No debate público contemporâneo, especialmente em países periféricos do sistema internacional, persiste com frequência uma leitura idealizada da política externa das grandes potências. Segundo essa interpretação, por exemplo, os Estados Unidos atuariam no cenário internacional primordialmente como promotores da democracia, da liberdade e dos direitos humanos, intervindo em crises externas com o objetivo de proteger populações ou apoiar a construção de regimes políticos mais livres. Essa visão, amplamente difundida em discursos políticos, midiáticos e até mesmo em parte do debate acadêmico mais superficial, tende a atribuir à política externa norte-americana umcaráter essencialmente normativo e altruísta. No entanto, quando examinada à luz da literatura de Relações Internacionais e da prática histórica da política externa das grandes potências, essa narrativa revela-se incompleta e, muitas vezes, profundamente enganosa.
A tradição analítica das Relações Internacionais, especialmente nas correntes realistas e neorrealistas, sustenta que os Estados organizam sua política externa prioritariamente em torno de cálculos de interesse nacional. Segurança, preservação da soberania, acesso a recursos estratégicos, manutenção de esferas de influência e estabilidade da ordem internacional favorável constituem objetivos centrais que orientam a ação dos Estados no sistema internacional. Nesse sentido, a política externa pode ser compreendida como o instrumento através do qual os governos buscam projetar e proteger esses interesses no plano internacional, mobilizando recursos diplomáticos, econômicos e, quando necessário, militares para alcançar seus objetivos estratégicos .
O conceito de interesse nacional ocupa, portanto, posição central na análise da política internacional. Ele funciona como princípio orientador da formulação estratégica dos Estados e como referência fundamental para a definição de prioridades externas. Ainda que sua definição concreta varie conforme contextos históricos, disputas internas e percepções de ameaça, o interesse nacional permanece como o núcleo a partir do qual as elites governantes estruturam suas políticas externas e suas estratégias de inserção internacional . Nesse sentido, esperar que uma grande potência organize sua ação externa com base prioritária em objetivos altruístas ou universalistas constitui, do ponto de vista analítico, uma expectativa pouco consistente com o funcionamento real da política internacional.
Isso não significa, contudo, que valores, normas e princípios não desempenhem papel relevante na política externa das democracias liberais. Ao contrário, conceitos como democracia, direitos humanos, liberdade e proteção humanitária ocupam posição central na retórica diplomática e política de países ocidentais, especialmente após o fim da Guerra Fria. Esses princípios aparecem frequentemente como justificativa para intervenções externas, sanções econômicas e pressões diplomáticas sobre regimes considerados autoritários ou violadores de direitos fundamentais. Entretanto, uma leitura mais atenta da literatura crítica sugere que tais discursos normativos frequentemente desempenham também uma função política específica: a de legitimar ações de poder perante a opinião pública doméstica e a comunidade internacional.
Em regimes democráticos consolidados, o recurso à força, a imposição de sanções ou a interferência em outros países precisam ser politicamente justificáveis. Assim, a linguagem moral e humanitária muitas vezes se torna um elemento central da construção de legitimidade para políticas externas coercitivas. Narrativas de crise, ameaça ou catástrofe humanitária são frequentemente mobilizadas para apresentar determinadas intervenções como necessárias ou inevitáveis, transformando ações orientadas por cálculos estratégicos em respostas moralmente justificadas diante de situações consideradas excepcionais . Nesse processo, conceitos normativos funcionam não apenas como expressão de valores, mas também como instrumentos discursivos capazes de produzir consentimento político e reduzir resistências internas à adoção de medidas de força.
Além disso, a própria arquitetura institucional da ordem internacional contemporânea revela os limites de interpretações excessivamente idealistas sobre a política internacional. Embora instituições multilaterais tenham sido concebidas para promover cooperação e gestão coletiva de conflitos, a prática demonstra que grandes potências continuam a exercer influência decisiva sobre essas estruturas. O funcionamento do Conselho de Segurança das Nações Unidas, por exemplo, evidencia como interesses nacionais dos membros permanentes frequentemente condicionam ou bloqueiam decisões internacionais, demonstrando que mesmo arenas multilaterais permanecem profundamente atravessadas por disputas de poder e estratégias nacionais .
