Curso de Política Externa Brasileira
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Lula na Europa: política externa, disputa ideológica e reconstrução de legitimidade 
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Lula na Europa: política externa, disputa ideológica e reconstrução de legitimidade 

O presidente Lula e o presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, fizeram uma defesa contundente da democracia e da necessidade de as nações de todo o mundo se unirem no combate às desigualdades no planeta. Foto: Ricardo Stuckert / PR

As recentes viagens do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Europa não devem ser interpretadas como parte de uma rotina diplomática ordinária. Elas constituem, antes, movimentos estratégicos de reposicionamento internacional, nos quais política externa, agenda doméstica e disputa ideológica se articulam de forma cada vez mais explícita.

Ao participar de fóruns como o Fórum Democracia Sempre, ao lado de lideranças como Pedro Sánchez, Lula não apenas reafirma compromissos tradicionais da diplomacia brasileira, como o multilateralismo e a defesa da soberania, mas também projeta uma agenda política mais ampla, centrada na crítica à desigualdade, na revalorização do Estado e na necessidade de reconstrução da legitimidade democrática.

Essa dimensão torna-se particularmente evidente quando o presidente brasileiro insere temas tipicamente domésticos, como a proposta de superação da escala de trabalho 6×1, no centro de sua retórica internacional. Ao fazê-lo, Lula desloca o debate: a política externa deixa de ser apenas uma arena de negociação entre Estados e passa a operar como plataforma de disputa normativa, na qual modelos de desenvolvimento, concepções de democracia e projetos de sociedade são confrontados.

Nesse contexto, as viagens internacionais não representam apenas encontros bilaterais ou agendas comerciais. Elas sinalizam uma tentativa de reposicionar o Brasil como ator ativo na reorganização da ordem internacional, articulando coalizões políticas, reconstruindo pontes diplomáticas e projetando uma narrativa alternativa àquela que marcou o período recente do sistema internacional.

A tese que orienta este artigo é, portanto, clara: a política externa do governo Lula, em sua fase atual, opera como extensão estratégica de um projeto político mais amplo, no qual dimensões internas e externas se reforçam mutuamente, redefinindo o papel do Brasil no mundo.

Política externa como extensão da política doméstica

Um dos traços mais marcantes da atuação internacional recente do governo Lula é a dissolução progressiva da fronteira entre política doméstica e política externa, de fato isso ocorreu em governos anteriores, como o de Jair Messias Bolsonaro. Longe de serem esferas separadas, ambas passam a integrar um mesmo movimento de projeção de poder e construção de legitimidade, com busca de articulação político-ideológica com atores internacionais.

A defesa do fim da escala 6×1, apresentada simultaneamente no plano interno e reiterada em fóruns internacionais, ilustra essa dinâmica. Ao argumentar que os ganhos de produtividade não podem ser apropriados exclusivamente pelos estratos mais ricos da sociedade, Lula insere uma pauta trabalhista nacional em um debate mais amplo sobre os rumos do capitalismo contemporâneo. Trata-se, portanto, de uma internacionalização da agenda social brasileira, que busca dialogar com tensões presentes em diversas democracias.

Essa estratégia está diretamente vinculada a um diagnóstico mais profundo: o de que a crise de credibilidade das democracias liberais decorre, em grande medida, da incapacidade de responder às demandas materiais da população. Ao afirmar que a democracia perde legitimidade quando não entrega resultados concretos, o presidente brasileiro desloca o eixo do debate democrático — da dimensão institucional para a dimensão socioeconômica.

Nesse sentido, a política externa deixa de ser apenas instrumento de inserção internacional e passa a cumprir uma função adicional: reconstruir narrativas de legitimidade, tanto no plano doméstico quanto no internacional. Ao projetar uma agenda centrada em redução de desigualdades, fortalecimento do Estado e revisão de paradigmas econômicos, o Brasil busca se posicionar como referência de um modelo alternativo de desenvolvimento.

Essa inflexão não ocorre no vazio. Ela dialoga com um contexto global marcado por:

  • crescente insatisfação social em economias avançadas
  • avanço de forças políticas contestatórias
  • crise de representação em democracias consolidadas

Ao inserir-se nesse cenário, o governo brasileiro tenta operar em dois níveis simultâneos. No plano interno, busca reforçar a legitimidade de sua agenda política. No plano externo, procura construir convergências com atores que compartilham diagnósticos semelhantes, abrindo espaço para novas formas de articulação internacional.

A consequência mais relevante desse movimento é a transformação da própria natureza da política externa. Mais do que negociar interesses imediatos, ela passa a atuar como instrumento de projeção de um projeto político, no qual desenvolvimento, democracia e justiça social são apresentados como dimensões inseparáveis.

