A ascensão da China é, possivelmente, o fenômeno mais relevante da política internacional no século XXI. Em poucas décadas, o país passou de economia periférica a segunda maior economia do mundo, ampliou significativamente suas capacidades tecnológicas e militares e se consolidou como ator central em cadeias globais de valor, instituições multilaterais e agendas estratégicas. Diante desse movimento, parte expressiva da literatura em Relações Internacionais recorreu a um diagnóstico recorrente: grandes potências em ascensão inevitavelmente entram em confronto com a potência dominante (Mearsheimer, 2001; Allison, 2017).
Sumário
Essa leitura, fortemente ancorada no realismo estrutural, sugere que a rivalidade entre China e Estados Unidos seria apenas uma questão de tempo. No entanto, ao longo das últimas duas décadas, o comportamento chinês tem tensionado essa expectativa. Apesar do fortalecimento de suas capacidades materiais e do aumento da rivalidade estratégica com Washington, Pequim tem evitado sistematicamente o confronto militar direto, optando por estratégias de integração econômica, atuação institucional, gestão cuidadosa das relações entre grandes potências e controle da escalada.
O paradoxo que emerge é central para a compreensão da ordem internacional contemporânea: a China quer poder, status e autonomia, mas não busca esse poder por meio do confronto direto. Este artigo argumenta que essa postura não decorre de idealismo ou fraqueza, mas de uma estratégia racional e teoricamente informada, que combina cálculo estrutural, concepções alternativas de poder e uma leitura de longo prazo da ordem internacional. Mais do que um caso empírico, a China se tornou um teste crítico para as teorias de Relações Internacionais.
1. A armadilha analítica do realismo e a expectativa do conflito
O realismo parte de pressupostos conhecidos: o sistema internacional é anárquico, os Estados buscam segurança e o poder material é o principal meio para garanti-la (Waltz, 1979). Em contextos de transição de poder, essas dinâmicas tendem a se intensificar. O realismo ofensivo sustenta que potências em ascensão buscam maximizar poder e reduzir vulnerabilidades, tornando o conflito provável ou inevitável (Mearsheimer, 2001).
A popularização da Armadilha de Tucídides reforçou essa leitura ao sugerir que o medo da potência dominante diante da ascensão de um rival gera uma espiral de desconfiança e escalada (Allison, 2017). Aplicada ao caso sino-americano, essa abordagem passou a estruturar a narrativa da “nova Guerra Fria”, na qual contenção, desacoplamento e competição militar aparecem como respostas quase automáticas do sistema.
O problema dessa interpretação está menos em reconhecer a competição do que em transformar tendências históricas em determinismos teóricos. Ao assumir que toda potência ascendente buscará hegemonia pela força, o realismo projeta sobre a China trajetórias típicas da experiência ocidental, ignorando contextos históricos, identitários e estratégicos específicos. Além disso, a analogia com a Guerra Fria ignora diferenças fundamentais: interdependência econômica profunda, ausência de competição ideológica total e multiplicidade de arenas de disputa.
Ao reduzir a ascensão chinesa a uma lógica binária de desafio e contenção, o realismo corre o risco de produzir uma profecia autorrealizável, reforçando dinâmicas de securitização que aumentam o risco de conflito que se pretende evitar.
2. A China quer poder, mas não nos termos clássicos
A estratégia chinesa não pode ser interpretada como acomodação passiva nem como simples aceitação da ordem internacional existente. Pequim busca, de forma clara e consistente, expandir sua influência global, garantir segurança estratégica e consolidar reconhecimento como grande potência. Desde o início do século XXI, a China ampliou de maneira expressiva seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento, fortaleceu sua presença em instituições internacionais e acelerou a modernização de suas forças armadas, com destaque para os domínios naval, cibernético e espacial.
O elemento distintivo dessa ascensão, contudo, não está na ausência de ambição, mas na forma como o poder é acumulado e exercido. Diferentemente do padrão clássico descrito pelas teorias realistas, a China não busca maximizar poder por meio da confrontação direta ou da ruptura imediata da ordem internacional. Sua expansão ocorre de maneira cuidadosamente calibrada, combinando instrumentos econômicos, diplomáticos, jurídicos e institucionais, enquanto o uso da força permanece deliberadamente como último recurso.