Diante desse quadro, torna-se necessário examinar de forma crítica a relação entre discurso normativo e prática estratégica na política externa das grandes potências. Em particular, o caso dos Estados Unidos oferece um campo privilegiado para essa análise. Ao longo do século XX e do início do século XXI, a política externa norte-americana recorreu a uma ampla gama de instrumentos para influenciar outros países, incluindo sanções econômicas, apoio a forças opositoras, intervenções militares e estratégias de mudança de regime. Essas ações foram frequentemente justificadas em nome da promoção da democracia, da defesa dos direitos humanos ou da proteção da ordem internacional. Contudo, sua seleção, intensidade e direcionamento revelam padrões que frequentemente se alinham mais claramente a objetivos estratégicos de poder do que a compromissos universais com valores normativos.
Este artigo parte dessa tensão entre discurso e prática para examinar criticamente a ideia de que os Estados Unidos atuam no sistema internacional com o objetivo primordial de salvar outros países ou promover democracia de forma desinteressada. Argumenta-se que, embora valores democráticos e princípios normativos façam parte da retórica diplomática norte-americana, a política externa dos Estados Unidos, como a de qualquer grande potência, permanece fundamentalmente orientada por cálculos de interesse nacional, segurança estratégica e manutenção de uma ordem internacional favorável à sua posição de poder.
Para desenvolver esse argumento, o artigo está organizado em seções principais. A primeira discute o conceito de interesse nacional e sua centralidade na formulação da política externa dos Estados. A segunda apresenta o enquadramento teórico a partir das principais correntes das Relações Internacionais, destacando a relação entre poder, interesses e comportamento das grandes potências. A terceira examina instrumentos específicos da política externa norte-americana, como sanções econômicas e estratégias de mudança de regime, à luz da literatura especializada. Por fim, o artigo discute os limites do multilateralismo contemporâneo e reflete sobre as razões pelas quais a narrativa de que grandes potências atuam para salvar países permanece politicamente sedutora, apesar de suas fragilidades analíticas.
Ao fazê-lo, busca-se contribuir para uma compreensão mais realista e menos idealizada da política internacional contemporânea, destacando a importância de distinguir entre os discursos normativos que acompanham a ação externa das grandes potências e os interesses estratégicos que efetivamente orientam suas decisões.
2. Interesse nacional como fundamento da política externa
A análise da política internacional parte, inevitavelmente, da compreensão do papel desempenhado pelo interesse nacional na formulação e na execução da política externa dos Estados. Embora o conceito seja frequentemente utilizado de forma vaga ou retórica no discurso político, a literatura de Relações Internacionais o reconhece como uma das categorias analíticas mais importantes para explicar o comportamento estatal no sistema internacional. Em termos gerais, o interesse nacional pode ser entendido como o conjunto de objetivos fundamentais que um Estado busca proteger ou promover no ambiente externo, incluindo segurança, prosperidade econômica, estabilidade política, preservação da soberania e manutenção de sua posição estratégica no sistema internacional.
Nesse sentido, a política externa constitui o principal instrumento por meio do qual os governos procuram traduzir esses objetivos em ação internacional. Diplomacia, alianças, sanções econômicas, cooperação institucional e, em casos extremos, o uso da força militar são mecanismos mobilizados pelos Estados para defender ou expandir seus interesses estratégicos. Assim, a política externa não pode ser compreendida apenas como expressão de valores ou ideologias, mas sobretudo como um conjunto de estratégias orientadas para a proteção e a maximização do interesse nacional em um ambiente internacional marcado pela competição e pela ausência de uma autoridade central capaz de impor regras universais de comportamento .
