortos e detidos evidenciaram que o regime já não lida apenas com insatisfação social, mas com uma crise de legitimidade em escala nacional. Estimativas independentes falam em centenas — possivelmente milhares — de vítimas desde o início das manifestações.

Ao mesmo tempo, as autoridades iranianas insistem na narrativa de interferência estrangeira e terrorismo, enquanto hospitais se sobrecarregam, famílias buscam corpos em centros forenses e a população permanece isolada do fluxo global de informações. O contraste entre o discurso oficial e a realidade social aprofunda a ruptura simbólica entre Estado e sociedade.

Essa conjuntura não representa apenas mais um ciclo de repressão e protesto. Ela expõe um regime politicamente paralisado, pressionado por disputas internas, por uma sucessão inevitável no topo e por uma política externa cada vez mais custosa. O Irã, hoje, não enfrenta apenas manifestações. Enfrenta uma crise sistêmica que combina colapso de confiança, erosão de autoridade e transformação silenciosa de sua própria arquitetura de poder.

1. A conjuntura: por que esta onda importa

A nova onda de protestos no Irã não pode ser compreendida apenas como mais um episódio recorrente de insatisfação social em um sistema autoritário. Embora o gatilho imediato tenha sido econômico (o colapso do rial, a inflação persistente e a deterioração do poder de compra), o alcance, a intensidade e a resposta do regime revelam uma crise mais profunda: a erosão simultânea da capacidade de governar e da capacidade de persuadir.

O apagão nacional da internet não foi apenas uma medida de controle informacional. Ele funcionou como um reconhecimento tácito da vulnerabilidade do regime diante da circulação de imagens, narrativas e articulações horizontais. Em regimes seguros de si, a repressão busca disciplinar. Em regimes inseguros, busca isolar. O bloqueio das comunicações indica que o poder iraniano teme menos a força física dos manifestantes do que a sua capacidade de se reconhecerem como maioria social.

A retórica oficial, que classifica os protestos como “operações terroristas” coordenadas do exterior, segue um padrão conhecido. Contudo, sua repetição automática já não produz o mesmo efeito mobilizador de outrora. Em 2009, em 2019 e em 2022, a narrativa da conspiração estrangeira ainda encontrava ressonância em parcelas significativas da população. Em 2026, ela convive com um cansaço social profundo diante de crises que não são mais episódicas, mas estruturais.

O elemento verdadeiramente novo não está apenas na rua, mas no topo. O próprio presidente Masoud Pezeshkian reconheceu publicamente sua impotência diante da crise hídrica, um gesto simbólico de grande peso político. Em sistemas autoritários consolidados, a imagem de controle é parte do poder. Admitir incapacidade é sinal de que a autoridade já não consegue sustentar sequer a aparência de comando.

Essa combinação entre protestos recorrentes, repressão crescente, paralisia decisória e crise material produz uma mudança qualitativa. O regime não enfrenta apenas um ciclo de contestação. Ele enfrenta um processo de desgaste acumulado, no qual cada nova onda de protestos não substitui a anterior, mas se soma a ela.

2. A crise é estrutural: do mal-estar econômico à crise do sistema

Reduzir a crise iraniana a um problema econômico é uma leitura superficial. A economia é o gatilho, não o centro. O que se observa no Irã é uma crise estrutural do regime, na qual colapsam simultaneamente a capacidade de governar, a capacidade de legitimar e a capacidade de estabilizar pela coerção.

Trata-se, portanto, de uma crise sistêmica, e não conjuntural. O regime não enfrenta apenas protestos; enfrenta a erosão progressiva das bases que sustentam sua autoridade.

Essa crise opera em três camadas interligadas.


2.1. Crise material e administrativa

A deterioração econômica deixou de ser apenas um problema de bem-estar social e tornou-se um problema de governança estatal. O colapso do poder de compra, a inflação persistente, a desvalorização crônica do rial e o desemprego juvenil não afetam apenas a renda: afetam a credibilidade do Estado como gestor da sociedade.