Mesmo em disputas sensíveis, como Taiwan, o Mar do Sul da China ou a rivalidade tecnológica com os Estados Unidos, Pequim tem privilegiado estratégias de pressão gradual, ambiguidade estratégica e gestão do risco. Essa postura não reflete hesitação, mas um cálculo estratégico central: um confronto militar direto colocaria em risco o principal ativo do projeto chinês, a continuidade do desenvolvimento econômico e da estabilidade doméstica (Chang, Zhang e Xue, 2021).
Nesse sentido, o poder não é concebido como fim em si mesmo, mas como instrumento para sustentar um projeto nacional de longo prazo, frequentemente associado ao objetivo de “rejuvenescimento nacional”. A China busca operar com vantagem dentro do sistema internacional, explorando suas brechas, normas e instituições, em vez de destruí-lo prematuramente por meio de uma confrontação aberta. O resultado é uma estratégia de ascensão que combina ambição estrutural com prudência estratégica, desafiando leituras que associam poder, de forma automática, à coerção militar.
3. Evitar o confronto como estratégia racional e gestão do tempo
A evitação do confronto direto constitui um dos pilares centrais da estratégia chinesa contemporânea. Longe de ser uma escolha circunstancial, trata-se de uma opção racional baseada em avaliação estrutural do sistema internacional. Apesar de sua ascensão acelerada, a China reconhece as vantagens ainda detidas pelos Estados Unidos em termos de projeção militar global, redes de alianças consolidadas e influência normativa. Um conflito sistêmico, nessas condições, imporia custos elevados e imprevisíveis.
Do ponto de vista chinês, um confronto militar direto teria efeitos profundamente desestabilizadores: interrupção de cadeias globais de suprimento, isolamento econômico, retração do crescimento e aumento de pressões internas. Esses custos atingiriam diretamente o núcleo do projeto estratégico chinês, que depende da manutenção de crescimento econômico, coesão social e estabilidade política. Evitar o confronto, portanto, não é sinal de fraqueza, mas condição necessária para a continuidade da ascensão.
Nesse contexto, a China passa a tratar o tempo como um recurso estratégico fundamental. Ganhar tempo não significa apenas adiar o conflito, mas utilizá-lo para consolidar capacidades tecnológicas, reduzir vulnerabilidades estruturais, aprofundar interdependências econômicas e ampliar margens de autonomia. Essa lógica explica a preferência chinesa por ambiguidade estratégica, respostas graduais e mecanismos de controle da escalada, que preservam flexibilidade e evitam pontos de não retorno.
Além disso, a autocontenção chinesa cumpre uma função sistêmica relevante: reduzir incentivos à formação de coalizões de contenção. Ao evitar comportamentos abertamente agressivos e rejeitar a imagem de potência revisionista beligerante, Pequim fragmenta respostas adversas e dificulta a construção de consensos anti-China entre aliados dos Estados Unidos. Essa estratégia amplia espaços de manobra diplomática mesmo em contextos de rivalidade intensa.
Dessa forma, evitar o confronto não significa renunciar à competição ou à defesa de interesses centrais, mas administrar a transição de poder de maneira controlada. A China busca maximizar ganhos estratégicos enquanto minimiza riscos sistêmicos, apostando em uma ascensão gradual que preserve estabilidade suficiente para que o próprio processo de transformação da ordem internacional ocorra sem ruptura violenta.
4. Poder como relação: o Balance of Relationship
A estratégia chinesa de buscar poder evitando o confronto direto está ancorada em uma concepção distinta do próprio significado do poder. Nesse ponto, a chamada Escola Chinesa de Relações Internacionais oferece uma contribuição teórica central ao propor o conceito de Balance of Relationship (BoR), em contraste com o tradicional Balance of Power (Qin, 2009; Li, 2022).
Enquanto o realismo clássico entende o poder principalmente como capacidade material (militar, econômica ou tecnológica) o Balance of Relationship parte da premissa de que o poder emerge das relações estruturadas entre os atores, e não apenas da distribuição de recursos. Estabilidade, previsibilidade e reconhecimento passam a ser componentes centrais da influência, sobretudo em contextos de transição de poder.
