200 anos de oligarquias: será Gustavo Petro capaz de enfrentar os partidos tradicionais na Colômbia?

Foto por Gustavo Petro Urrego via Flickr
Gustavo Petro, atual Presidente da Colômbia

19 de junho de 2022 ficará marcado na história da América do Sul como o dia em que a esquerda, finalmente, chegou ao poder na Colômbia. Com pouco mais de 50% dos votos válidos, Gustavo Petro, da coligação Pacto Histórico, derrotou seu oponente Rodolfo Hernández, da Liga de Gobernadores Anticorrupción.

À sua maneira, a Colômbia seguiu o clamor popular por cambio, que ecoou na América Latina nos últimos anos e que levou ao poder candidatos contrários a “tudo que está aí”. À direita ou à esquerda, venceram figuras como Macri, Bolsonaro e Lacalle Paul, rompendo com períodos de governos à esquerda, ou López Obrador, Boric e, agora, Petro, rompendo com eras protagonizadas pela direita.

Diante dessa mudança, o presente artigo analisa, a partir das peculiaridades da história da Colômbia, o significado da vitória de Petro e as resistências conservadoras que este deverá enfrentar para colocar suas ideias em prática.

Liberais versus Conservadores

Como todo país latino-americano do século XIX, a Colômbia se caracterizou pela luta intestina entre liberais e conservadores. A geografia complicada do país, marcada pela existência de três “braços” dos Andes que se abrem a partir das fronteiras com Equador e Peru, tornava essas lutas ainda mais dramáticas: a dificuldade logística contribuiu para a falta de unidade nacional e para um estado de belicosidade constante entre as oligarquias locais. Nas cidades e nos distritos, a política era caracterizada por lutas encarniçadas entre os dois partidos; os vencedores projetavam-se nacionalmente, em aliança com seus pares de outras localidades, reproduzindo a disputa belicosa por poder e influência em Bogotá. (LAROSA e MEJÍA, 2013)

O auge dessa contenda ocorreu na “Guerra dos Mil Dias”, entre 1899 e 1902, que destroçou o país com a proliferação de guerrilhas e um saldo aproximado de cem mil mortos. A fragilidade da Colômbia é causa central na perda do Panamá, em 1904, com apoio dos Estados Unidos aos separatistas, o que serviu de amarga lição para as consequências da falta de coesão política e social resultante da quase permanente guerra civil. Nas duas décadas seguintes, surgiu um período de trégua e crescimento econômico, puxado pelas importações dos Estados Unidos. Mas a crise de 1929 trouxe à tona a profunda desigualdade social do país, cujo símbolo havia sido o “massacre das bananeiras”, ocorrido um ano antes, quando forças oficiais invadiram um acampamento de trabalhadores em greve da companhia estadunidense United Fruit, matando cerca de quatro mil. Os anos 30 ficariam marcados pela ascensão de movimentos populares e ideias progressistas, já sob influência das organizações socialistas que começavam a atuar no país. (LAROSA e MEJÍA, 2013)

A primeira grande oportunidade de que um líder popular chegasse ao poder ocorreu em 1948, quando Jorge Elieser Gaitán, da ala esquerda do partido Liberal, estava prestes a vencer a eleição, com amplo apoio das massas. Ao melhor estilo Perón/Cárdenas/Vargas, o “caudilho do povo” trazia promessas de paz, prosperidade, inclusão social e do fim das escaramuças bipartidárias que marcavam o país. Mas um tiro de revolver, disparado em 9 de abril durante um comício em pleno centro de Bogotá, não apenas lhe tirou a vida, como deixou uma sensação de esperança frustrada no imaginário popular: “son muchos los que aún hoy, cincuenta años después de su muerte, consideran que ese “magnicidio” frustró indefinidamente las esperanzas de todos aquellos que veían en Gaitán la posibilidad de acceder a una sociedad realmente democrática, más justa, menos excluyente”. (ARIAS, 1998, p. 39)

À morte de Gaitan seguiu-se um período de anarquia, assassinatos e brutalidades de toda ordem, conhecido simplesmente por “La Violencia”. Hobsbawm (1986) o define como “una avalancha de sangre, porque la lucha armada entre liberales y conservadores llevaba entonces una carga adicional de odio social y de miedo”.

Esse período anárquico possibilitou, segundo Árias (1998), que as elites oligarquias reformulassem o aparato de violência do Estado. Ou seja, ao invés do triunfo de um líder ou rebelião popular, costurou-se um pacto oligárquico entre liberais e conservadores. Isso se deu através da criação da “Frente Nacional”, em 1958, que encerrou a fase de “La Violencia”. A Frente ganhou a fama de ser a “ditadura perfeita”, por consolidar um governo à direita, em Plena Guerra Fria, em um ambiente formalmente democrático.

A nova era de violência

O pacto de 1978, porém, outra vez deixou de fora as reivindicações populares, o que motivou o surgimento de um grupo dissidente, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que rumou para as selvas e deu início à luta armada. A partir de então, a guerrilha, que mais tarde se tornaria narco-guerrilha, serviu de catalisadora à manutenção do poder oligárquico, que se alimentava das atividades insurgentes para manter a coesão.