A centralidade do interesse nacional na política internacional decorre também da própria estrutura do sistema internacional. Diferentemente da política doméstica, onde instituições jurídicas e mecanismos coercitivos garantem o cumprimento das normas, o sistema internacional caracteriza-se por uma condição de anarquia institucional, isto é, pela inexistência de um governo mundial capaz de regular de maneira efetiva as relações entre os Estados. Nesse contexto, cada Estado permanece responsável por garantir sua própria segurança e sobrevivência, o que torna a defesa de interesses estratégicos uma condição fundamental para sua continuidade como ator soberano.
Diversos autores e tradições teóricas reconhecem essa centralidade do interesse nacional, ainda que interpretem seus componentes de maneira distinta. A tradição realista, representada por autores como Hans Morgenthau, sustenta que os Estados buscam essencialmente preservar e ampliar seu poder relativo no sistema internacional. A partir dessa perspectiva, o interesse nacional encontra-se profundamente vinculado à capacidade de assegurar a sobrevivência do Estado e proteger sua posição estratégica diante de potenciais adversários. Já as abordagens neorrealistas enfatizam o papel da estrutura do sistema internacional, argumentando que a distribuição de poder entre os Estados condiciona o comportamento das potências e molda suas estratégias de segurança.
Outras correntes teóricas ampliam essa interpretação. Perspectivas liberais, por exemplo, reconhecem que interesses nacionais podem incluir também objetivos ligados à cooperação internacional, à estabilidade econômica e à promoção de regimes políticos compatíveis com determinados valores institucionais. Abordagens construtivistas, por sua vez, destacam que os interesses dos Estados não são definidos apenas por fatores materiais, mas também por ideias, identidades e percepções coletivas que moldam a forma como governos interpretam ameaças e oportunidades no sistema internacional. Ainda assim, mesmo nessas abordagens mais amplas, permanece a premissa de que os Estados formulam sua política externa a partir de prioridades próprias e não de compromissos abstratos com a ordem internacional como um todo .
Além disso, o interesse nacional não constitui um conceito fixo ou imutável. Sua definição concreta resulta de disputas políticas internas, contextos históricos específicos e percepções estratégicas das elites governantes. Em diferentes momentos, governos podem priorizar objetivos distintos, como segurança militar, crescimento econômico, expansão de influência regional ou estabilidade política doméstica. Nesse sentido, o interesse nacional pode ser entendido como uma categoria dinâmica, cuja interpretação depende da interação entre fatores estruturais, percepções de ameaça e projetos políticos das coalizões que controlam o Estado.
Apesar dessa variabilidade, permanece um consenso importante na literatura: nenhuma política externa pode ser compreendida adequadamente se o interesse nacional for ignorado como variável explicativa. Mesmo quando governos justificam suas ações externas com base em valores universais ou princípios normativos, essas iniciativas tendem a estar inseridas em cálculos mais amplos relacionados à posição estratégica do Estado no sistema internacional. Em outras palavras, valores e interesses raramente aparecem como categorias mutuamente excludentes; na prática, frequentemente se entrelaçam na formulação de políticas externas.
Essa observação torna-se particularmente relevante quando se analisam as estratégias de política externa das grandes potências. Estados com maior capacidade econômica, militar e tecnológica dispõem de recursos significativamente mais amplos para projetar poder além de suas fronteiras e influenciar a dinâmica política de outras regiões. Como resultado, suas decisões externas frequentemente possuem impactos estruturais sobre a ordem internacional. No entanto, essa capacidade ampliada de ação não altera a lógica fundamental que orienta seu comportamento: mesmo grandes potências continuam a agir de acordo com aquilo que percebem como seus interesses estratégicos.
