A política externa dos Estados Unidos sempre ocupou posição central na organização do sistema internacional contemporâneo. Desde 1945, Washington não atuou apenas como uma grande potência entre outras, mas como o principal arquiteto institucional, garantidor de segurança e estabilizador político da ordem internacional liberal. Essa posição combinou poder material, capacidade militar, liderança econômica e influência normativa, permitindo aos EUA moldar regras, instituições e padrões de comportamento no sistema internacional.
Mudanças nessa política, portanto, não devem ser interpretadas como ajustes marginais. Elas produzem efeitos sistêmicos, alterando expectativas, incentivos e estratégias de aliados, rivais e atores intermediários. Nesse sentido, o trumpismo não pode ser compreendido apenas como expressão do estilo pessoal de Donald Trump, de sua retórica confrontacional ou de seu uso intensivo da mídia. Ele expressa uma inflexão estrutural na forma como os Estados Unidos concebem poder, liderança e cooperação internacional.
O elemento central dessa inflexão reside na rejeição explícita de uma concepção segundo a qual os EUA deveriam sustentar a ordem internacional como um bem público global. Em seu lugar, consolida-se uma visão instrumental e condicional do engajamento externo, na qual compromissos internacionais passam a ser avaliados prioritariamente por seus custos econômicos, retornos políticos imediatos e impactos domésticos mensuráveis. A política externa deixa de ser um campo relativamente autônomo e passa a ser fortemente subordinada à dinâmica política interna, especialmente às demandas por soberania econômica, proteção industrial e controle de fronteiras.
Essa mudança não surge no vácuo. Ela reflete o esgotamento de consensos internos construídos ao longo da Guerra Fria e do período unipolar pós-1991. A partir da década de 2000, sucessivos fatores, como as guerras no Oriente Médio, a crise financeira de 2008, o aumento das desigualdades regionais nos EUA e a ascensão da China como competidor estratégico, corroeram a legitimidade doméstica da liderança liberal americana. O trumpismo emerge, assim, como expressão política de uma crise mais profunda da hegemonia liberal, não como sua causa isolada.
A tradição da política externa dos EUA e os limites da ordem liberal
A tradição dominante da política externa dos Estados Unidos no pós-Segunda Guerra Mundial esteve ancorada em um projeto de hegemonia institucionalizada. Diferentemente de impérios clássicos, os EUA buscaram exercer poder por meio da criação e manutenção de instituições multilaterais, regimes internacionais e alianças formais. A Organização das Nações Unidas, o sistema de Bretton Woods (FMI, Banco Mundial) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) foram pilares centrais dessa arquitetura.
Essa estratégia combinava elementos do liberalismo institucional e do realismo hegemônico. Ao mesmo tempo em que estabelecia regras e normas multilaterais, Washington preservava ampla margem de manobra estratégica, sustentada por superioridade militar, controle financeiro e capacidade de projeção global. O multilateralismo não era visto como limitação à soberania americana, mas como multiplicador de poder, capaz de reduzir custos de coerção direta e ampliar legitimidade.
Durante o período unipolar, especialmente após o fim da Guerra Fria, essa lógica foi aprofundada. Os EUA expandiram regimes de livre comércio, promoveram agendas de democracia e direitos humanos e ampliaram alianças, assumindo o papel de gestor de crises regionais e garantidor da estabilidade global. No entanto, esse modelo passou a apresentar desequilíbrios crescentes. Os custos da liderança aumentaram, enquanto os benefícios passaram a ser percebidos como difusos ou capturados por outros atores.
Do ponto de vista doméstico, setores industriais afetados pela globalização, regiões desindustrializadas e parcelas da classe média passaram a questionar a relação entre abertura econômica, multilateralismo e bem-estar nacional. Do ponto de vista estratégico, a ascensão de potências revisionistas, especialmente China e Rússia, expôs os limites de uma ordem baseada na premissa de que integração econômica e institucional produziria convergência política.
