Formação do Exército de Libertação Nacional da Colômbia – 7 de janeiro de 1964 – este dia na história

Membros da ELN em seu acampamento no estado de Chocó, Colômbia | Luis Robayo/AFP
Formação do Exército de Libertação Nacional da Colômbia - 7 de janeiro de 1964 - este dia na história 1

Há mais de 50 anos era criado na Colômbia o Exército de Libertação Nacional da Colômbia (ELN), “a última guerrilha ativa da América Latina”. Sua criação foi inspirada na Revolução Cubana (1953-1959) e se originou a partir de uma insurreição camponesa de 1964. Fundada pelo teólogo e padre Camilo Torres, o ELN mistura marxismo, cristianismo e nacionalismo na sua ideologia, e se intitula como “porta-voz da população rural oprimida”.

Contexto histórico

Para fazer uma análise acerca do surgimento da ELN, é necessário entender o que estava acontecendo na Colômbia. Em 1947, o Estado estava à beira de uma violência partidária. Em Boyacá, um dos 32 departamentos do país, em Caldas e no sul da Colômbia, a polícia chulavita, um tipo de polícia secreta do Partido Conservador causou a morte de um número alarmante de pessoas. Por conta disso, um clima perplexidade parou sobre o país.

Além da questão da violência, o aumento da miséria entre a população contribuiu para a instabilidade política e econômica do país. De acordo com o político e escritor Gerar Molina, as causas da miséria são antigas, mas seu agravamento se deve à instalação no Estado de um regime que concentrava as riquezas em poucas pessoas, o que causava uma enorme frustação social e uma grande miséria.

A instabilidade política estava presente, e ainda mais acentuada quando o político Jorge Eliécer Gaitán, principal nome do Partido Liberal Colombiano e importante político da época, fora excluído da delegação colombiana da IX Conferência Pan-Americana, que ocorreu em Bogotá. Na mesma conferência estava presente o general americano George Marshall, representando o seu país. Marshall tinha como proposta repreender de maneira mais firme as revoltas na América Latina. O que de fato foi o estopim para uma grande revolta no país foi o assassianto de Gaitán, que estava prestes a vencer as eleições contra o presidente do país à época, Mariano Ospina Pérez – membro do Partido Conservador, para governar o país de 1950 á 1954.

No fatídico dia, 9 de abril de 1948, diversas situações estavam acontecendo no país e fora dele. O presidente Ospina Pérez estava com o ex-Secretário de Estado dos Estados Unidos, George Marshall, também conhecido como caçador de comunistas, em uma conferência nos Estados Unidos da América. Enquanto isso, acontecia na periferia de Bogotá a 9ª Conferência Internacional dos Países Americanos, cujo debate era um plano de união dos países e a criação da Organização dos Estados Americanos (OEA).

A conferência na Colômbia foi vista como uma oportunidade para os militantes cubanos Fidel Castro e Rafael del Pino, que estavam de passagem pelo país, Eles marcaram uma reunião com o candidato Gaitán para discutir sobre a possível participação dele “como orador do Congresso Latino-Americano de Juventude”. Gaitán não era comunista, mas visava uma se aproximar da esquerda latino-americana e estimular a fraternidade com o liberalismo social no país. Dessa maneira, ele aceitou o convite dos militantes.

O que era para ser uma reunião proveitosa, nem chegou a acontecer. Gaitán passou o dia todo trabalhando em seu escritório, na periferia da capital. Quando saiu para se encontrar com Castro e Del Pino, um jovem armado o surpreendeu, atirando em sua cabeça e em seu peito. Apesar de ter sido levado ao hospital, ele não resistiu à gravidade dos ferimentos e faleceu.

A noticia de sua morte foi recebida com raiva e indignação pela sociedade, que viam Gaitán como um político “atento às necessidades populares e disposto a modernizar a Colômbia”. Dessa maneira, a população colombiana simpatizante do candidato tomou as ruas de Bogotá como uma forma de protesto. A rádio Estação Últimas Notícias, que publicou a notícia, acusou “o Partido Conservador e o governo como responsáveis pela conspiração contra o candidato” e convocou os apoiadores de Gaitán para tomar a capital enquanto a justiça não fosse feita. Este evento, que utilizou a violência contra a polícia e o aparato público, ficou conhecido como El Bogotazo.