Essa abordagem não rejeita a competição nem ignora assimetrias materiais. Ao contrário, reconhece que grandes potências disputam espaço, status e influência, mas sustenta que a forma como essas disputas são conduzidas é tão relevante quanto os recursos envolvidos. O poder relacional permite ampliar influência sem provocar reações sistêmicas imediatas, reduzindo incentivos ao balanceamento externo agressivo.
No caso chinês, o Balance of Relationship oferece uma base teórica consistente para a estratégia de autocontenção seletiva. Ao priorizar relações estáveis, linguagem diplomática cuidadosa e sinais de previsibilidade, Pequim busca reduzir incertezas estratégicas e evitar dinâmicas de escalada automática. A autocontenção, nessa lógica, não representa perda de poder, mas investimento relacional de longo prazo, capaz de gerar maior margem de manobra estratégica no futuro.
Essa concepção ajuda a explicar por que a China atribui importância central a elementos frequentemente subestimados por leituras estritamente materialistas, como status, reconhecimento, fórmulas diplomáticas e rituais institucionais. Esses elementos funcionam como mecanismos de estabilização relacional, moldando expectativas e delimitando os limites da competição. O poder, assim, deixa de ser apenas capacidade de coerção e passa a ser entendido como capacidade de estruturar relações duráveis no sistema internacional.
Ao adotar o Balance of Relationship, a China não abandona a política de poder, mas a redefine. Em vez de buscar ganhos rápidos por meio da confrontação, aposta em uma estratégia cumulativa, na qual influência, legitimidade e estabilidade relacional ampliam gradualmente sua posição sistêmica. Essa lógica é particularmente funcional em um contexto de rivalidade prolongada com os Estados Unidos, no qual evitar rupturas abruptas é condição para a continuidade da ascensão chinesa.
5. Discurso, identidade e legitimidade como instrumentos de poder
A estratégia chinesa de evitar o confronto direto não se sustenta apenas em cálculos materiais ou concepções alternativas de poder; ela é também profundamente moldada por uma política consciente de discurso, identidade e legitimidade internacional. Nesse sentido, o discurso não deve ser interpretado como mera retórica ou propaganda, mas como instrumento estratégico de poder (Shih, 2005).
Desde o final dos anos 1990, Pequim demonstra preocupação constante com a forma como sua ascensão é percebida por outros Estados. A narrativa da “ameaça chinesa” é entendida como um risco estratégico em si, pois tende a acelerar políticas de contenção, reforçar alianças adversas e reduzir o espaço de manobra diplomática. Reduzir percepções de ameaça, portanto, torna-se parte integrante da estratégia de poder.
A transição discursiva de “ascensão pacífica” para “desenvolvimento pacífico” ilustra esse movimento. Ao abandonar uma linguagem associada à hierarquia e à competição direta, a China busca enquadrar seu crescimento como processo compatível com a estabilidade da ordem internacional. Esse deslocamento semântico não elimina conflitos de interesse, mas altera o enquadramento no qual eles são interpretados, diminuindo a legitimidade de respostas baseadas na contenção militar.
A construção de uma identidade de “potência responsável” cumpre função semelhante. Ao enfatizar multilateralismo, soberania e cooperação, a China procura se diferenciar de trajetórias históricas associadas a potências revisionistas agressivas. Essa estratégia identitária amplia sua legitimidade internacional e dificulta a consolidação de consensos anti-China, especialmente entre países do Sul Global e parceiros econômicos relevantes.
Além disso, o discurso opera como complemento direto da estratégia de gestão do tempo e da autocontenção. Ao projetar previsibilidade e responsabilidade, Pequim reduz pressões por respostas imediatas e ganha espaço para consolidar capacidades internas. O discurso, nesse sentido, atua como mecanismo de controle da escalada, moldando expectativas e limitando interpretações alarmistas de suas ações.
Portanto, identidade e discurso não são elementos periféricos da política externa chinesa, mas dimensões centrais de seu exercício de poder. Ao combinar autocontenção material com legitimação discursiva, a China busca ampliar sua influência sem acionar os gatilhos clássicos da confrontação sistêmica. Essa estratégia reforça a ideia de que o poder contemporâneo não se exerce apenas pela coerção, mas também pela capacidade de definir os termos nos quais a competição é interpretada e conduzida.