A isso se somam fatores estruturais:

  • escassez hídrica prolongada em centros urbanos,
  • instabilidade no fornecimento de energia,
  • degradação ambiental,
  • corrupção sistêmica nas redes estatais e paraestatais,
  • incapacidade de planejamento de longo prazo.

Esses elementos produzem um quadro típico de esgotamento administrativo, no qual o Estado continua a arrecadar, regular e reprimir, mas já não consegue entregar bens públicos básicos.

O impacto político disso é profundo. O cidadão deixa de perceber o Estado como um mediador legítimo da vida coletiva. Ele passa a percebê-lo como um aparato extrativo e disciplinador, não como uma instituição de proteção ou organização social.

Em termos práticos, a crise econômica converte-se em crise de pertencimento político.


2.2. Crise de legitimidade

O regime iraniano construiu sua estabilidade histórica sobre uma fórmula híbrida: participação eleitoral limitada sob tutela clerical. Durante décadas, esse arranjo produziu a expectativa de mudança gradual dentro do sistema.

Hoje, essa expectativa foi amplamente destruída.

A exclusão sistemática de candidatos, o controle prévio das disputas, a neutralização dos parlamentos e a impotência recorrente de presidentes considerados reformistas transformaram o processo político em um ritual de confirmação do status quo.

O eleitor já não escolhe projetos. Ele apenas legitima uma estrutura que não pode alterar.

Essa transformação é decisiva. Quando a participação deixa de ser percebida como instrumento de mudança, ela perde seu valor simbólico. O resultado é uma transição silenciosa da apatia política para a rejeição estrutural.

Por isso, os protestos recentes já não pedem reformas institucionais. Eles questionam a própria arquitetura do poder. A linguagem mudou. As palavras mudaram. E, com elas, mudou o horizonte político.

O problema, agora, não é mais quem governa. É o próprio modelo de governo.


2.3. Crise de coerção

Do ponto de vista técnico, o regime iraniano jamais foi tão eficiente na repressão. A profissionalização das forças de segurança, o uso intensivo de vigilância digital, o controle informacional, os julgamentos acelerados e a normalização da violência estatal produziram um aparato coercitivo altamente sofisticado.

No entanto, essa eficiência revela uma contradição central:

Quanto mais o regime precisa da força para se manter, menos autoridade política ele possui.

A coerção, quando não é acompanhada de capacidade de governar e de produzir legitimidade, deixa de ser instrumento de estabilidade e passa a ser evidência de fragilidade estrutural.

O Estado que precisa recorrer continuamente à violência para existir já não é percebido como governo. É percebido como imposição.

Nesse ponto, o Irã se aproxima de um limiar perigoso: a repressão continua funcionando operacionalmente, mas deixa de funcionar politicamente. Ela controla corpos, mas já não controla sentidos. Ela dispersa manifestações, mas não restaura confiança.

O regime, portanto, não vive apenas sob repressão. Vive sob uma repressão deslegitimada, que já não produz consenso, não organiza expectativas e não oferece horizonte.

3. A paralisia no topo: sucessão, disputa e imobilismo estratégico

Se as ruas expressam o esgotamento social, o topo do regime expressa o esgotamento político. A crise iraniana já não é apenas uma crise de governabilidade. Ela é, sobretudo, uma crise de comando.

Desde a consolidação do poder de Ali Khamenei, o sistema político iraniano operou a partir de um princípio funcional: o Líder Supremo como árbitro final entre facções, instituições e interesses concorrentes. Essa função não eliminava conflitos, mas os mantinha dentro de limites controláveis. O equilíbrio do sistema dependia menos da coesão das elites e mais da existência de uma instância capaz de impor decisões finais.

Esse mecanismo, hoje, encontra-se profundamente enfraquecido.