Essa constatação possui implicações importantes para a análise da política externa dos Estados Unidos. Como potência dominante em grande parte do período posterior à Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos desenvolveram uma política externa altamente ativa, caracterizada pela combinação de instrumentos diplomáticos, econômicos e militares destinados a preservar sua posição de liderança internacional. Ainda que essa política seja frequentemente apresentada como comprometida com a promoção de democracia, liberdade e direitos humanos, a literatura especializada indica que tais objetivos coexistem com, e muitas vezes são subordinados a, cálculos mais amplos relacionados à segurança nacional, à estabilidade de alianças estratégicas e à manutenção de uma ordem internacional favorável aos interesses norte-americanos.
Nesse contexto, compreender o papel do interesse nacional torna-se essencial para avaliar de forma crítica as motivações e os resultados da política externa dos Estados Unidos. Longe de representar uma exceção altruísta no comportamento das grandes potências, a atuação norte-americana pode ser mais adequadamente interpretada como expressão de uma lógica comum a Estados com elevada capacidade de poder: a busca contínua por segurança, influência e estabilidade estratégica em um sistema internacional competitivo.
3. Democracia, liberdade e direitos humanos como linguagem de legitimação
A relação entre valores normativos e interesses estratégicos constitui um dos temas mais complexos da análise da política internacional contemporânea. Em particular, conceitos como democracia, liberdade, direitos humanos e proteção humanitária ocupam posição central na retórica diplomática de diversas potências ocidentais, especialmente após o fim da Guerra Fria. Esses princípios são frequentemente mobilizados para justificar intervenções internacionais, pressões diplomáticas e sanções econômicas dirigidas a governos considerados autoritários ou violadores de normas internacionais.
Contudo, uma leitura crítica da literatura especializada indica que esses conceitos desempenham não apenas um papel normativo, mas também uma função política específica: a construção de legitimidade para ações externas que envolvem coerção, pressão ou interferência sobre outros Estados. Em democracias liberais, o uso da força ou a imposição de medidas coercitivas contra outros países exige justificativas públicas que possam ser aceitas pela opinião doméstica e pela comunidade internacional. Nesse contexto, a linguagem moral e humanitária frequentemente se torna um instrumento central de legitimação política.
Diversos estudos indicam que discursos sobre crises humanitárias, ameaças à segurança internacional ou violações graves de direitos humanos são frequentemente apresentados como justificativas para intervenções externas. Essas narrativas permitem enquadrar ações estratégicas dentro de uma moldura moral que transforma decisões de política externa em respostas aparentemente inevitáveis a situações de emergência. Ao invocar conceitos amplamente aceitos, como a defesa da liberdade ou a proteção de populações civis, governos conseguem apresentar medidas coercitivas não como expressão de interesses estratégicos, mas como obrigações morais diante de circunstâncias excepcionais.
Esse processo discursivo não ocorre de forma espontânea. A construção política de crises e ameaças frequentemente envolve a mobilização de narrativas que enfatizam determinados aspectos de um conflito enquanto minimizam outros. Ao destacar violações específicas, personalizar conflitos em torno de líderes considerados ilegítimos ou caracterizar determinadas situações como emergências humanitárias, discursos políticos conseguem produzir enquadramentos interpretativos que facilitam a aceitação pública de medidas extraordinárias. A linguagem política, nesse sentido, desempenha papel fundamental na transformação de questões complexas de política internacional em narrativas moralmente inteligíveis para audiências domésticas.
Estudos críticos sobre comunicação política e guerra indicam que a legitimação da coerção internacional frequentemente depende da mobilização de emoções coletivas, como medo, indignação ou senso de responsabilidade moral. Ao apresentar determinados conflitos como crises urgentes ou ameaças iminentes, governos ampliam o espaço político para a adoção de políticas que, em circunstâncias normais, poderiam enfrentar resistência significativa. Narrativas de ameaça ou catástrofe humanitária, portanto, funcionam como mecanismos capazes de justificar intervenções militares, sanções econômicas ou pressões diplomáticas intensificadas .
