Eric Hobsbawm e a revolução no ensino da história – 9 de junho de 1917

Túmulo do historiador Eric Hobsbawm no cemitério Highgate East em Londres, 2016 | Fonte: Wikimedia Commons
Imagem do túmulo de Eric Hobsbawm

Nascido na cidade de Alexandria, Sultanato do Egito (na época, um protetorado britânico), no dia 9 de junho de 1917, Eric Hobsbawm foi um historiador que revolucionou a História enquanto disciplina. Combinando um singular talento literário com uma aprofundada pesquisa histórica, somada a uma sólida perspectiva marxista, ele foi considerado um dos mais importantes historiadores a se debruçar na história mundial. Entre suas obras, destaca-se sua trilogia sobre o que ele chamou de “longo século XIX”, composta pelos seguintes livros: “A Era das Revoluções: Europa 1789–1848”, “A Era do Capital: 1848–1875” e “A Era dos Impérios: 1875–1914”.

Uma breve biografia de uma acadêmico revolucionário

Quando morreu aos 95 anos no dia 1° de outubro de 2012, o cidadão britânico Eric Hobsbawm já era há um bom tempo o historiador mais conhecido e lido do planeta, conforme aponta Richard Evans em sua biografia do autor marxista. O seu falecimento foi notícia em diversidade de grandes veículos de notícia no Brasil: G1, BBC Brasil, Veja, Terra, Folha de São Paulo – não era pra menos, afinal, o autor é um dos principais historiadores estudados, não só nas graduações de História pelas universidades públicas e privadas do país, mas também em uma diversidade de outros cursos, como Relações Internacionais e Direito.

Em virtude do seu nascimento, em Alexandria, ter sido durante o breve período de ocupação britânica do Egito através do Sultanato ali instaurado de 1914 até 1922,  a sua vida já começa no contexto de um dos temas que o historiador mais discutiu em suas obras: o imperialismo e os seus efeitos no mundo, em especial o alcance e o grau de influência na história global do Império Britânico. Graças à nacionalidade do seu pai, Hobsbawm obteve a cidadania britânica, se mudando da Alemanha para Londres no período em que o partido Nazista ascendia ao poder em territórios germânicos. Na Inglaterra, Eric começaria a sua jornada tanto como acadêmico de História, com o início dos seus estudos no King’s College de Cambridge em 1936, quanto como marxista, adentrando no Partido Comunista da Grã‑Bretanha através do Clube Socialista da Universidade de Cambridge.

Sua primeira grande obra, “A Era das Revoluções: Europa 1789–1848”, viria no ano de 1962, após passar boa parte dos anos 1950 em Paris, em contato direto com a escola dos Annales, movimento historiográfico que fundiu a metodologia das Ciências Sociais com a História. O seu indistinguível modo marxista de interpretação já era evidente nesse trabalho, se tornando recurso fundamental para a compreensão histórica empreendida por Hobsbawm.

O foco que dava em seus textos aos grupos marginalizados, que eram tradicionalmente vistos pela História como movimentos populares irracionais e desprovidos de unidade, expressou um potente grau de racionalidade nas revoltas desses grupos contra as mudanças promovidas pelo capitalismo em seus modos de vida. Conceitos como as noções de “crise geral do século XVII”, “declínio do padrão de vida na Revolução Industrial”, “banditismo social”, “a invenção da tradição” e “o longo século XIX” se tornaram noções basilares da historiografia moderna, se tornando fonte de inspirações e discussões dentro da disciplina. Sua morte em 2012 foi, portanto, um adeus a uma figura que deixou seu legado não só na História, mas também para a História.

As principais obras de Eric Hobsbawm

O primeiro grande livro de Eric Hobsbawm foi “A Era das Revoluções: Europa 1789–1848”, publicado em 1962. Nele, o historiador apresenta a sua tese sobre o caráter dual das Revoluções Industrial e Francesa. Através da exposição e conexão de fatos históricos pertencentes a esses dois momentos revolucionários, o autor salienta como ambas revoluções tiveram a função de dar nascimento à modernidade – especialmente à modernidade europeia. Se de um lado a Revolução Francesa, inspirada pelos ideais do Iluminismo, espalhou as noções de democracia, nacionalismo e liberalismo pelo continente europeu, de outro, os novos avanços tecnológicos trazidos pela Revolução Industrial – como a máquina de fiar e os motores a vapor – ofereceram o ambiente e os aparatos materiais para que tal difusão ideológica ocorresse.

A consolidação da balança de poder entre as grandes potências europeias durante o Congresso de Viena nos anos de 1814 e 1815 marcam o surgimento de uma tendência reacionária que buscava combater a propagação dupla do nacionalismo e do liberalismo nas rédeas da Revolução Industrial. Foi com esse arranjo macro de leitura da história que Hobsbawm foi capaz de vislumbrar o que aconteceria depois na Europa e no resto do mundo; assim surgem os livros que dão continuação à saga, sendo eles “A Era do Capital: 1848–1875”, publicado em 1975, e “A Era dos Impérios: 1875–1914”, publicado em 1987.