A nova era de violência, a partir dos anos 70, foi aos poucos tornando-se complexa, ou até confusa: às FARC se juntaram outros movimentos revolucionários, como Exército de Libertação Nacional, Exército Popular de Libertação e Movimento 19 de Abril (M19); para fazer-lhes frente, surgiram os Paramilitares, milícias financiadas por lideranças políticas e proprietários de terras que viam seu poder ameaçado pelas guerrilhas; mais próximos dos Paramilitares (ou seja, contra as guerrilhas), atuavam a Polícia e as Forças Armadas, com crescente apoio estadunidense; e para completar o caos, ganharam poder os carteis de drogas, sobretudo de Cali e Medellín, aquele sob o comando dos irmãos Orejuella, este do pop-star Pablo Escobar. (LaRosa e Mejía, 2013)

Nesse caos sistêmico que tomou conta da Colômbia, não havia espaço para mudanças políticas de cunho popular, muito menos pela esquerda: uma onda de violência contra políticos de oposição e militantes tomou conta do país, atingindo inclusive postulantes à presidência – Luiz Carlos Gallan, Bernardo Jaramillo Ossa e Carlos León-Gomes, todos declarando-se anti-establishment, foramassassinados entre 1989 e 90, no auge da nova violência. O resultado foi a manutenção de políticos de centro ou de direita, representante da velha ordem oligárquica, com discurso duro contra as guerrilhas e dócil à ajuda dos Estados Unidos. (DOS SANTOS, 2018). Chegou-se, assim, ao conservador Álvaro Uribe, eleito em 2002.

Do uribismo a Petro

Uribe, que afirma que seu pai foi morto pelas FARC –informação negada pelo grupo -, encarnou a filosofia do “guerrilheiro bom é guerrilheiro morto”. A estratégia de endurecimento foi facilitada pelo apoio financeiro e militar dos Estados Unidos, exercido através do “Plano Colômbia”, lançado nos anos 90, que injetou na Colômbia milhões de dólares, além de soldados e bases militares. Seu governo aumentou a pressão militar contra os grupos insurgentes e enfraqueceu as FARC, o que fez com que Uribe se consolidasse, no imaginário de grande parte do eleitorado colombiano, como o homem que apaziguou o país. (DOS SANTOS, 2018)

Seu sucessor, o centrista Juan Manoel Santos, apontou os excessos da política uribista – por exemplo, o escândalo dos “falsos positivos”, que consiste em jovens assassinados aos quais era atribuída falsamente a participação em guerrilhas – e comandou um processo de paz baseado no diálogo e na negociação. Nele, foi construída uma “justiça de transição”, incentivando-se a restauração judicial e admitindo-se o abrandamento de penas, além da transformação das FARC em partido político, com vagas reservadas no parlamento na primeira eleição. (DOS SANTOS, 2018)

A força de Uribe, no entanto, se fez valer nas eleições de 2018. Utilizando-se, dentre outros argumentos, da posição de contraponto ao “chavismo” venezuelano, diante do derretimento econômico do país vizinho, o candidato uribista Ivan Duque venceu as eleições repetindo o discurso linha-dura do seu mentor. Porém, a política de Duque – mais uma vez – apoiou-se na violência policial, além de propor uma polêmica reforma tributária que resultou em protestos nas ruas, apontada como pesada com a classe média, mas branda com os ricos. A contestada gestão de Duque pode ter sido o fim da linha do uribismo: o candidato oficialista Federico “Fico” Gutiérrez sequer chegou ao segundo turno em 2022.

A segunda vuelta colombiana teve a cara do desapontamento da população com os partidos tradicionais, ou mesmo do esgotamento destes. De um lado estava o vencedor Gustavo Petro, ex-membro do M19, que costurou uma aliança pela esquerda desde os anos 90. De outro, Rodolfo Hernandez, típico representante da antipolítica, com seu discurso “anticorrupção” de uma nota só. Durante a campanha, Petro fez promessas como transição para energias renováveis, reforma agrária e reforma no sistema de aposentadorias e pensões. Mas sua vitória carrega, sobretudo, a expectativa da transformação, por ser o primeiro presidente declaradamente de esquerda na história do país.

Considerações finais

Entre violências, acidentes geográficos e tragédias históricas; entre guerrilhas, paramilitares e traficantes; a oligarquia colombiana, de estampa liberal ou conservadora, por dois séculos seguiu se articulando e utilizando-se do inimigo interno para permanecer no poder. Mas o resultado das eleições de 2022 representam um desafio à sua hegemonia: a vitória de Petro e seu “Pacto Histórico” pode representar a retomada de um governo popular, abortado com a morte de Gaitan e evitado, entre pactos oligárquicos e assassinatos, ao longo de todo o século XX. Em um momento em que a política continental, aos poucos, reponta para a esquerda, Petro representa uma das viradas mais significativas.

Resta imaginar se o novo presidente será capaz de enfrentar as antigas castas que, desde a independência, habilmente se revezam no poder na Colômbia. Afinal, a história deste país demonstra que não se deve duvidar de que as estirpes oligárquicas sejam capazes de permanecer mais 200 anos no poder.

Referências

ARIAS, Ricardo. Los sucesos del 9 de abril de 1948 como legitimadores de la violencia oficial. Historia Crítica, n. 17, julio-diciembre, 1998, pp. 39-46.

DOS SANTOS, Fabio L. B. Uma história da onda progressista sul-americana (1998-2016). Editora Elefante, 2018.

HOBSBAWN, Eric. Colombia Asesina. New York Review of Books, Nov. 20, 1986.

LAROSA, Michael J.; MEJÍA, Germán R. Historia Concisa de Colombia (1810-2013): Una Guía Para Lectores Desprevenidos. Pontificia Universidad Javeriana, 2013.

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Sobre o Autor

Professor das áreas de Direito e Relações Internacionais na Universidade do Vale do Itajaí (Univali). Ênfase em estudos latino-americanos, experiência com consultoria jurídica na área pública. Mestre em Relações pela Universidade Federal de Santa Catarina. Especialista em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Paraná. Bacharel em Direito pela Universidade Regional de Blumenau.

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