Essa redefinição, no entanto, também impõe desafios. Ao vincular tão diretamente a atuação internacional à agenda doméstica, o governo expõe sua política externa às mesmas tensões, resistências e limitações que marcam o cenário interno. Ainda assim, é precisamente essa interconexão que define o caráter distintivo da estratégia brasileira no momento atual.

A reconstrução de uma coalizão progressista internacional

A atuação recente do governo brasileiro sugere que a política externa não se limita à defesa de interesses nacionais tradicionais, mas incorpora um esforço deliberado de articulação política transnacional. A participação de Luiz Inácio Lula da Silva em espaços como o Fórum Democracia Sempre evidencia a tentativa de reconstruir uma coalizão progressista internacional, capaz de responder a desafios comuns enfrentados por diferentes democracias.

Essa iniciativa se ancora em um diagnóstico compartilhado: o de que o avanço de forças de extrema-direita, a erosão da confiança nas instituições e a frustração com promessas econômicas não cumpridas não são fenômenos isolados, mas expressões de uma crise estrutural que atravessa o sistema internacional. Nesse contexto, a política externa brasileira busca operar como vetor de convergência, conectando governos, partidos e atores sociais que compartilham preocupações semelhantes.

A presença de lideranças de diferentes regiões, como Europa, América Latina e África, indica que essa articulação não se restringe a um eixo regional, mas pretende assumir uma dimensão mais ampla. Trata-se de um esforço de construção de afinidades políticas e ideológicas, que pode se traduzir, no médio prazo, em coordenação diplomática, alinhamento em organismos internacionais e iniciativas conjuntas em temas como desigualdade, regulação econômica e governança global.

No entanto, essa estratégia não está isenta de ambiguidades. Ao mesmo tempo em que busca reconstruir uma agenda progressista mundial, o próprio campo progressista enfrenta desafios internos significativos, como fragmentação, divergências programáticas e limitações institucionais. A autocrítica expressa por Lula ao reconhecer que governos progressistas, em certos momentos, se tornaram gestores das limitações impostas pelo modelo econômico dominante revela a consciência dessas tensões.

Assim, a política externa brasileira se move em um terreno complexo: tenta articular uma coalizão política internacional ao mesmo tempo em que reconhece os limites dessa própria articulação. Ainda assim, o movimento é significativo. Ele sinaliza uma inflexão importante: o Brasil não busca apenas participar da ordem internacional, mas influenciar os termos do debate político que a estrutura.

Multilateralismo, soberania e ordem internacional

Se a dimensão política da atuação internacional brasileira aponta para a construção de coalizões, sua dimensão normativa reafirma, ainda que com novas nuances, princípios históricos da diplomacia do país. Entre eles, destacam-se a defesa do multilateralismo, o respeito à soberania e a centralidade do direito internacional.

Esses elementos tornam-se evidentes nas posições adotadas pelo Brasil em relação a crises contemporâneas. A atuação conjunta com outros países em defesa do fim de sanções unilaterais e na rejeição a intervenções externas, como no caso de Cuba , revela a tentativa de reposicionar o país como defensor ativo de uma ordem internacional baseada em regras. Ao enfatizar princípios como autodeterminação, integridade territorial e resolução pacífica de disputas, o governo brasileiro retoma uma tradição diplomática consolidada, mas a insere em um contexto global mais contestado.

Essa revalorização do multilateralismo ocorre em um momento de fragilização das instituições internacionais. A crítica à inação ou à seletividade de organismos como a ONU, combinada à defesa de sua reforma e fortalecimento, indica que o Brasil não apenas apoia a ordem multilateral, mas reconhece suas limitações e a necessidade de adaptação à realidade contemporânea.

Ao mesmo tempo, essa postura carrega um elemento de posicionamento estratégico. Ao adotar uma retórica crítica em relação ao uso unilateral da força e às assimetrias de poder no sistema internacional, o Brasil se aproxima de demandas historicamente associadas ao Sul Global. Isso não implica um alinhamento automático, mas sugere uma tentativa de equilibrar relações com diferentes polos de poder, preservando autonomia e ampliando margem de manobra.

Nesse sentido, a política externa brasileira busca ocupar um espaço específico: o de ator intermediário, capaz de dialogar com múltiplos lados e, ao mesmo tempo, sustentar uma agenda normativa própria. Trata-se de uma estratégia que combina continuidade e adaptação: continuidade nos princípios, adaptação nas formas de atuação diante de um sistema internacional mais fragmentado e competitivo.

