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Mark Carney: Davos e o fim da ficção da ordem liberal internacional

Reprodução Youtube WEB

No palco do World Economic Forum, em Davos, dois discursos dividiram o mesmo espaço físico, mas não o mesmo tempo histórico. A fala do primeiro-ministro canadense Mark Carney, em 20 de janeiro de 2026, não foi apenas um contraponto indireto ao discurso de Donald Trump, apresentado no dia seguinte. Ela funcionou como algo mais profundo e raro: um ato de nomeação política da mudança de era.

Carney não tentou suavizar o diagnóstico, nem recorrer à retórica habitual de “reformas graduais” ou “ajustes necessários”. Desde os primeiros minutos, deixou claro que o momento exige linguagem nova, porque a realidade já não cabe mais nos conceitos herdados do pós-Guerra Fria.

“Estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição.”

Essa afirmação não é apenas descritiva. Ela é performativa. Ao rejeitar a ideia de transição, Carney rompe com a suposição, ainda dominante em círculos diplomáticos, de que o sistema internacional atravessa apenas um período turbulento antes de retornar à normalidade liberal. Para ele, não há retorno possível. O que se encerrou foi uma era histórica específica: a da estabilidade relativa garantida por uma hegemonia que já não se dispõe, nem é capaz, de sustentar o sistema como antes.

O colapso da ordem baseada em regras como ficção funcional

O ponto mais sensível, e talvez mais corajoso, do discurso ocorre quando Carney verbaliza aquilo que, por décadas, foi apenas sussurrado nos bastidores da diplomacia ocidental:

“Sabíamos que a narrativa da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa.”

A força dessa frase está menos na crítica em si e mais no reconhecimento explícito de cumplicidade. Segundo Carney, países como o Canadá não foram vítimas ingênuas de um sistema injusto; foram participantes conscientes de uma ficção funcional. A ordem liberal nunca foi plenamente universal, imparcial ou simétrica, mas funcionava o suficiente para garantir previsibilidade, acesso a mercados e proteção estratégica às potências médias.

“Essa ficção foi útil.”

Ela foi sustentada, sobretudo, pela hegemonia norte-americana, que fornecia bens públicos essenciais:

“A hegemonia americana ajudou a prover bens públicos: rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e mecanismos de resolução de disputas.”

Em troca, os países intermediários aceitaram não expor as contradições entre discurso e prática. Repetiram os rituais, defenderam as instituições e evitaram confrontar as assimetrias estruturais do sistema.

O problema, insiste Carney, é que o pacto implícito deixou de existir.

Da integração como promessa à integração como coerção

O eixo central da ruptura não é apenas geopolítico, mas geoeconômico. Carney descreve uma mudança qualitativa no uso da interdependência internacional:

“As grandes potências passaram a usar a integração econômica como arma: tarifas como instrumento de pressão, infraestrutura financeira como coerção, cadeias produtivas como vulnerabilidades a serem exploradas.”

Quando a integração deixa de ser um mecanismo de ganhos mútuos e passa a operar como fonte de subordinação, a linguagem da cooperação perde credibilidade. Nesse cenário, insistir na retórica da ordem baseada em regras torna-se não apenas ingênuo, mas perigoso.

“Não é possível viver dentro da mentira do benefício mútuo quando a integração se transforma na origem da sua vulnerabilidade.”

A consequência lógica é direta: o sistema já não protege aqueles que dele dependem. E, quando as regras deixam de oferecer proteção, os Estados são empurrados a buscar meios próprios de defesa.

O sinal na vitrine: Havel e a política da honestidade

Para dar densidade moral ao argumento, Carney recorre a Václav Havel e ao ensaio O poder dos sem poder. A metáfora do comerciante que exibe, na vitrine, um slogan no qual não acredita torna-se o fio condutor da crítica à diplomacia contemporânea.

“O poder do sistema não vem de sua verdade, mas da disposição coletiva de agir como se ele fosse verdadeiro.”

A ordem internacional, sugere Carney, sustentou-se menos pela coerção direta e mais pela reprodução cotidiana de uma narrativa sabidamente imperfeita. Países repetiam os mantras da legalidade e da cooperação não porque acreditavam plenamente neles, mas para “evitar problemas”, “não criar atritos”, “seguir funcionando”.

O momento atual, contudo, exige uma ruptura com essa performance.

“Amigos, chegou a hora de empresas e países retirarem o sinal da vitrine.”

Aqui, a política externa deixa de ser apenas cálculo de interesses e passa a envolver uma decisão ética fundamental: continuar fingindo que a ordem funciona ou nomear a realidade como ela é.

Soberania redefinida: resistir à pressão

Um dos deslocamentos conceituais mais relevantes do discurso de Carney está na redefinição de soberania. Longe da ideia clássica de autonomia absoluta ou da retórica nacionalista de autossuficiência, ele propõe um critério mais austero e mais realista:

“Soberania hoje é a capacidade de resistir à pressão.”

Essa frase sintetiza uma mudança profunda na gramática da política internacional. Em um mundo de interdependência assimétrica, soberania não é isolamento, mas resiliência. Estados soberanos são aqueles capazes de absorver choques, diversificar parceiros, sustentar posições políticas sem colapsar diante de retaliações econômicas, financeiras ou tecnológicas.