A combinação entre desgaste biológico, perda de autoridade simbólica e transformação das relações internas de poder reduziu drasticamente a capacidade de Khamenei de exercer o papel de árbitro incontestável. O regime passa, assim, a operar em um ambiente no qual a sucessão é certa, mas a transição é indefinida.

O resultado é a consolidação de uma lógica de pré-succession politics permanente. As disputas internas já não se organizam em torno de projetos de governo, mas em torno de posicionamentos estratégicos para o período pós-Khamenei. Cada decisão é avaliada não por seus efeitos sobre a sociedade, mas por seus impactos sobre o equilíbrio futuro entre facções.

Nesse contexto, a racionalidade política torna-se essencialmente defensiva.

Nenhuma facção deseja assumir custos de curto prazo que possam ser explorados por rivais no futuro. Nenhuma está disposta a liderar reformas que possam redistribuir poder de forma imprevisível. Nenhuma aceita comprometer sua posição relativa em nome de estabilidade sistêmica.

O regime, assim, entra em um estado de imobilismo estratégico: ele se move, mas não decide; reage, mas não conduz.

Essa paralisia manifesta-se de forma clara em três dimensões centrais.

Primeiro, na incapacidade de formular respostas estruturais às crises econômicas, ambientais e sociais. As políticas públicas limitam-se à gestão de emergências, sem qualquer projeto de reorganização administrativa ou produtiva. O Estado administra sintomas, não causas.

Segundo, na dificuldade de redefinir a política externa em um contexto de crescente exposição estratégica. A dissuasão perdeu previsibilidade, mas não há consenso interno sobre como restaurá-la, adaptá-la ou substituí-la. O resultado é uma política externa oscilante, reativa e frequentemente contraditória.

Terceiro, na hesitação em reformar o próprio sistema político, mesmo em formatos controlados. Qualquer abertura mínima é percebida como potencial ameaça ao equilíbrio sucessório, e, por isso, bloqueada preventivamente.

O reconhecimento público de impotência por parte do presidente não deve ser interpretado como um gesto isolado ou pessoal. Ele traduz um sentimento difuso dentro da própria elite governante: o sistema já não consegue produzir decisões estratégicas com autoridade plena.

O paradoxo que emerge é profundo.

Quanto mais o regime precisa de liderança para atravessar a crise, menos capaz ele se mostra de exercê-la. Quanto mais centralizada é a estrutura formal de poder, mais fragmentada é sua capacidade real de decisão.

A paralisia no topo, portanto, não é apenas um problema de sucessão. Ela é um dos principais fatores de aceleração da própria crise do regime.

4. A mudança evolutiva do regime: clero em retração, poder securitário em ascensão

A crise do regime iraniano não deve ser interpretada apenas como um processo de desgaste. Ela deve ser compreendida, sobretudo, como um processo de transformação estrutural do poder. O sistema não está apenas perdendo estabilidade; está mudando de natureza.

Desde 1979, a arquitetura simbólica da República Islâmica esteve ancorada na autoridade clerical. Mesmo quando militares, tecnocratas e políticos civis ganharam espaço, a legitimidade última permanecia teológica. O clero funcionava como fonte de sentido, arbitragem e justificação do poder.

Esse arranjo, porém, vem se esgotando de forma gradual, silenciosa e cumulativa. A autoridade religiosa já não mobiliza a sociedade como antes, não organiza consensos e tampouco consegue estruturar de maneira eficaz a própria elite do regime. A religião continua presente, mas seu poder político tornou-se progressivamente residual como força organizadora.

Nesse vazio progressivo, o centro de gravidade desloca-se para o campo securitário, em especial para a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC). O que antes era uma força criada para proteger a Revolução transformou-se em um complexo político-militar-econômico de alcance nacional e regional.

A IRGC não apenas reprime protestos. Ela controla conglomerados econômicos, influencia nomeações políticas, molda decisões de política externa, organiza redes regionais de aliados e define a narrativa dominante de segurança nacional. Em termos práticos, ela deixou de ser um instrumento do regime para se tornar um dos próprios pilares do regime.