Esse episódio foi marcado por ataques a prédios, jornais, entre outras coisas relacionadas ao partido conservador. A violência iniciada no centro de Bogotá foi disseminada para outros pontos da cidade. Os seguidores de Gaitán arquitetaram uma frente armada composta por camponeses, que foram massacrados pela polícia.

Apesar do passar do tempo, a figura de Gaitán não deixou de ser reivindicada na Colômbia
Carro incendiado durante o Bogotazo | Fonte: Archivo El Tiempo

A partir de 1949, ainda sob o impacto do assassinato de Gaitán, lavradores e militantes ligados ao Partido Comunista Colombiano (PCC) passaram a organizar guerrilhas no interior do país. Os liberais também partiram para a ação armada contra o governo (Memorial da democracia; 2015/2017).

Após um golpe de Estado em 1963, o general conservador Gustavo Rojas Pinilla ascendeu ao poder, passando a reprimir, junto ao Exército, as guerrilhas e, três anos mais tarde, tornando ilegal o Partido Comunista Colombiano (PCC). Em 1958, os conservadores e os liberais se aproximaram, criando a Frente Nacional, cujo objetivo a priori era organizar um governo que acabasse com a violência política. Contudo, “não foram bem-sucedidos: setores liberais, insatisfeitos com a posição oficial de seu partido, criaram o Movimento Revolucionário Liberal, que se aliou aos comunistas e lançaria candidatos nas eleições de 1960 e 1962 (Memorial da democracia; 2015/2017)”. No ano seguinte, após um aumento da repressão, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército de Liberação Nacional da Colômbia (ELN) foram criadas.

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército de Liberação Nacional da Colômbia (ELN)

Ambas as organizações lutavam contra o Estado colombiano, mas elas eram diferentes em vários aspectos. As Farc surgiram em uma rebelião de camponeses que se transformaram em uma organização marxista-leninista, cujo objetivo era uma reforma agrária. Já o ELN se inspirou na Revolução Cubana e na Teologia da Libertação, “uma corrente cristã latino-americana voltada para a defesa dos pobres, e tem influência em setores urbanos, principalmente estudantis e sindicais”. Ou seja, as Farc visam a questão agrária, e o ELN busca a participação na sociedade.

O número de combatentes também diverge entre os dois grupos. Enquanto o ELN possui aproximadamente 1.500 membros armados atuando em dez departamentos, o número de membros da Farc é quase cinco vezes maior, com cerca de 5.765 combatentes. Todavia, outra semelhança é que tanto as FARC quanto o ELN são financiados pelo narcotráfico, pelo sequestro e pela extorsão.

A atuação do ELN na Colômbia

Em combate com o Estado desde a década de 60, o Exército de Liberação Nacional da Colômbia encontra-se presente nos dois lados da fronteira com a Venezuela e na região do Pacífico. Antes do acordo de paz firmado entre o governo e as Farc, o ELN era considerado uma ameaça menor para o país. Contudo, após a negociação entre as Farc e o Estado ter sido firmada, em 2016, o ELN e grupos de narcotráfico se mobilizaram para tomar posse das áreas que antes eram ocupadas pelas Farc.

Ao contrário das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as negociações do ELN com o governo não vingaram, e foram paralisadas em 2019 com a ascensão de Iván Duque ao poder como presidente. Duque urgiu para que a organização parasse com as suas atividades terroristas, com os sequestros e que eles liberassem os reféns. Com a paralisação nas negociações, os ataques do grupo se acentuaram. De acordo o diretor de Análise de Risco da Colômbia em Bogotá, “eles estão tentando invadir o vácuo de poder que as FARC deixaram e aumentar sua relevância por meio do narcotráfico e ligações com o cartel de Sinaloa”.

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Sobre o Autor

Analista de Relações Internacionais. Editora assistente da Revista Relações Exteriores. Pós-graduanda em Comunicação e Jornalismo Digital. Pesquisadora do NEFRI.

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