A Groenlândia voltou ao centro do debate internacional não por iniciativa própria, mas por declarações que expõem uma mudança mais profunda na lógica da política global. Ao afirmar que os Estados Unidos “precisam” da ilha por razões de segurança nacional, Donald Trump reativou uma gramática clássica das relações internacionais: a ideia de que o poder pode redefinir fronteiras, relativizar soberanias e subordinar o direito à estratégia.
Trump replaces the word “want” with “need” as he sets his sights on Greenland next:
— Howard Beckett (@BeckettUnite) January 5, 2026
“We [USA 🇺🇸] NEED Greenland”
An out of control authoritarian, imperialistic Emperor who couldn’t give a toss for International law
The world must respond
Isolate 🇺🇸 now. pic.twitter.com/aJPOB8S1P6
O episódio não se resume a uma provocação retórica. Ele revela a convergência entre três dinâmicas centrais do mundo contemporâneo: a intensificação da disputa entre grandes potências, a crescente centralidade do Ártico na economia e na segurança globais, e a persistência de estruturas coloniais que continuam a moldar a posição de territórios periféricos no sistema internacional. A Groenlândia, nesse contexto, aparece menos como uma sociedade com história, população e instituições próprias, e mais como um espaço estratégico a ser disputado.
Essa forma de enquadramento não é neutra. Ao transformar a ilha em objeto de necessidade geopolítica, o discurso desloca o debate da autodeterminação para a coerção, da política para a segurança, da legalidade para a conveniência estratégica. Ignora-se, assim, tanto a relação histórica entre a Groenlândia e a Dinamarca quanto a posição dos próprios groenlandeses, majoritariamente contrários a qualquer forma de anexação.
Analisar o caso da Groenlândia, portanto, é ir além do episódio imediato. É compreender como a crise da ordem internacional baseada em regras abre espaço para a reemergência de práticas imperiais, agora justificadas por narrativas de segurança, tecnologia e competição sistêmica. O que está em jogo não é apenas o futuro de um território no Ártico, mas os limites, cada vez mais tensionados, entre poder, direito e soberania no século XXI.
1. Groenlândia no centro da disputa
As declarações recentes de Donald Trump, ao afirmar que os Estados Unidos “precisam da Groenlândia do ponto de vista da segurança nacional”, recolocam no centro do debate internacional uma lógica que muitos analistas consideravam mitigada no pós-Guerra Fria: a política do poder territorial direto. Não se trata apenas de retórica provocativa ou de um gesto isolado. O caso da Groenlândia revela como, em um contexto de crise da ordem internacional baseada em regras, narrativas de segurança voltam a operar como instrumentos de legitimação do expansionismo.
O argumento apresentado por Trump é, em essência, clássico. Território, localização estratégica e recursos naturais aparecem como fundamentos de uma necessidade objetiva do Estado. A Groenlândia, situada entre a América do Norte e a Eurásia, no coração do Ártico, passa a ser descrita não como uma sociedade com história, população e instituições próprias, mas como um ativo geopolítico. Essa transformação discursiva, de território habitado para espaço estratégico, é um dos mecanismos centrais do imperialismo, ontem como hoje.
Ao enquadrar a Groenlândia como questão de segurança dos Estados Unidos, o discurso ignora deliberadamente dois elementos fundamentais. Primeiro, o fato de que a ilha é um território autônomo ligado ao Dinamarca, membro da OTAN, já integrado à arquitetura de segurança ocidental. Segundo, a agência política dos próprios groenlandeses, cuja rejeição à anexação norte-americana é amplamente documentada. O apagamento desses fatores não é acidental: ele permite que a disputa seja apresentada como um tema técnico-militar, e não como uma questão política e jurídica.
Esse tipo de narrativa cumpre uma função estratégica clara. Ao deslocar o debate do campo do direito internacional para o da necessidade, o discurso cria um ambiente no qual a coerção passa a ser normalizada. A soberania deixa de ser tratada como princípio e passa a ser vista como obstáculo. Trata-se de uma lógica profundamente conhecida na história das relações internacionais, na qual o poder redefine os limites do aceitável antes mesmo de qualquer ação concreta.
Nesse sentido, a Groenlândia não é apenas um caso específico, mas um símbolo. Ela expõe como, em um sistema internacional cada vez mais tensionado, grandes potências voltam a testar os limites do discurso, do direito e da força. O que está em jogo, portanto, não é apenas o futuro da ilha, mas a consolidação de um precedente: o de que, sob o manto da segurança, antigas práticas imperiais podem ser reapresentadas como respostas legítimas a um mundo em transformação.