Esse processo não representa uma ruptura aberta com a teocracia, mas sua substituição funcional. O discurso religioso permanece como linguagem legitimadora, mas o exercício real do poder passa a obedecer a lógicas essencialmente securitárias, corporativas e organizacionais.

Essa transição explica por que o regime consegue sobreviver mesmo quando perde apoio social. Ele já não depende prioritariamente de consentimento político ou adesão ideológica. Ele depende de controle institucional, de capilaridade organizacional e de superioridade coercitiva.

A autoridade moral cede lugar à autoridade operacional.

Contudo, essa transformação carrega custos estruturais profundos.

Primeiro, ela estreita drasticamente a base social do regime. Um sistema sustentado por instituições securitárias não produz pertencimento. Produz obediência. E a obediência, quando prolongada, converte-se em resistência latente.

Segundo, ela reconfigura a lógica da política externa. A projeção regional do Irã deixa de ser apenas expressão ideológica da Revolução e passa a funcionar como mecanismo de reprodução do poder interno dessas instituições. A política externa torna-se, assim, parte integrante da economia política do regime.

Terceiro, ela cria um paradoxo sucessório. Um regime mais militarizado é, simultaneamente, mais resistente a choques imediatos e mais vulnerável a disputas internas de comando. A concentração de poder em estruturas securitárias aumenta a capacidade de repressão, mas reduz a capacidade de arbitragem legítima.

O Irã, portanto, caminha para um modelo de poder que já não é plenamente teocrático, mas também não é pós-teocrático. Trata-se de uma forma híbrida, na qual a religião permanece como símbolo e a segurança se consolida como substância.

Essa “mudança evolutiva” ajuda a compreender dois fenômenos aparentemente contraditórios:

Por que o regime não colapsa diante dos protestos.

E por que, ao mesmo tempo, ele já não consegue produzir estabilidade duradoura.

O regime sobrevive, mas sobrevive mudando. E, ao mudar, perde parte essencial daquilo que, no passado, lhe conferia legitimidade.

5. A nova geopolítica do Irã: dissuasão em erosão e custos crescentes da estratégia regional

A política externa iraniana sempre operou como um duplo instrumento: de um lado, mecanismo de projeção de poder regional; de outro, ferramenta de compensação de vulnerabilidades domésticas. A noção de “profundidade estratégica” construída no Iraque, na Síria, no Líbano e no Iêmen não pode ser compreendida apenas como escolha ideológica, mas como parte de uma lógica estrutural de sobrevivência do regime, na qual a influência externa funciona como amortecedor das fragilidades internas.

Esse arranjo, contudo, entrou em uma fase de desgaste acelerado.

Os confrontos diretos com Israel em 2025, os ataques a alvos iranianos, a exposição inédita do território nacional e a intensificação do risco de escaladas abertas comprometeram um dos pilares centrais da estratégia iraniana: a previsibilidade da dissuasão. Pela primeira vez desde o término da guerra Irã-Iraque, a percepção social dominante passou a reconhecer que a guerra deixou de ser um fenômeno indireto, conduzido exclusivamente por intermediários regionais.

Essa mudança perceptiva possui implicações políticas relevantes. Um regime que construiu parte de sua legitimidade simbólica sobre a promessa de proteção, resistência e invulnerabilidade territorial passa a ser percebido como incapaz de garantir sequer a integridade do próprio espaço nacional. A dissuasão, nesse sentido, não se fragiliza apenas no plano estratégico, mas também no plano simbólico.

Paralelamente, a manutenção da rede de aliados regionais tornou-se politicamente mais custosa no plano doméstico. O financiamento contínuo de grupos armados, a sustentação de frentes de conflito prolongadas e a retórica permanente de confrontação entram em contradição direta com uma sociedade submetida a inflação crônica, desemprego estrutural, colapso de serviços públicos e insegurança cotidiana.

