O que é Conservadorismo – Roger Scruton (1980)

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Sobre o autor

Sir Roger Vernon Scruton (1944-2020) foi, sem dúvida nenhuma, um dos maiores nomes do conservadorismo contemporâneo e um dos pensadores mais influentes de seu tempo. Cavaleiro da Ordem do Império Britânico, professor universitário, ensaísta, conselheiro do governo britânico, crítico cultural, compositor de óperas e autor de mais de 50 livros, Scruton é um dos maiores gigantes da filosofia moderna.

Autor Roger Scruton
Roger Scruton | Fonte: Wikimedia Commons

Nascido em 27 de fevereiro de 1944 em Lincolnshire, Inglaterra, Scruton iniciou sua jornada acadêmica na Jesus College da Universidade de Cambridge. Inicialmente, ele planejava estudar ciências naturais, mas acabou mudando seu curso para filosofia no primeiro dia, a desgosto de seu pai. Em 1965, Scruton completou seus estudos de graduação; em 1967 obteve seu título de mestre; e em 1973 obteve o doutorado em filosofia pela Universidade de Cambridge.

Durante sua formação, Scruton passou um tempo no exterior. Chegou inclusive a lecionar na Universidade de Pau, na França. Durante o período em que ficou no país, o filósofo inglês testemunhou de perto os protestos estudantis de maio de 1968, movimento social este que começou com jovens insatisfeitos com o sistema educacional francês, e tomou proporções incalculáveis mobilizando milhões de pessoas. Segundo Scruton (2015), “a experiência tinha-me convencido, em primeiro lugar, de que eu era um conservador” (p. 27).

Entre os anos de 1971 e 1992, o filósofo inglês lecionaria na Birkbeck College. Inicialmente, como professor assistente até chegar ao cargo de professor titular na área de estética e filosofia. O período em Birkbeck College não fora nada fácil para Scruton. Conhecida, à época, como um grande reduto de pensadores de esquerda, Scruton costumava brincar que os únicos conservadores da universidade eram ele e a senhora que servia refeições no balcão da cantina (Scruton, 2015, p. 30).

Ao longo de sua carreira, Scruton lecionou filosofia em diversas universidades; escreveu numerosos livros, artigos e ensaios acerca da arte, filosofia, estética e o pensamento conservador, entre estes podemos destacar: Beleza (2013), Pensadores da Nova Esquerda (2014), O que é Conservadorismo (2015), As Vantagens do Pessimismo (2015), Uma Filosofia Política – Argumentos para o Conservadorismo (2017). O filósofo morreu em janeiro de 2020, aos 75 anos, após uma dura batalha contra um câncer.

O que é Conservadorismo

O livro de Roger Scruton O que é Conservadorismo (2015) foi talvez a obra de maior repercussão do pensador inglês. Inicialmente publicado em 1980, Scruton buscou em seu livro apresentar de modo claro e simples as ideias fundamentais que ele acreditava estarem na base da visão conservadora e, ao fazer isso, tentar mostrar a possibilidade de se concordar com tais abstrações (p. 35).

Em um panorama bastante geral, a obra de Roger Scruton se divide em três pilares principais: o tradicionalismo, o organicismo e o ceticismo. Inicialmente, o filósofo começa o livro descrevendo como ele enxerga a atitude conservadora. Neste ponto, Scruton já de início argumenta que ser conservador é diferente de ser liberal – embora a relação entre ambos seja praticamente simbiótica – ou reacionário, ser conservador é quase uma forma de estar no mundo.

Para o filósofo inglês, o conservadorismo nasce quando o indivíduo percebe que ele não é autossuficiente. Ao contrário do que argumentam os liberais clássicos, o indivíduo não é apenas mais um ser livre em meio a tantos outros. Para Scruton (2015), “o conservadorismo surge diretamente da sensação de pertencimento a alguma ordem social contínua e preexistente e da percepção de que esse fato é importantíssimo para determinar o que fazer” (p. 52).

Em outras palavras, tudo aquilo que somos ou possuímos hoje não veio do vazio absoluto; não surgiram de repente de forma espontânea. Para o filósofo inglês, tudo aquilo que nos torna próprios, como nossas roupas, nossas línguas, nossos costumes, nossas ideias e nossas tradições, são heranças que resistiram ao tempo cronológico e foram legadas por nossos antepassados, logo devemos respeito a tudo isso. O conservadorismo nasce da ideia de pertencimento a algo além de si próprio; nasce da ideia de lar.