É nesse contexto que a política externa americana começa a ser reinterpretada não mais como projeto de liderança sistêmica, mas como conjunto de compromissos onerosos e, em muitos casos, assimétricos. A lógica da previsibilidade institucional, da cooperação normativa e do soft power passa a ser questionada. O foco desloca-se da manutenção da ordem para a extração de vantagens estratégicas diretas, mesmo que isso implique erosão institucional.
O trumpismo cristaliza essa mudança. Ele rompe com a ideia de que a estabilidade do sistema internacional é, por si só, um interesse vital dos Estados Unidos e recoloca o Estado-nação soberano, seus interesses imediatos e sua capacidade de barganha no centro da política externa. A partir dessa inflexão, alianças deixam de ser entendidas como compromissos estratégicos duradouros e passam a ser tratadas como arranjos condicionais, sujeitos à renegociação constante.
Essa transformação marca o início de uma nova fase da política externa dos EUA, na qual a ordem liberal deixa de ser horizonte normativo e passa a ser variável instrumental, mantida, reformada ou abandonada conforme sua utilidade estratégica imediata.
O que é o Trumpismo? Uma definição analítica
O trumpismo pode ser compreendido como uma orientação estratégica de política externa que reorganiza prioridades, instrumentos e critérios de legitimidade da ação internacional dos Estados Unidos. Diferentemente de doutrinas clássicas, como o wilsonianismo, o containment da Guerra Fria ou mesmo o liberal-internacionalismo do pós-Guerra Fria, o trumpismo não se apresenta como um projeto normativo de ordem. Ele opera como uma gramática de poder, orientada pela soberania, pela barganha e pela vantagem assimétrica.
Do ponto de vista analítico, o trumpismo combina elementos de diferentes tradições das Relações Internacionais sem se filiar plenamente a nenhuma delas. Há traços realistas claros, como a centralidade do Estado, da soberania e da competição entre grandes potências, mas sem o compromisso com estabilidade sistêmica típico do realismo clássico. Há também elementos do nacionalismo econômico e do populismo, que subordinam a política externa às dinâmicas domésticas, especialmente às demandas de setores sociais afetados pela globalização.
O elemento distintivo do trumpismo é a rejeição explícita da liderança normativa. A política externa deixa de ser concebida como instrumento para sustentar regras, instituições e previsibilidade e passa a ser tratada como um meio direto de maximização de ganhos nacionais, avaliados em termos econômicos, territoriais, industriais ou de prestígio político interno. Nesse sentido, o trumpismo redefine o próprio significado de “interesse nacional”, deslocando-o de uma concepção sistêmica para uma concepção imediata, mensurável e politicamente comunicável.
Política externa como negócio: a lógica transacional do poder
Um dos traços mais marcantes do trumpismo é a transposição explícita da lógica empresarial para a condução da política externa. A diplomacia passa a ser tratada como um processo de negociação competitiva, no qual concessões, compromissos e acordos são avaliados de acordo com sua capacidade de gerar ganhos rápidos e visíveis.
Essa lógica se manifesta de forma clara no uso recorrente de tarifas, sanções e ameaças de retirada de acordos como instrumentos centrais de política externa. O comércio internacional, por exemplo, deixa de ser compreendido como mecanismo de interdependência benéfica e passa a ser visto como arena de competição distributiva. A renegociação do NAFTA, resultando no USMCA, exemplifica essa abordagem: o acordo não foi reformulado com base em princípios de integração regional, mas sob a lógica de correção de déficits, proteção industrial e pressão direta sobre parceiros.
A mesma racionalidade se aplica à política de alianças. No trumpismo, alianças não são bens estratégicos em si, mas arranjos condicionais, cuja continuidade depende de contribuições financeiras, alinhamento político e retorno direto para os EUA. Essa leitura rompe com a tradição segundo a qual alianças ampliam a influência americana ao reduzir custos de projeção de poder e aumentar legitimidade. No lugar disso, emerge uma lógica contratual, na qual compromissos são constantemente renegociados.
