Fim da dívida externa britânica após 61 anos – 29 dezembro de 2006

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No dia 29 de dezembro de 2006, o Reino Unido comemorava o fim da dívida externa com os Estados Unidos. O compromisso acordado em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial, serviu para sustentar o país durante o conflito e auxiliar a sua recuperação no pós-guerra. O total do montante na época era de 4.3 bilhões de dólares, cerca de 27 bilhões de dólares em 2006. O valor deveria ser pago ao longo de 50 anos, mas acabou demorando 11 anos a mais. Assim, com as transformações ocorridas na década de 40, compreender as consequências desse episódio pode ser peça chave para entender como as duas potências se organizam hoje em dia. 

Uma herança da Segunda Guerra Mundial

A Segunda Guerra Mundial é definitivamente um dos maiores acontecimentos do século XX. Com impactos sentidos até hoje, o evento iniciou uma nova modalidade de guerra com armamentos mais rebuscados e recursos tecnológicos até então inexistentes, proporcionou a criação de organismos internacionais, a ascensão de novas potências, a maturação do multilateralismo e trouxe a necessidade de um esforço coletivo para a recuperação econômica das nações europeias que foram palco da guerra. Dentre elas, o Reino Unido se destaca pela relevância da sua atuação mundial no período que antecede o episódio e pelo enfrentamento da dívida externa que viria a ser uma das consequências mais desafiadoras do país.

Quando nos referimos ao Reino Unido na Segunda Guerra é preciso entender o esforço enorme que a então potência mundial teve que desempenhar para não colapsar frente às demandas econômicas da guerra. Além de deslocar mão de obra para a produção de armamentos, houve a necessidade de importar alimentos e insumos, manter o equilíbrio externo, fazer acordos comerciais, controlar as exportações, organizar o aparato político-diplomático e ao mesmo tempo garantir forte presença nas colônias britânicas que já davam sinais de derrocada (SOCHACZEWSKI, 2006). 

Em contrapartida, nota-se que os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, inicialmente isolacionista, foi aos poucos aproveitando as brechas da guerra para ser o grande provedor das necessidades econômicas dos países devastados. Assim, diferente da maioria dos países da época, a economia norte-americana registrou um crescimento extraordinário de cerca de 10% ao ano e encontrou nos empréstimos e financiamentos uma forma de crescer como potência. Já experientes com os planos econômicos colocados em prática a partir da Grande Depressão, os estadunidenses elaboram um plano de ajuda econômica que irá comprometer o Reino Unido por mais de 50 anos, o Lend-Lease Act.

O contexto em dois atos 

Alguns fatores são importantes para entender como o Reino Unido acabou se comprometendo por um longo período. O primeiro deles está relacionado aos Estados Unidos depois da Grande Depressão e o segundo está ligado à administração britânica durante os anos de conflito. Vejamos.

A economista Mariana Barros (2004) mostra que os Estados Unidos ainda sofriam as consequências econômicas da crise de 29, que assolou quase todos os países do mundo, quando a corrida armamentista da Segunda Guerra começou a se intensificar por volta de 1940. Com o conflito se desdobrando por várias fronteiras, a demanda por armamentos e produtos industrializados crescia cada vez mais e os norte-americanos acabaram por enxergar uma caminho para afastar o país da crise (BARROS, 2004).

Ainda no contexto da guerra, a administração de Roosevelt decidiu criar o Lend-Lease Act, um programa pensado para financiar as nações que lutavam contra o Eixo. O acordo consistia em empréstimos e arrendamentos de armas que seriam feitos temporariamente e deveriam ser devolvidos assim que a guerra acabasse. O programa foi um sucesso para os Aliados e um alento para os estadunidenses que viram sua produção armamentista se expandir em níveis elevados.

Os britânicos foram os principais beneficiados pelo projeto, uma vez que desde 1940 estavam enfrentando Alemanha e Itália sem a ajuda francesa. O quadro a seguir mostra a porcentagem do total da produção norte americana entregue aos britânicos entre 1942 e 1945:

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Fonte: Milward (1979).