Em “A Era do Capital: 1848–1875”, o autor se desdobra sobre a ascensão e consolidação do capitalismo enquanto sistema dominante a níveis nacionais e internacionais, juntamente com uma paralela estabilização de uma cultura burguesa que reforça e adapta continuamenteo capitalismo a quaisquer sinais de oposição. É aqui que o seu trabalho de traçar as origens da cultura moderna, centrada e controlada pelo capitalismo, toma forma, numa experiência histórico-literária engajante.

Já em “A Era dos Impérios: 1875–1914”, Eric Hobsbawm destaca o fenômeno do imperialismo, expondo suas raízes intrínsecas ao processo de expansão do capitalismo, juntamente com as contradições que marcaram essa era, expressas na interação paradoxal entre o otimismo da Belle Époque e os incessantes investimentos na indústria militar por partes de todos os grandes países europeus. Essa interação teve em seu cúmulo o inevitável fim do longo século XIX: a Primeira Guerra Mundial.

Valem ser mencionados também os livros “Era dos Extremos: o breve século XX, 1914–1991” (1994), que concatena com precisão os desenvolvimentos expostos na trilogia anterior com a história acelerada que caracteriza o século XX; e “A Invenção das Tradições” (1983), que investiga como muitas supostas tradições são, na verdade, práticas inventadas ou introduzidas na sociedade em um passado recente.

Os principais conceitos desenvolvidos por Eric Hobsbawm

A ideia de uma crise geral do século XVII foi desenvolvida pelo autor em seu artigo “The Crisis of the Seventeenth Century” publicado 1954. Nele, Eric Hobsbawm explica como uma série de fatores econômicos causaram sérias turbulências sociais que se espalharam pela Europa feudal. Tal tese gerou uma intensa captura de atenções acadêmicas devido às implicações que teria para o subsequente surgimento do capitalismo, o desenvolvimento do Estado moderno, a história das revoltas e das rebeliões, o crescimento populacional, a história dos preços e a questão do desenvolvimento desigual – todos esses temas sendo impactados por tal abordagem desse período histórico.

Outro conceito importante que Hobsbawm criou e que impactou uma geração de acadêmicos foi a noção de banditismo social, que foi caracterizado pelo autor como uma forma primitiva da luta de classes marxista, acontecendo, geralmente, em sociedades pré-industriais. Com essa conexão entre a luta de classes iminente ao capitalismo exposta por Marx e as sociedades pré-capitalistas, Hobsbawm elevou o marxismo a um nível de abrangência que não tinha anteriormente, efetivamente tornando-o uma corrente histórica amplamente respeitada dentro da academia da disciplina.

Hobsbawm e as Relações Internacionais

Ao destacar o imperialismo como elemento essencial para a compreensão dos desdobramentos da última metade do século XIX e o início do século XX, Eric Hobsbawm emitia um parecer a respeito da política internacional, ainda que ancorado na sua metodologia histórica, informada pelo seu aparato conceitual marxista. Sua contribuição para as Relações Internacionais é, no entanto, muito mais ampla do que a mera ênfase num conceito eminentemente internacional: ele foi capaz de enxergar a história através de um processo relacional que muito serviu ao entendimento do crescimento e da expansão do sistema e da sociedade internacional.

Outra contribuição de imenso valor do autor para as Relações Internacionais foi a sua análise do nacionalismo através de uma perspectiva histórica, situando tal noção dentro da sua crítica mais ampla das tradições inventadas, colocando em cheque a difusão de mitos nacionais que se colocam como resgatadores de tempos imemoriais de uma determinada civilização. Para Eric Hobsbawm, o nacionalismo é o elemento central das políticas de identidade no sistema internacional, ressaltando e prevendo o embate entre estados-nações e as forças da globalização, dentre elas organizações internacionais como as Nações Unidas. No fim das contas, o historiador promoveu uma série de reflexões a respeito da tendência de enfraquecimento da noção de nação frente a um mundo cada vez mais interligado.

Por fim, o autor sempre enfatizou que o papel de um historiador nunca é o de promover profecias, mas sim de permitir uma compreensão robusta do passado com as ferramentas do presente. Através dessa reflexão sobre a utilidade da perspectiva histórica informada por uma gama de conceitos como aqueles providenciados pelo marxismo, fica a lição para os internacionalistas: através da História, pode-se compreender o passado, agir no presente e moldar – na medida do possível – o futuro.

Referências bibliográficas:

EVANS, Richard J. Eric Hobsbawm: a life in history. New York: Oxford University Press, 2019.

HOBSBAWM, Eric J. A era do capital: 1848 – 1875. São Paulo: Paz & Terra, 2012.

HOBSBAWM, Eric J. A era dos impérios: 1875 – 1914. São Paulo: Paz & Terra, 2012.

HOBSBAWM, Eric J. A era das revoluções: 1789-1848. São Paulo: Paz & Terra, 2012.

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Sobre o Autor

Graduando em Relações Internacionais no Centro Universitário Jorge Amado (Salvador/BA). Faz análises que misturam cinema, cultura pop e literatura com as Relações Internacionais em: instagram.com/raffzvieira.

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