Essa visão transacional também redefine o tempo da política externa. Processos diplomáticos de longo prazo, baseados em confiança, previsibilidade e institucionalização, cedem espaço a interações episódicas, marcadas por escaladas retóricas, concessões pontuais e acordos ad hoc. O resultado é uma diplomacia menos previsível, porém mais flexível do ponto de vista da barganha imediata.
Os pilares doutrinários do Trumpismo: soberania e burden sharing
Apesar de frequentemente descrito como errático, o trumpismo se estrutura em torno de dois pilares relativamente consistentes, que orientam tanto o discurso quanto a prática da política externa: a centralidade da soberania do Estado-nação e a exigência de compartilhamento de custos entre aliados.
Soberania como princípio organizador
No trumpismo, a soberania deixa de ser um elemento entre outros e passa a ocupar posição hierarquicamente superior. Ela é tratada como pré-condição para prosperidade econômica, segurança nacional e até para a própria democracia. Essa hierarquização implica uma rejeição sistemática de arranjos institucionais percebidos como limitadores da autonomia decisória americana.
Na prática, isso se traduz em políticas de controle rigoroso de fronteiras, restrição à imigração, questionamento de regimes internacionais e resistência a mecanismos de governança global. A soberania territorial e regulatória torna-se um símbolo político central, capaz de mobilizar apoio doméstico e legitimar ações externas mais assertivas.
Essa abordagem também redefine a relação dos EUA com normas internacionais. Normas deixam de ser vistas como estruturas estabilizadoras e passam a ser avaliadas segundo sua compatibilidade com interesses nacionais imediatos. Quando percebidas como restritivas, tornam-se alvos de contestação ou abandono.
Burden sharing e multilateralismo condicional
O segundo pilar do trumpismo é a crítica ao que se entende como assimetria de custos no sistema internacional, especialmente no âmbito das alianças e instituições multilaterais. O argumento central é que os Estados Unidos teriam assumido, ao longo do tempo, encargos desproporcionais em termos financeiros, militares e políticos, enquanto aliados se beneficiariam sem contrapartidas equivalentes.
Essa leitura não implica rejeição absoluta do multilateralismo, mas sua reinterpretação instrumental. Instituições e alianças passam a ser aceitáveis apenas na medida em que funcionem de forma eficiente, mensurável e favorável aos interesses americanos. Caso contrário, acordos bilaterais e arranjos ad hoc tornam-se alternativas preferenciais.
A pressão sobre membros da OTAN para aumento dos gastos militares, o questionamento do financiamento de operações de paz da ONU e a retirada de acordos ambientais e comerciais ilustram essa lógica. O multilateralismo deixa de ser um fim e passa a ser um meio contingente, subordinado à lógica de custo-benefício.
As práticas do Trumpismo: disrupção, pressão e imprevisibilidade estratégica
A tradução prática do trumpismo em política externa ocorre por meio de um conjunto de métodos recorrentes, frequentemente interpretados como improvisação ou desorganização, mas que revelam uma lógica estratégica consistente. O elemento central dessa prática é a disrupção deliberada como instrumento de poder.
A diplomacia tradicional, baseada em previsibilidade, gradualismo e institucionalização, é substituída por uma abordagem marcada por escaladas iniciais, demandas maximalistas e uso intenso da pressão política, econômica e simbólica. O objetivo não é construir consensos duradouros, mas reposicionar negociações em termos mais favoráveis aos Estados Unidos.
Essa lógica se manifesta em três dimensões principais. A primeira é a apresentação de propostas extremas ou não convencionais, capazes de redefinir o campo da negociação desde o início. Ao deslocar o ponto de referência, os EUA ampliam sua margem de manobra e forçam os demais atores a negociar a partir de parâmetros mais próximos de suas preferências.
A segunda dimensão é a sobreposição de demandas. Questões comerciais, de segurança, tecnológicas e migratórias são frequentemente combinadas em um mesmo processo de negociação, elevando o custo de resistência por parte dos interlocutores. Essa fragmentação dificulta respostas coordenadas e favorece concessões parciais assimétricas.