6. Tianxia, desenvolvimento pacífico e a lógica da ordem internacional
A dimensão normativa da estratégia chinesa de poder é frequentemente interpretada de forma equivocada, seja como mera retórica diplomática, seja como tentativa de impor um modelo civilizacional alternativo à ordem internacional existente. No entanto, conceitos como Tianxia e “desenvolvimento pacífico” devem ser compreendidos menos como projetos institucionais acabados e mais como referenciais estratégicos que orientam o comportamento chinês no sistema internacional (Yan, 2016; Li, 2022).
Diferentemente da tradição westfaliana, que concebe a ordem internacional como resultado da interação entre unidades soberanas em um ambiente estruturalmente anárquico, a lógica do Tianxia enfatiza a ideia de ordem relacional, na qual a estabilidade depende da capacidade dos atores centrais de exercer autocontenção e responsabilidade sistêmica. O conflito não é negado, mas sua escalada deve ser controlada para preservar o funcionamento do todo.
Essa concepção se articula diretamente ao discurso do desenvolvimento pacífico. Ao afirmar que grandes potências podem crescer sem recorrer à guerra, a China desafia a suposição realista de que a transição de poder leva inevitavelmente ao confronto. O desenvolvimento pacífico não implica harmonia ou ausência de competição, mas propõe uma forma específica de convivência regulada entre interesses conflitantes, próxima à noção de ordem defendida por Hedley Bull (Bull, 1977).
A ideia de uma “comunidade de futuro compartilhado para a humanidade” reforça esse enquadramento normativo. Ao destacar interdependência, cooperação e responsabilidade coletiva, a China procura deslocar o debate da rivalidade binária para uma lógica sistêmica mais ampla. Esse movimento não elimina hierarquias nem disputas de poder, mas busca restringir a legitimidade do confronto como instrumento primário de mudança da ordem.
Do ponto de vista estratégico, essa visão normativa cumpre uma função clara: reduzir os incentivos à securitização extrema da ascensão chinesa. Ao se apresentar como defensora da estabilidade da ordem, ainda que crítica a suas assimetrias, Pequim amplia espaço para contestação gradual e evita gatilhos que poderiam acelerar políticas de contenção militar.
Assim, Tianxia e desenvolvimento pacífico não devem ser lidos como idealismo ou alternativa institucional completa à ordem liberal, mas como elementos normativos que reforçam a estratégia chinesa de evitar o confronto sistêmico. A estabilidade da ordem internacional, nessa leitura, não é obstáculo à ascensão chinesa, mas condição para sua continuidade.
7. O que a China evita e o que não evita
A estratégia chinesa de autocontenção não equivale a pacifismo, resignação ou ausência de disposição para o conflito. Trata-se, antes, de uma autocontenção seletiva, cuidadosamente delimitada. Compreender a política externa chinesa exige distinguir claramente aquilo que Pequim busca evitar daquilo que está disposta a enfrentar, inclusive assumindo riscos significativos.
Em primeiro lugar, a China evita o confronto militar sistêmico, especialmente com os Estados Unidos. Pequim reconhece que uma guerra entre grandes potências teria efeitos devastadores para a economia global, para a estabilidade regional e para seu próprio projeto de desenvolvimento. Evitar esse cenário é prioridade estratégica, não concessão circunstancial.
A China também evita se apresentar como uma potência revisionista agressiva. Mesmo ao contestar normas, práticas e assimetrias da ordem internacional, Pequim tende a fazê-lo de forma gradual, institucional e discursiva. Esse comportamento reduz incentivos à formação de coalizões amplas de contenção e preserva margens de manobra diplomática, sobretudo em um sistema internacional fragmentado.
Por outro lado, a China não evita a defesa de seus interesses centrais. Questões de soberania, integridade territorial e estabilidade interna, como Taiwan, Xinjiang, Tibete e Hong Kong, são tratadas como não negociáveis. Nesses casos, Pequim sinaliza disposição para escalar custos e aceitar níveis elevados de tensão, ainda que busque controlar a escalada militar.
Além disso, a China não evita a competição estratégica. O investimento em capacidades militares, autonomia tecnológica, presença econômica global e influência normativa demonstra que Pequim aceita plenamente a lógica competitiva do sistema internacional. O que se evita não é a disputa, mas sua transformação prematura em guerra aberta.