Nesse contexto, o regime se vê diante de um dilema estratégico clássico, porém agravado por sua crise interna.

A retração regional pode ser interpretada como sinal de fraqueza, estimular adversários e desorganizar a arquitetura de dissuasão construída ao longo de décadas.

A intensificação da presença regional, por sua vez, amplia sanções, isolamento diplomático, riscos militares e custos políticos internos.

Esse dilema não é apenas geopolítico. Ele é estruturalmente existencial para o regime, pois afeta simultaneamente sua segurança externa e sua legitimidade interna.

A política externa, assim, deixa de operar exclusivamente como instrumento de projeção de poder e passa a constituir um campo permanente de tensão entre sobrevivência externa e sobrevivência doméstica. Cada movimento no tabuleiro regional produz efeitos quase imediatos sobre a estabilidade política interna.

Adicionalmente, a própria natureza do processo decisório em política externa sofreu uma inflexão relevante. O fortalecimento das instituições securitárias deslocou o centro de formulação estratégica da diplomacia para a lógica militar. Esse deslocamento reduz a margem de manobra negociadora, aumenta a probabilidade de escaladas não intencionais e limita as possibilidades de acomodação pragmática.

O Irã passa, assim, a operar em uma configuração geopolítica caracterizada por três vetores centrais:

Primeiro, uma dissuasão progressivamente menos estável e mais reativa.

Segundo, uma política regional cada vez mais desconectada da capacidade de sustentação socioeconômica doméstica.

Terceiro, uma liderança incapaz de produzir consensos estratégicos duradouros em um ambiente de transição e disputa sucessória.

Nesse contexto, a política externa deixa de funcionar como válvula de compensação da crise interna e passa a integrar, ela própria, o núcleo do problema estratégico do regime.

6. Cenários plausíveis: entre sobrevivência, transformação e instabilidade

Qualquer análise séria sobre o futuro do Irã deve partir de uma premissa básica: não há um único desfecho inevitável. O regime não está condenado ao colapso imediato, mas tampouco está em condições de restaurar a estabilidade estrutural. O mais provável é um processo prolongado de tensão, no qual diferentes trajetórias permanecem abertas.

Três cenários se destacam como analiticamente plausíveis.

Cenário A — Sobrevivência repressiva e consolidação securitária

Neste cenário, o regime consegue conter os protestos por meio da repressão, do controle informacional e da fragmentação da oposição. A Guarda Revolucionária aprofunda sua centralidade, ocupando ainda mais espaços políticos, econômicos e administrativos.

O sistema permanece formalmente teocrático, mas na prática opera como um regime securitário com verniz religioso. A sucessão ocorre de forma controlada, sem ruptura institucional, mas com menor papel do clero e maior peso das estruturas militares.

Este é o cenário de maior continuidade e, paradoxalmente, de maior desgaste de longo prazo: o regime sobrevive, mas com legitimidade mínima e governabilidade cada vez mais cara.

Cenário B — Transição controlada e rearranjo interno

Aqui, a elite do regime reconhece que a sobrevivência depende de algum grau de reconfiguração política e simbólica. O pós-Khamenei abre espaço para uma liderança mais pragmática, com tentativa de aliviar tensões externas, flexibilizar controles internos seletivamente e reconstruir parte da legitimidade perdida.

Não se trata de democratização plena, mas de uma transição administrada, destinada a preservar o núcleo do sistema, ainda que sob nova roupagem.

Esse cenário exige um grau de coordenação interna que hoje parece difícil, mas não impossível, especialmente se a pressão social e econômica continuar a crescer.

Cenário C — Fratura política e instabilidade prolongada

Neste cenário, a sucessão, os protestos e as crises econômicas se combinam para produzir fissuras mais profundas dentro do regime. Conflitos entre facções, tensões entre forças armadas regulares e a Guarda Revolucionária, greves coordenadas e colapsos administrativos regionais criam um ambiente de instabilidade crônica.