Neste ponto, fica bastante evidente no livro a noção de tradicionalismo e organicismo proferida por Scruton, especialmente com relação às instituições. Para o autor, a sociedade não é uma tábula rasa, tudo aquilo que temos está interligado com sociedades passadas, especialmente as instituições que nos constituíram. Desde escolas, universidades, igrejas, hospitais, bibliotecas, tribunais, até núcleos familiares, tudo isso foi resultado de anos e anos de história. Segundo o autor,

As tradições que os conservadores defendem têm a relevância de uma história bem-sucedida – o que quer dizer que elas são o resto palpável de algo que prosperou e não o fato mais recente numa série de começos ineficazes. (…) Finalmente, elas apontam para algo durável, algo que sobrevive e dá sentido aos atos que delas surgem (Scruton, 2015, p. 89).

Scruton também aponta no livro para a existência de uma sabedoria prática coletiva e latente na sociedade. Esta se expressa por meio de tudo aquilo que nos foi legado e que transcende a nós. Neste sentido, percebe-se na linguagem de Scruton muito da influência do pensador conservador irlandês Edmund Burke (1729-1797), que via como fundamental a preservação desta sabedoria prática e do conhecimento científico adquirido ao longo do tempo, a fim de reformar a sociedade vigente e, assim, melhor garantir o futuro. Para um conservador, o indivíduo pode ser tolo, mas a espécie é sábia.

Destarte, Scruton também deixa claro a principal divergência entre um conservador e um reacionário, enquanto o segundo possui uma visão anti-moderna e idolatra o passado, o conservador enxerga a sociedade em toda a sua complexidade e aceita a necessidade de que sejam feitas reformas. Todavia, tais mudanças precisam ser lentas, bem pensadas e graduais. Para Scruton (2015) “o desejo de conservar é compatível com todos os tipos de mudança, desde que essa signifique continuidade” (p. 54).

Será com base nessa ideia de continuidade que Roger Scruton defenderá, por exemplo, a monarquia inglesa. Pois para o filósofo, a monarquia nos remete a ideia de perenidade e ligação entre todos os homens. Nas palavras do autor,

Não sendo eleito por voz popular, o monarca não pode ser compreendido simplesmente como representante dos interesses da geração atual. Ele ou ela nasce no posto e também o passa adiante para um sucessor definido legalmente. Se o monarca tem alguma voz sob qualquer condição, ela é entendida precisamente ao modo intergeracional, que é requerido pelo processo político. Os monarcas são, num sentido muito especial, a voz da história (Scruton, 2015, p. 110).

O filósofo inglês também diverge da ideia de contrato social defendida por liberais clássicos, como John Locke. Assim como defendia Burke, Scruton endossa uma visão mais complexa e abrangente do chamado contrato social. Segundo este, o contrato social não é algo composto somente por indivíduos livres e racionais. Faz-se necessário “reconhecermos que o contrato não inclui apenas os vivos, mas também os não nascidos e os mortos” (Scruton, 2015, p. 109).

À primeira vista, a ideia de fazer menção aos mortos pode soar demasiada estranha em tempos modernos – afinal estes já não estão entre nós – contudo esta traz consigo um valor intrínseco à ideia de contrato social promovida pelos conservadores. Segundo Scruton (2015),

Desde o início dos tempos, foi o respeito pelos mortos que formou a base das instituições. (…) O respeito pelos mortos proibia o uso arbitrário de seu legado e obrigava os administradores a promover propósitos que os fundadores e doadores aprovariam. Ao honrarem os mortos, os administradores vivos salvaguardavam os interesses de seus sucessores (p. 109-110).

Outro aspecto interessante no livro é a questão relativa aos direitos naturais. Scruton reconhece e defende que os indivíduos possuem sim seus direitos naturais, como o direito à liberdade, por exemplo. Todavia, este alega que os indivíduos não podem querer impor suas liberdades o tempo todo sobre as tradições e as instituições. Para o autor,

A liberdade sem instituições é cega: ela não consolida nem a continuidade social genuína nem a escolha individual genuína. Ela não significa mais que um aceno num vácuo moral. (…) para o conservador, o valor da liberdade individual não é absoluto, mas sujeito a outro valor mais elevado: a autoridade do governo existente (Scruton, 2015, p. 49-50).