Essa dinâmica revela uma tensão recorrente entre retórica normativa e prática estratégica na política internacional. Embora princípios como democracia e direitos humanos constituam elementos importantes da ordem internacional contemporânea, sua mobilização no discurso político não ocorre em um vazio estratégico. Em muitos casos, esses valores são utilizados para conferir legitimidade a ações externas que também respondem a objetivos relacionados à segurança nacional, à estabilidade de alianças ou à preservação de esferas de influência.
Isso não significa necessariamente que tais valores sejam irrelevantes ou meramente instrumentais. Em diversas situações, preocupações genuínas com direitos humanos ou estabilidade democrática podem influenciar decisões de política externa. No entanto, a análise empírica sugere que essas preocupações raramente operam de maneira isolada. Ao contrário, elas tendem a coexistir com considerações estratégicas mais amplas, sendo frequentemente mobilizadas de forma seletiva conforme os interesses e prioridades das potências envolvidas.
A seletividade constitui, aliás, um dos elementos mais reveladores dessa dinâmica. Estados acusados de violações graves de direitos humanos ou de práticas autoritárias nem sempre recebem respostas semelhantes da comunidade internacional. Enquanto alguns regimes enfrentam forte pressão diplomática, sanções ou mesmo intervenções militares, outros permanecem relativamente protegidos devido à sua relevância estratégica, econômica ou geopolítica. Essa variação na intensidade das respostas internacionais sugere que valores normativos frequentemente são filtrados por cálculos de interesse e poder.
Nesse contexto, compreender o papel desempenhado pela linguagem moral e humanitária na política internacional torna-se essencial para uma análise mais realista das intervenções externas. Ao invés de interpretar tais discursos apenas como expressões de compromisso universal com determinados valores, torna-se necessário examiná-los também como instrumentos de legitimação política, capazes de enquadrar decisões estratégicas dentro de narrativas moralmente aceitáveis.
Essa perspectiva analítica oferece um ponto de partida importante para examinar instrumentos concretos da política externa das grandes potências. Entre esses instrumentos, dois mecanismos têm desempenhado papel particularmente relevante na política externa dos Estados Unidos nas últimas décadas: as sanções econômicas e as estratégias de mudança de regime. A análise dessas ferramentas permite observar de forma mais clara como objetivos estratégicos e justificativas normativas frequentemente se entrelaçam na prática da política internacional.
4. Mudança de regime e sanções como instrumentos de interesse nacional
A política externa das grandes potências dispõe de uma ampla variedade de instrumentos para influenciar o comportamento de outros Estados. Entre esses mecanismos, dois têm ocupado posição central nas estratégias contemporâneas de projeção de poder: as sanções econômicas e as políticas de mudança de regime. Ambos constituem formas de coerção internacional destinadas a alterar decisões políticas de governos estrangeiros, pressionar adversários estratégicos ou remodelar equilíbrios regionais de poder.
No caso dos Estados Unidos, esses instrumentos têm sido utilizados de forma recorrente ao longo das últimas décadas como parte de uma estratégia mais ampla de gestão da ordem internacional. Embora frequentemente apresentados como respostas a violações de normas internacionais ou ameaças à estabilidade global, tais mecanismos também refletem preocupações relacionadas à preservação da segurança nacional e à manutenção da influência estratégica norte-americana em diferentes regiões do mundo.
A mudança de regime representa uma das formas mais intensas de interferência na política interna de outro Estado. Esse tipo de estratégia envolve esforços destinados a substituir governos considerados hostis ou incompatíveis com determinados interesses estratégicos. Historicamente, tais iniciativas podem assumir diferentes formas, incluindo apoio a grupos opositores, operações clandestinas, pressões diplomáticas intensificadas ou, em casos extremos, intervenções militares diretas. O objetivo fundamental dessas ações consiste em alterar a estrutura de poder de um país de modo a produzir um governo mais alinhado aos interesses ou às expectativas da potência interveniente.