Podemos perceber que além de armas, uma grande porcentagem de produtos agrícolas e manufaturados foram entregues para os ingleses. A parceria que começou em 1941, sustentou a economia britânica, coordenou os processos logísticos da guerra e contribuiu para o estreitamento de laços entre ambos. Assim, temos de um lado um país em plena ascensão econômica durante uma guerra mundial, do outro, uma potência econômica em queda sentindo diretamente os abalos da guerra. Com o conflito crescendo em ritmo acelerado, o desespero por se manter disputável na guerra fez com que o Reino Unido necessitasse de cada vez mais empréstimos. 

George Herring (1971), mostra que desde 1940 os britânicos tinham abandonado toda a sua prudência para conseguir derrotar a Alemanha. O resultado disto pôde ser visto já em 1944 quando os passivos externos ultrapassaram em 5 vezes o total anterior à guerra. Além disso, houve perda no seu comércio de exportação, a liquidação dos seus ativos estrangeiros, acumulação de dívidas externas em países neutros e baixa nas suas reservas internacionais (HERRING, 1971).

Em 1945, Henry Truman, o 33 º presidente norte americano, chega ao poder e, devido a pressões internas, decide por fim no acordo entre os EUA  e o Reino Unido.  Desta forma, os britânicos estariam comprometidos a pagar cerca de 586 milhões de dólares para os americanos apenas pelos empréstimos feitos durante a guerra. Somado a isto, a Casa Branca ainda aprovou um crédito de 3,75 bilhões com taxa de juros fixada em 2% ao ano. Este último seria para impedir que o país fosse à falência com o fim da guerra e pudesse se reconstruir. 

De lá pra cá, o que mudou? 

No fim, podemos perceber que a Segunda Guerra levou o Reino Unido ao limite de suas ações. O conjunto da Primeira Guerra Mundial com a Grande Depressão trouxe ao país muita dificuldade em se reerguer como potência no contexto posterior à Segunda Guerra Mundial. No início do século XX, observa-se que ainda havia certo protagonismo nas questões de liderança global e no comércio exterior possibilitado principalmente pelas suas colônias, mas ao longo dos anos 40 o país se viu emaranhado em dívidas e carecendo de ajuda externa para não ir à falência.

As consequências da administração britânica no período foram determinantes para a posição que a nação detém agora. O ofuscamento do país no contexto do comércio internacional e a ausência de sua liderança externa acabou proporcionando a ascensão dos Estados Unidos como grande provedor de ajuda econômica mundial. Posteriormente, a dívida britânica colocou os estadunidenses em posição cômoda para propor a criação dos organismos financeiros como o Banco Mundial e o FMI, sem muita oposição. Assim, temos uma transição de liderança mundial que começa justamente nos altos da Segunda Guerra.

Referências

BARROS, Mariana. A economia de guerra norte-americana no período de 1939 a 1945: estratégica e logística. PUC-Rio: Rio de Janeiro, 2004.

MILWARD, Alan S. War, Economy and Society. University of California Press: Los Angeles, 1977.

HERRING, George. The United States and British Bankruptcy, 1944-1945: Responsibilities Deferred. Political Science Quarterly: Kentucky, 1971.

SOCHACZEWSKI, Victor. O endividamento do Reino Unido na Segunda Guerra Mundial; “sterling balances”, 1939 – 1950´s. PUC-Rio: Rio de Janeiro, 2006.

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Sobre o Autor

Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade da Amazônia. Participei de palestras, simulações de organismos internacionais, mediei discussões e procurei por mais. Fui convidada pelo coordenador do curso a participar de um projeto de extensão, o Site Internacional da Amazônia, onde escrevo artigos e faço roteiros para vídeos sob a ótica de uma internacionalista da Amazônia, entrei como voluntária na Zeit Org, uma comunidade que estuda a confluência entre o global e o local, escrevi um paper para o V Simpósio de Relações Internacionais e acabei ganhando como melhor trabalho da edição. Depois de explorar tudo o que a universidade pôde me oferecer em termos de projetos, busco produzir trabalhos voltados para a Amazônia na área de paradiplomacia e desenvolvimento sustentável e por oportunidades que possam complementar a minha formação. Áreas de interesse: Desenvolvimento Sustentável; Comércio Exterior; Governança Global sobre o meio ambiente; Geopolítica; Amazônia Legal; Cooperação Internacional, ONU e a agenda 2030.

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