A terceira dimensão é a espetacularização da diplomacia. A política externa passa a ser comunicada diretamente ao público, por meio de declarações públicas, gestos simbólicos e confrontos retóricos. O uso da visibilidade como ferramenta estratégica permite contornar canais institucionais tradicionais, controlar a narrativa doméstica e exercer pressão adicional sobre parceiros e adversários.
O resultado é uma diplomacia orientada menos pela estabilidade institucional e mais pela vantagem tática, na qual a imprevisibilidade se torna recurso estratégico, não falha de coordenação.
O impacto sistêmico: da liderança à barganha
As implicações do trumpismo extrapolam a política externa dos Estados Unidos e produzem efeitos estruturais no sistema internacional. A mais significativa delas é a transformação do papel americano: de garantidor da ordem para negociador dominante em um ambiente crescentemente competitivo.
Ao tratar instituições internacionais como custos e alianças como contratos, o trumpismo enfraquece a previsibilidade que sustentava a ordem liberal. Regimes internacionais deixam de operar como estruturas estabilizadoras e passam a ser arenas contingentes, sujeitas à pressão unilateral. Isso incentiva outros Estados a adotarem estratégias semelhantes, ampliando a lógica de barganha e reduzindo a confiança institucional.
Outro efeito relevante é a erosão do soft power como instrumento central da política externa americana. Valores, normas e legitimidade deixam de ser ativos prioritários e passam a ser vistos como fontes potenciais de restrição. Essa mudança abre espaço para formas mais explícitas de competição geopolítica, nas quais coerção econômica, pressão política e demonstrações de força ganham centralidade.
Além disso, o trumpismo contribui para a aceleração da multipolaridade competitiva. Ao abandonar a pretensão de liderança universal, os EUA sinalizam que o sistema internacional deve operar com base em relações mais transacionais e menos normativas. Potências médias e regionais, diante desse cenário, passam a diversificar parcerias, reduzir dependências e adotar estratégias mais autônomas.
O Trumpismo é apenas Trump? Continuidade, legado e adaptação
Uma das questões centrais para a análise do trumpismo diz respeito à sua durabilidade. Tratar o fenômeno como produto exclusivo da personalidade de Donald Trump implica subestimar suas bases estruturais. O trumpismo se ancora em tendências mais amplas: crise da globalização, polarização doméstica, competição entre grandes potências e fadiga da liderança liberal.
Mesmo após a saída de Trump da presidência, vários de seus pressupostos permaneceram presentes no debate estratégico americano. A centralidade da competição com a China, o foco em política industrial, a revalorização da soberania econômica e o questionamento de cadeias globais de produção indicam que parte significativa da agenda trumpista foi absorvida, ainda que com linguagem distinta.
Nesse sentido, o trumpismo pode ser interpretado menos como um desvio e mais como uma reorganização duradoura da gramática da política externa dos EUA. Ele inaugura um período no qual a ordem liberal deixa de ser pressuposto incontestável e passa a ser apenas uma entre várias opções estratégicas disponíveis.
Trumpismo como sintoma e vetor de transformação
O trumpismo representa simultaneamente um sintoma da crise da ordem liberal internacional e um vetor ativo de sua transformação. Ao substituir liderança por barganha, previsibilidade por disrupção e normas por soberania, ele redefine os critérios de legitimidade da política externa americana.
Mais do que avaliar seus sucessos ou fracassos imediatos, compreender o trumpismo exige reconhecer que ele expressa uma mudança profunda na relação entre poder, ordem e política doméstica. A política externa dos Estados Unidos passa a operar sob uma lógica na qual ganhos nacionais imediatos prevalecem sobre compromissos sistêmicos de longo prazo.
Nesse novo contexto, o sistema internacional se torna mais competitivo, menos institucionalizado e mais sensível às dinâmicas internas das grandes potências. Entender o trumpismo, portanto, não é apenas compreender um período específico da política americana, mas interpretar as transformações estruturais da política internacional no século XXI.
Analista de Relações Internacionais, organizador do Congresso de Relações Internacionais e editor da Revista Relações Exteriores. Professor, Palestrante e Empreendedor. Contato profissional: guilherme.bueno(a)esri.net.br