Diversos episódios históricos ilustram a aplicação dessa estratégia na política internacional contemporânea. Intervenções que resultaram na deposição ou enfraquecimento de governos estrangeiros foram frequentemente justificadas em termos de promoção da democracia, defesa da estabilidade regional ou proteção contra ameaças à segurança internacional. Contudo, análises acadêmicas indicam que tais intervenções frequentemente também respondem a objetivos estratégicos mais amplos, relacionados à redistribuição de poder regional, ao controle de recursos estratégicos ou à contenção de adversários geopolíticos .
Em contraste com intervenções diretas, as sanções econômicas representam uma forma de coerção internacional considerada menos custosa do ponto de vista militar. Sanções podem incluir medidas como embargos comerciais, restrições financeiras, congelamento de ativos, proibição de investimentos ou limitações ao acesso a sistemas financeiros internacionais. O objetivo dessas medidas consiste em gerar custos econômicos e políticos suficientemente elevados para pressionar governos alvo a modificar suas políticas internas ou externas.
Defensores desse instrumento frequentemente argumentam que sanções constituem alternativa mais moderada ao uso da força, permitindo exercer pressão política sem recorrer diretamente à intervenção militar. Entretanto, a eficácia das sanções permanece objeto de intenso debate acadêmico. Estudos empíricos indicam que seu impacto depende de uma série de fatores, incluindo a resiliência econômica do país alvo, o grau de apoio internacional às medidas e a existência de parceiros comerciais alternativos capazes de reduzir os efeitos do isolamento econômico .
Além disso, sanções frequentemente produzem consequências sociais complexas, afetando não apenas as elites governantes, mas também amplos segmentos da população civil. Esse aspecto levanta questionamentos importantes sobre a relação entre os objetivos normativos frequentemente invocados para justificar essas medidas e seus impactos reais sobre as sociedades afetadas.
Outro elemento relevante na análise dessas ferramentas de política externa é sua aplicação seletiva. Estados que apresentam características políticas semelhantes nem sempre enfrentam respostas internacionais equivalentes. Em alguns casos, governos autoritários são alvo de fortes pressões diplomáticas e sanções econômicas; em outros, regimes com características semelhantes mantêm relações estreitas com potências ocidentais devido à sua relevância estratégica. Essa seletividade reforça a interpretação de que decisões de política externa são frequentemente moldadas por cálculos estratégicos mais amplos, e não apenas por compromissos normativos abstratos.
Assim, tanto sanções quanto estratégias de mudança de regime podem ser compreendidas como instrumentos inseridos em uma lógica mais ampla de gestão do poder internacional. Embora frequentemente acompanhadas por narrativas que enfatizam valores democráticos ou preocupações humanitárias, essas ferramentas também refletem a busca contínua por segurança, influência e estabilidade estratégica no sistema internacional.
A análise desses instrumentos revela, portanto, a complexa interação entre interesses estratégicos e justificativas normativas na política externa das grandes potências. Compreender essa interação é fundamental para avaliar de forma crítica as narrativas frequentemente utilizadas para explicar intervenções externas e para distinguir entre os discursos mobilizados para legitimar determinadas ações e os interesses estruturais que efetivamente orientam as decisões de política internacional.
Considerações finais
A análise desenvolvida ao longo deste artigo procurou demonstrar que a política internacional dificilmente pode ser compreendida a partir de narrativas simplificadas sobre altruísmo estatal ou compromissos universais abstratos. A literatura de Relações Internacionais mostra de forma consistente que Estados formulam e executam suas políticas externas a partir de cálculos de interesse nacional, envolvendo segurança, estabilidade estratégica, prosperidade econômica e preservação de sua posição no sistema internacional. Nesse contexto, discursos sobre democracia, liberdade ou proteção humanitária frequentemente coexistem com, e muitas vezes são subordinados a, objetivos estratégicos mais amplos.