Essa distinção é fundamental para compreender por que a estratégia chinesa desorganiza a narrativa da nova Guerra Fria. A China não busca substituir uma hegemonia por outra por meio do confronto direto, mas expandir poder enquanto administra riscos sistêmicos. Trata-se de uma lógica de maximização de ganhos sob restrições estruturais, na qual evitar a guerra é condição para continuar competindo.
Dessa forma, a política externa chinesa revela uma compreensão sofisticada das transições de poder: o conflito é possível, a competição é inevitável, mas a guerra sistêmica é um risco a ser adiado, controlado e, se possível, evitado. Essa estratégia reforça o argumento central deste artigo: a China quer poder, mas não o confronto e sabe como evitar ambos se confundirem.
Conclusão
A análise desenvolvida ao longo deste artigo sustenta um argumento central: a China quer poder, mas não o confronto direto e essa escolha é estratégica, racional e estrutural. Longe de representar acomodação passiva ou idealismo normativo, a evitação do confronto constitui um dos pilares do modo como Pequim compreende e exerce o poder no sistema internacional contemporâneo.
A ascensão chinesa desafia leituras realistas que associam, de forma quase automática, transições de poder à guerra. Embora a competição entre China e Estados Unidos seja real e crescente, o comportamento chinês não confirma a expectativa de escalada inevitável. Pelo contrário, Pequim tem demonstrado capacidade consistente de controlar a escalada, administrar ambiguidades e explorar instrumentos econômicos, diplomáticos, institucionais e discursivos como alternativas à confrontação militar direta.
Esse padrão não pode ser explicado apenas por assimetrias materiais ou por cálculos conjunturais. Ele está ancorado em uma concepção distinta de poder, na qual relações, legitimidade e estabilidade sistêmica ocupam papel central. A lógica do Balance of Relationship, a ênfase na autocontenção seletiva e a preocupação com reconhecimento internacional revelam uma estratégia que busca maximizar influência enquanto minimiza riscos sistêmicos. O poder, nessa leitura, não se resume à coerção, mas envolve a capacidade de moldar expectativas, definir limites da competição e preservar a funcionalidade da ordem internacional.
Ao mesmo tempo, este artigo mostra que evitar o confronto não significa evitar o conflito. A China aceita a competição estratégica, investe em capacidades militares e tecnológicas e está disposta a defender interesses centrais, inclusive assumindo custos elevados. A diferença está na forma e no ritmo: Pequim rejeita a guerra sistêmica como instrumento de ascensão e busca administrar a transição de poder de maneira gradual, controlada e cumulativa.
Essa estratégia desorganiza a narrativa da “nova Guerra Fria”. A rivalidade sino-americana não reproduz o modelo bipolar do século XX, marcado por blocos ideológicos rígidos e baixa interdependência. Insistir nessa analogia tende a obscurecer a complexidade da competição contemporânea e a reforçar dinâmicas de securitização que podem, paradoxalmente, tornar o confronto mais provável. A China não se apresenta como líder de um campo alternativo homogêneo, nem busca a ruptura imediata da ordem internacional; sua contestação é incremental, relacional e frequentemente indireta.
Do ponto de vista teórico, a ascensão chinesa expõe os limites das abordagens que privilegiam uma única lente analítica. Nenhuma teoria isolada é capaz de explicar plenamente o comportamento chinês. Compreender a China exige articular dimensões materiais, estratégicas, relacionais, discursivas e normativas, bem como reconhecer que o poder no século XXI opera por múltiplas vias simultaneamente.
Assim, mais do que um objeto empírico, a China se torna um teste crítico para as teorias de Relações Internacionais. Ignorar essa complexidade não apenas empobrece o debate acadêmico, mas também compromete diagnósticos estratégicos sobre a transformação da ordem internacional. Entender por que a China quer poder, mas evita o confronto, é fundamental para compreender não apenas o comportamento de Pequim, mas os próprios limites e possibilidades da política internacional em um sistema em transição.
Referências
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Analista de Relações Internacionais, organizador do Congresso de Relações Internacionais e editor da Revista Relações Exteriores. Professor, Palestrante e Empreendedor. Contato profissional: guilherme.bueno(a)esri.net.br