O desafio, no entanto, permanece. Em um ambiente marcado por disputas entre grandes potências e pela crescente instrumentalização das normas internacionais, a capacidade de um país como o Brasil de sustentar uma posição normativa independente depende não apenas de sua diplomacia, mas também de sua capacidade material, coesão interna e consistência estratégica.

Europa como espaço estratégico: economia, política e simbolismo

As recentes viagens de Luiz Inácio Lula da Silva à Europa revelam uma escolha geopolítica relevante. Mais do que destinos protocolares, países como Espanha, Alemanha e Portugal constituem espaços estratégicos de atuação simultaneamente econômica, política e simbólica para o Brasil.

No plano econômico, a Europa permanece como fonte central de investimento estrangeiro e parceiro relevante para a estratégia de reindustrialização brasileira. A realização de encontros com empresários de setores como energia, infraestrutura, telecomunicações e finanças indica que a política externa busca articular capital externo à reconstrução da base produtiva nacional. Trata-se de uma tentativa de conciliar abertura econômica com fortalecimento interno, ainda que essa equação seja marcada por tensões estruturais.

No plano político, a aproximação com governos europeus, especialmente aqueles de orientação progressista, reforça a tentativa de construção de alinhamentos baseados em afinidades ideológicas e diagnósticos comuns. A interlocução com lideranças como Pedro Sánchez insere o Brasil em um circuito político que busca responder ao avanço da extrema-direita, à crise de legitimidade democrática e às limitações do modelo econômico dominante.

Há, ainda, uma dimensão simbólica que não deve ser subestimada. Após um período de relativo isolamento e desgaste internacional, o Brasil busca reconstruir sua imagem como ator confiável, previsível e relevante. A presença ativa em fóruns, reuniões de alto nível e agendas multilaterais funciona como sinalização externa de estabilidade e engajamento.

Nesse sentido, a Europa cumpre um papel específico na estratégia brasileira: não é apenas um parceiro econômico, mas um espaço de validação internacional. Diferentemente da relação com grandes potências como Estados Unidos e China, geralmente marcadas por maior assimetria e competição, a interação com países europeus permite ao Brasil operar com maior margem de autonomia relativa.

Ao utilizar a Europa como plataforma de articulação, o governo brasileiro tenta construir uma posição intermediária no sistema internacional: suficientemente conectada ao Ocidente para garantir legitimidade e acesso, mas preservando capacidade de diálogo com o Sul Global e outros polos de poder.

A crítica ao neoliberalismo como eixo estruturante

Um dos elementos mais distintivos da política externa recente do governo Lula é a incorporação explícita de uma crítica ao neoliberalismo como eixo estruturante de sua narrativa internacional. Essa crítica não aparece apenas como retórica, mas como componente central da forma como o Brasil interpreta a crise contemporânea.

Nos discursos realizados em fóruns internacionais, o diagnóstico apresentado é consistente: o modelo econômico dominante, ao priorizar eficiência, austeridade e liberalização, não foi capaz de produzir inclusão social, estabilidade política ou legitimidade duradoura. Ao contrário, teria contribuído para o aumento da desigualdade, a precarização do trabalho e o enfraquecimento das instituições democráticas.

Essa leitura conecta diretamente política econômica e estabilidade política. Ao afirmar que democracias perdem credibilidade quando não respondem às demandas sociais, o governo brasileiro desloca o debate internacional para um terreno sensível: o vínculo entre desigualdade e crise democrática.

Nesse contexto, propostas como a revisão da jornada de trabalho ou a redistribuição dos ganhos de produtividade deixam de ser apenas políticas nacionais e passam a integrar uma crítica mais ampla ao funcionamento do capitalismo contemporâneo. A política externa, assim, transforma-se em veículo de difusão dessa interpretação.

No entanto, essa estratégia carrega uma tensão fundamental. Ao mesmo tempo em que critica o neoliberalismo, o Brasil depende de fluxos de investimento, estabilidade macroeconômica e inserção em mercados globais — elementos que estão, em grande medida, associados à própria ordem econômica que se busca questionar. Essa ambivalência não é exclusiva do Brasil, mas característica de diversos países que tentam conciliar desenvolvimento, inclusão e inserção internacional.

Ainda assim, a centralidade dessa crítica indica uma inflexão relevante. O Brasil não se limita a buscar melhores condições dentro da ordem existente, mas procura reformular os termos do debate sobre desenvolvimento e governança econômica global.

Ao fazer isso, posiciona-se não apenas como participante, mas como ator que disputa narrativas, um papel que, embora mais ambicioso, também expõe o país a maiores níveis de contestação e exigência de coerência entre discurso e prática.