Esta visão acerca da liberdade individual remete muito ao organicismo presente na obra de Scruton, em que este aponta para os perigos existentes no excesso de racionalidade. Para o autor, a sabedoria prática que permeia a sociedade – no caso dos ingleses o chamado common sense – não pode a todo momento ficar refém do excesso de racionalidade ou de teorias totalizantes.

Deve-se ter cuidado com esse oceano de teses presentes na modernidade, que buscam explicações ou enquadramentos teóricos para tudo. Desta feita, Scruton exemplifica seu argumento ao fazer uma forte defesa da Common Law, o direito consuetudinário inglês. Diferentemente do direito romano, a Common Law não tenta organizar tudo em formato de leis, mas tenta entender os costumes e a forma como se procede em tais situações, por via do estudo de casos.

Para o autor, nem todas as regras que permeiam a sociedade estão necessariamente escritas. Muitas vezes elas estão expressas na forma como a sociedade esta constituída. Assim como as instituições que nos foram legadas por nossos antepassados, nossos valores, conceitos, crenças e moral também são uma herança do passado. De acordo com Scruton (2015),

Essa essência será a verdadeira ‘constituição’ do Estado. Uma constituição, escrita ou não escrita, não é um corpo de leis. As leis que porventura estejam lá só podem ser interpretadas em termos de uma conjuntura de costumes, hábitos, convenções e certo ‘estilo’ que mostra como são feitas as coisas (p. 104-105).

Torna-se necessário entender a forma como Scruton utiliza o termo “constituição” nesse particular. O filósofo não faz referência à constituição como um sinônimo de regras escritas no arcabouço jurídico, mas no sentido Aristotélico da palavra, ou seja, a forma como a sociedade está constituída em sua essência.

Todo conservador é um cético a esse excesso de ideias e teses modernas, e busca sempre respeitar a noção particular dos indivíduos. Para Scruton, se um indivíduo ou um povo ao longo de sua trajetória desenvolve um bom senso, este deve ser respeitado. Para o conservador, a sabedoria prática que nos permeia advém dos costumes, hábitos e tradições e não de uma tese geral.

Neste sentido, Scruton aponta para o ceticismo como uma qualidade elementar para garantir a conservação e manutenção da própria sociedade, a fim de se blindar daquilo que ele mesmo chama de “o dilúvio da novidade”. O ceticismo vem como uma ferramenta valiosa para avaliar com especial discernimento as hamartias sociais que, de fato, precisam ser revisadas e aprimoradas àquilo que é precioso e não deve ser levianamente descartado.

Considerações finais

Roger Scruton é um autor absolutamente surpreendente – do tipo que você vai se ver brigando com ele várias vezes ao longo da leitura. De início, Roger Scruton pode parecer um pouco controverso e até difícil de se defender, especialmente nos tempos atuais em que diversas discussões sociais importantes emergem a todo momento. 

Entretanto, por mais desafiador que possa ser ler um autor como Scruton, esta acaba sendo uma leitura necessária, especialmente para se romper com certos preconceitos em relação ao conservadorismo. Nos tempos atuais, a percepção geral do que vem a ser o pensamento conservador tornou-se alvo de muita caricatura, seja na academia seja no debate público. Especialmente em decorrência da ascensão de líderes e partidos de extrema-direita ao redor do mundo com agendas opressoras e reacionárias.

No entanto, ao mergulhar na literatura deste grande gênio da raça, provavelmente encontrar-se-á argumentos valiosos que o farão refletir sobre tais questões. Afinal, será que a única forma de se haver mudança é abandonando tudo aquilo que outrora se construiu? Seria possível, ao invés de destituir governantes e sistemas vigentes pela força, pensar em reformas democráticas pontuais em prol de sanar crises sociais? Ao invés de explicar tudo por meio de teses totalizantes tentar analisar caso a caso a fim de preservar aquilo que nos é positivo, e aprimorar aquilo que precisa ser melhorado? Será possível ser um conservador em tempos tão incertos; em que tudo aquilo que é sólido se desmancha no ar?

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Sobre o Autor

Mestre em Relações Internacionais pela Universidade da Beira Interior em Portugal; Licenciado em Letras - Português e Inglês pela Faculdade São Bernardo do Campo.

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