Isso não significa negar a importância dos valores normativos na política internacional. Democracia, direitos humanos e cooperação internacional constituem elementos relevantes da ordem global contemporânea. Entretanto, a prática da política externa das grandes potências demonstra que esses princípios raramente operam de maneira isolada. Na maioria das situações, eles são mobilizados dentro de estratégias políticas que buscam proteger interesses nacionais e ampliar margens de poder e influência no sistema internacional.
Essa dinâmica não se aplica exclusivamente a um país específico. Nenhuma grande potência atua no sistema internacional como agente altruísta da salvação de outros povos. Os Estados Unidos, a China, a Rússia, a França ou qualquer outra potência estruturam sua política externa de acordo com suas prioridades estratégicas e seus interesses nacionais. Em determinadas circunstâncias, esses interesses podem coincidir com demandas normativas ou humanitárias; em outras, podem ignorá-las ou reinterpretá-las de acordo com necessidades políticas específicas. Em qualquer caso, o comportamento internacional das potências permanece condicionado pela lógica do poder e pela busca de estabilidade estratégica.
Essa constatação possui implicações importantes para países que ocupam posições intermediárias ou periféricas no sistema internacional. A crença de que potências externas agirão como garantidoras permanentes de liberdade, estabilidade ou prosperidade tende a produzir leituras equivocadas da política internacional. Ao longo da história, Estados que dependeram excessivamente da tutela de potências externas frequentemente descobriram que alianças internacionais são condicionadas por interesses variáveis, e não por compromissos permanentes.
Para países como o Brasil, essa realidade impõe a necessidade de desenvolver uma política externa e uma estratégia nacional baseadas em capacidade própria, autonomia decisória e clareza de objetivos estratégicos. Isso envolve fortalecer instituições estatais, investir em capacidades econômicas, tecnológicas e militares, ampliar a capacidade diplomática e construir redes de cooperação internacional que ampliem margens de manobra, sem comprometer a autonomia estratégica do país.
Em um sistema internacional marcado por competição crescente entre grandes potências, a construção de segurança e prosperidade nacionais depende menos da expectativa de proteção externa e mais da capacidade interna de formular estratégias consistentes de inserção internacional. Estados que conseguem identificar com clareza seus interesses nacionais, estruturar políticas públicas coerentes e negociar de forma pragmática no ambiente internacional tendem a ampliar sua autonomia e sua capacidade de influência.
Nesse sentido, uma das principais lições da análise desenvolvida neste artigo é a necessidade de abordar a política internacional com realismo analítico e cautela estratégica. Discursos grandiosos sobre defesa da democracia, proteção da liberdade ou missão civilizatória frequentemente fazem parte da retórica política internacional, mas não devem ser confundidos automaticamente com as motivações reais que orientam decisões estratégicas de política externa.
Para Estados que buscam consolidar sua posição no sistema internacional, a principal tarefa não consiste em esperar intervenções salvadoras ou garantias externas permanentes, mas sim em construir as bases internas de sua própria segurança, capacidade de negociação e autonomia estratégica. Em última instância, a política internacional continua sendo um campo no qual poder, interesses e estratégia desempenham papel decisivo.
Assim, compreender a lógica do interesse nacional e da política de poder não significa adotar uma visão cínica ou pessimista da ordem internacional. Significa, antes, reconhecer as condições reais sob as quais os Estados operam e formular estratégias capazes de proteger interesses nacionais em um ambiente internacional competitivo e frequentemente incerto. Somente a partir dessa compreensão torna-se possível evitar ilusões analíticas e construir políticas externas mais consistentes, capazes de equilibrar cooperação internacional, defesa de valores e proteção de interesses estratégicos nacionais.
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Analista de Relações Internacionais, organizador do Congresso de Relações Internacionais e editor da Revista Relações Exteriores. Professor, Palestrante e Empreendedor. Contato profissional: guilherme.bueno(a)esri.net.br