Carney deixa claro que, quando as regras deixam de proteger, a autoproteção se impõe:

“Quando as regras já não protegem você, você precisa se proteger.”

Mas ele também alerta para o falso conforto dessa lógica quando levada ao extremo:

“Um mundo de fortalezas será mais pobre, mais frágil e menos sustentável.”

A crítica aqui é direta às estratégias puramente defensivas de “autonomia estratégica” que, se adotadas isoladamente, produzem fragmentação, duplicação de custos e perda de eficiência sistêmica. A alternativa, para Carney, não é nem submissão nem fechamento: é coordenação entre potências médias.

Potências médias: entre a performance e a ação real

Carney dedica uma parte substantiva de sua fala a um grupo frequentemente subestimado nos grandes debates estratégicos: as potências médias. Países que não possuem escala de mercado, capacidade militar ou poder de coerção suficientes para impor regras, mas que também não são meros receptores passivos da ordem internacional.

Ele é explícito ao apontar o dilema estrutural desses Estados:

“As grandes potências podem, por enquanto, agir sozinhas. Têm tamanho de mercado, capacidade militar e alavancagem. As potências médias não têm.”

O risco, nesse contexto, é a ilusão de soberania:

“Quando negociamos apenas bilateralmente com uma potência hegemônica, negociamos a partir da fraqueza. Aceitamos o que é oferecido. Competimos entre nós para sermos os mais complacentes.”

E então vem a frase mais dura:

“Isso não é soberania. É a encenação da soberania enquanto se aceita a subordinação.”

Aqui, Carney desmonta uma das narrativas mais recorrentes da diplomacia contemporânea: a de que acordos bilaterais assimétricos representam autonomia. Para ele, trata-se apenas de uma performance política, incapaz de alterar a estrutura de poder subjacente.

Geometria variável: o abandono do universalismo vazio

Diante da erosão das grandes instituições multilaterais, Carney não propõe sua simples restauração. Ele reconhece explicitamente sua fragilização:

“As instituições multilaterais das quais as potências médias dependeram — a OMC, a ONU, as COPs — estão sob ameaça.”

A resposta não é o abandono da cooperação, mas sua reconfiguração pragmática:

“Geometria variável. Diferentes coalizões para diferentes temas, com base em valores e interesses comuns.”

Esse trecho é fundamental para entender a proposta de Carney. Ele não defende um multilateralismo universal abstrato, mas coalizões funcionais, capazes de agir onde há convergência suficiente. Ucrânia, Ártico, minerais críticos, comércio plurilateral, inteligência artificial… cada tema exige arranjos específicos.

“Isso não é multilateralismo ingênuo.”

Nem tampouco é transacionalismo puro. Trata-se de construir uma rede densa de conexões, que reduza vulnerabilidades e amplie margens de manobra.

“Se não estamos à mesa, estamos no cardápio”

A frase mais citada do discurso não é um slogan casual, trata-se de um resumo estratégico:

“Se não estamos à mesa, estamos no cardápio.”

Ela expressa, de forma quase brutal, a condição das potências médias em um sistema dominado pela lógica de poder. A alternativa à ação coletiva não é neutralidade, mas irrelevância ou exploração.

Carney reforça que o problema não é apenas externo, mas também moral:

“Quando criticamos a intimidação econômica de um lado, mas permanecemos em silêncio quando ela vem de outro, estamos mantendo o sinal na vitrine.”

Ou seja, a incoerência seletiva mina a legitimidade e enfraquece a capacidade de ação conjunta. Viver “na verdade”, para Carney, exige consistência, inclusive com aliados.

Nostalgia não é estratégia

Ao se aproximar do final do discurso, Carney rejeita explicitamente qualquer apego ao passado:

“Sabemos que a velha ordem não vai voltar. Não devemos lamentá-la. Nostalgia não é uma estratégia.”

Essa é uma das linhas mais importantes de toda a fala. Ela encerra o discurso liberal-restauracionista que ainda domina parte da elite política ocidental. Não se trata de salvar a ordem antiga, mas de construir algo novo a partir da fratura.

“Essa ruptura exige mais do que adaptação. Exige honestidade sobre o mundo como ele é.”

Conclusão: nomear a realidade como ato de poder

Em Davos, Mark Carney não apresentou um blueprint acabado para uma nova ordem internacional. Fez algo mais raro e talvez mais necessário: nomeou o colapso da ordem anterior sem eufemismos, sem cinismo e sem ilusões restauracionistas.

“Estamos retirando o sinal da vitrine.”

Em um sistema cada vez mais marcado por coerção, silêncio estratégico e medo de retaliação, parar de fingir já é, por si só, um gesto de poder. Para as potências médias, esse pode ser o primeiro e indispensável passo para voltar a influenciar os rumos da ordem internacional que está emergindo.

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Analista de Relações Internacionais at ESRI | Website |  + posts

Analista de Relações Internacionais, organizador do Congresso de Relações Internacionais e editor da Revista Relações Exteriores. Professor, Palestrante e Empreendedor. Contato profissional: guilherme.bueno(a)esri.net.br

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