Limites e contradições da estratégia brasileira

Apesar da ambição e da coerência discursiva, a política externa recente do governo brasileiro opera sob um conjunto significativo de limites estruturais e contradições internas, que condicionam sua capacidade de transformação efetiva.

A primeira tensão emerge da própria relação entre discurso e inserção econômica. Ao mesmo tempo em que critica os efeitos do neoliberalismo e defende uma agenda de maior intervenção estatal e redistribuição, o Brasil permanece inserido em uma economia global dependente de fluxos de capital, cadeias produtivas transnacionais e estabilidade macroeconômica. Essa condição impõe restrições concretas: a capacidade de sustentar uma agenda alternativa depende, em grande medida, da manutenção de condições que são, paradoxalmente, associadas ao modelo que se busca questionar.

Há também limites de ordem política interna. A fragmentação do sistema político brasileiro, a necessidade de negociação constante com o Congresso e a resistência de setores empresariais a propostas como a revisão da jornada de trabalho reduzem a margem de manobra do Executivo. Nesse contexto, a política externa, ao incorporar elementos da agenda doméstica, torna-se igualmente exposta a essas disputas.

No plano internacional, as dificuldades são igualmente relevantes. A tentativa de reconstruir uma articulação progressista global esbarra em um cenário marcado por fragmentação ideológica, assimetrias de poder e prioridades nacionais divergentes. Mesmo entre governos com afinidades políticas, a coordenação efetiva é limitada por interesses econômicos, restrições institucionais e contextos domésticos distintos.

Além disso, o sistema internacional contemporâneo é cada vez mais estruturado por disputas entre grandes potências, especialmente entre Estados Unidos e China. Nesse ambiente, a busca por autonomia estratégica, uma característica histórica da diplomacia brasileira, torna-se mais complexa. O espaço para atuação intermediária existe, mas é constantemente pressionado por dinâmicas de alinhamento, competição e securitização.

Por fim, há um desafio de consistência. Ao assumir um papel mais ativo na disputa de narrativas internacionais, o Brasil eleva o nível de exigência sobre si mesmo. A coerência entre discurso e prática torna-se não apenas desejável, mas necessária para sustentar credibilidade. Qualquer desalinhamento entre a agenda projetada externamente e as políticas implementadas internamente pode comprometer a eficácia da estratégia.

Esses limites não anulam a relevância da política externa em curso, mas indicam que sua efetividade dependerá da capacidade do país de articular ambição política com viabilidade econômica e institucional.

O Brasil como ator normativo em um sistema em transição

As viagens recentes de Luiz Inácio Lula da Silva revelam uma política externa que vai além da diplomacia tradicional. Elas expressam um projeto mais amplo de reposicionamento do Brasil em um sistema internacional em transformação, no qual poder, legitimidade e narrativa se tornam dimensões cada vez mais interdependentes.

Ao articular agenda doméstica e atuação internacional, o governo brasileiro busca redefinir o papel do país não apenas como participante, mas como formulador e articulador de agendas. A defesa de uma democracia capaz de responder às demandas sociais, a crítica às desigualdades estruturais e a revalorização do multilateralismo compõem uma tentativa de construir uma posição normativa própria, inserida nas disputas contemporâneas sobre os rumos da ordem internacional.

Esse movimento não representa simplesmente um retorno aos padrões da política externa dos primeiros governos Lula. Ele ocorre em um contexto mais complexo, marcado por maior fragmentação, polarização e instabilidade. Nesse cenário, a atuação brasileira precisa equilibrar tradição e adaptação, princípios e pragmatismo, ambição e capacidade.

A Europa, as coalizões progressistas e os fóruns multilaterais funcionam como plataformas dessa estratégia, mas não garantem, por si só, sua consolidação. O sucesso do reposicionamento brasileiro dependerá da capacidade de transformar discurso em ação, de sustentar coerência interna e de operar com eficácia em um ambiente internacional cada vez mais competitivo.

Em última instância, o que está em jogo não é apenas a presença internacional do Brasil, mas a forma como o país escolhe se inserir em um mundo em disputa. As viagens presidenciais, nesse sentido, são menos deslocamentos geográficos e mais expressões de um projeto político que busca reconectar desenvolvimento, democracia e soberania como eixos centrais da atuação internacional brasileira.

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Analista de Relações Internacionais at ESRI | Website |  + posts

Analista de Relações Internacionais, organizador do Congresso de Relações Internacionais e editor da Revista Relações Exteriores. Professor, Palestrante e Empreendedor. Contato profissional: guilherme.bueno(a)esri.net.br

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