O regime não colapsa rapidamente, mas perde capacidade de controle territorial, político e simbólico. O país entra em um ciclo de turbulência prolongada, com alto risco de fragmentação social e aumento da intervenção indireta de atores externos.

7. O papel externo: limites e possibilidades da ação internacional

A crise iraniana desperta, recorrentemente, a tentação de soluções externas. Sanções, pressão diplomática, apoio à oposição, campanhas de informação e até cenários de mudança de regime são apresentados como atalhos para uma transformação política. Essa leitura, contudo, ignora uma realidade fundamental: a mudança no Irã não é exportável.

Nenhum ator externo possui capacidade de produzir, por si só, uma transição política legítima e estável no país. O máximo que pode fazer é influenciar o ambiente em que essa transformação ocorrerá.

Nesse sentido, o papel internacional opera mais por condicionamento do que por direção.

Os Estados Unidos tendem a reforçar a lógica coercitiva, combinando sanções, isolamento econômico e retórica de confronto. Essa estratégia, embora pressione o regime, também fortalece sua narrativa de cerco e legitima a securitização interna.

A Europa, por sua vez, permanece dividida entre condenação moral e impotência estratégica. Seu maior espaço de atuação não está na engenharia de mudanças políticas, mas na proteção de civis, na documentação de violações de direitos humanos, no combate à repressão transnacional e no apoio à liberdade de informação.

China e Rússia adotam uma postura pragmática: não defendem o regime por afinidade ideológica, mas por conveniência estratégica. Para ambos, a estabilidade autoritária do Irã é preferível a uma transição imprevisível.

Nesse tabuleiro, o principal risco é a ilusão de que a pressão externa acelerará automaticamente a mudança. Na prática, ela pode tanto estimular fissuras quanto reforçar o fechamento do sistema.

A lição histórica é clara: regimes autoritários raramente caem apenas por pressão externa; eles caem quando a convergência entre crise interna e incapacidade de adaptação torna a continuidade mais custosa do que a mudança.


8. Conclusão: o Irã como laboratório da crise da ordem

O Irã contemporâneo não é apenas um país em crise. Ele é um laboratório vivo das tensões que atravessam a ordem internacional atual: entre legitimidade e coerção, entre soberania e interdependência, entre ideologia e sobrevivência.

O regime iraniano enfrenta um paradoxo central. Ele ainda possui capacidade de repressão, mas já não possui capacidade de governança plena. Ele ainda controla o território, mas já não controla o sentido político de sua autoridade. Ele ainda projeta poder regional, mas com custos domésticos crescentes.

A pergunta fundamental, portanto, não é se o regime sobreviverá no curto prazo. A pergunta é que tipo de regime sobreviverá — e a que preço.

A crise iraniana não aponta apenas para um possível colapso, nem para uma simples continuidade. Ela aponta para um processo de transformação profunda, em que a teocracia cede espaço a um arranjo cada vez mais securitário, menos legítimo e mais instável.

Nesse processo, a geopolítica deixa de ser apenas um jogo entre Estados e passa a ser, também, uma disputa entre sociedades e sistemas políticos. O Irã revela que, no século XXI, a política de poder não se decide apenas nas fronteiras, mas na capacidade de um regime convencer sua própria população de que ainda merece existir.

Se há uma lição mais ampla, ela é esta: regimes podem sobreviver por muito tempo sem consenso, mas nenhum sistema político sobrevive indefinidamente sem legitimidade.

E é justamente nesse intervalo entre sobrevivência e legitimidade que hoje se encontra o Irã.

Referências

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KATZMAN, Kenneth. Iran’s Foreign Policy and Regional Strategy. Washington: Congressional Research Service, 2023.

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Analista de Relações Internacionais at ESRI | Website |  + posts

Analista de Relações Internacionais, organizador do Congresso de Relações Internacionais e editor da Revista Relações Exteriores. Professor, Palestrante e Empreendedor. Contato profissional: guilherme.bueno(a)esri.net.br

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