2. O que está em jogo no Ártico: minerais, rotas e presença militar
A centralidade da Groenlândia na política internacional contemporânea não decorre apenas de discursos políticos, mas de transformações materiais profundas em curso no Ártico. O avanço das mudanças climáticas, a transição energética e a intensificação da rivalidade entre grandes potências reconfiguraram a região de espaço periférico para fronteira estratégica da ordem internacional emergente. Nesse novo tabuleiro, a Groenlândia ocupa uma posição singular.
O primeiro eixo dessa disputa está nos recursos naturais. A ilha concentra reservas expressivas de minerais críticos, incluindo terras raras, urânio, níquel, cobalto e elementos essenciais para tecnologias de ponta, da indústria de defesa à transição energética. Em um contexto de competição tecnológica crescente, especialmente entre Estados Unidos e China, o controle das cadeias de suprimento desses minerais tornou-se um objetivo estratégico. A Groenlândia surge, assim, como uma alternativa potencial à dependência do mercado chinês de terras raras, o que explica o interesse persistente de Washington e a sensibilidade em relação a investimentos estrangeiros na ilha.
If the people of Greenland want to be part of America, which I hope they do, they would be most welcome! 🇺🇸 🇬🇱 https://t.co/lgzbVDpYOG
— Elon Musk (@elonmusk) January 7, 2025
O segundo eixo é geográfico e logístico. A Groenlândia está posicionada entre duas rotas marítimas cada vez mais relevantes: a Rota do Mar do Norte, ao longo da costa russa, e a Passagem do Noroeste, próxima ao Canadá. A perspectiva de abertura futura de uma rota transpólar, com o recuo do gelo ártico, amplia ainda mais o valor estratégico da região. O controle, a vigilância e a capacidade de projeção sobre essas rotas significam vantagem econômica e militar em um cenário de comércio e circulação global em transformação.
O terceiro eixo é militar. A presença dos Estados Unidos na ilha não é nova, mas ganhou densidade estratégica renovada. A base de Pituffik (antiga Thule Air Base) representa hoje o ponto mais ao norte da infraestrutura militar norte-americana. Integrada às capacidades de alerta antecipado de mísseis, monitoramento espacial e vigilância aérea, a base é peça-chave da arquitetura de defesa dos EUA e da OTAN. Mais do que um ativo operacional, ela funciona como símbolo da projeção de poder no Ártico e da tentativa de conter a expansão de rivais estratégicos.
Nesse contexto, a Groenlândia se insere em uma dinâmica mais ampla de militarização do Ártico, marcada pelo fortalecimento da presença russa, pelo interesse crescente chinês na região e pela resposta coordenada das potências ocidentais. O Ártico deixa de ser um espaço de cooperação científica marginal para se tornar uma zona de competição aberta, onde segurança, economia e tecnologia se entrelaçam.
Assim, quando a Groenlândia é apresentada como ‘necessária’ para a segurança norte-americana, o argumento se ancora em fatores reais, como recursos, rotas e infraestrutura militar, mas ignora deliberadamente a dimensão política e humana do território. O que está em jogo não é apenas a proteção de interesses estratégicos, mas a definição de quem decide sobre o futuro de um espaço que se tornou central na geopolítica do século XXI.
3. Groenlândia, Dinamarca e o peso do colonialismo
Para compreender plenamente a disputa em torno da Groenlândia, é necessário deslocar o olhar da geopolítica das grandes potências para a história política e social da ilha. A relação entre a Groenlândia e a Dinamarca não é apenas administrativa ou estratégica: ela é marcada por um longo legado colonial, cujos efeitos ainda moldam o debate sobre soberania, identidade e futuro político.
A Groenlândia esteve sob controle dinamarquês por séculos, inicialmente como colônia e, posteriormente, como parte integrante do reino. Apenas em 1979 o território conquistou o regime de home rule, ampliado em 2009 para um sistema de autogoverno que reconhece os groenlandeses como um povo com direito à autodeterminação segundo o direito internacional. Ainda assim, áreas centrais como defesa e política externa permanecem sob responsabilidade de Copenhague, revelando os limites práticos dessa autonomia.
Esse arranjo institucional convive com uma memória histórica marcada por assimetrias profundas. Políticas de assimilação cultural, intervenções sociais forçadas e episódios recentes, como o escândalo das esterilizações coercitivas de mulheres inuítes no século XX, alimentaram um sentimento persistente de injustiça histórica. Não se trata apenas de passado: essas experiências estruturam a forma como parte significativa da população percebe tanto a Dinamarca quanto os interesses externos que se projetam sobre a ilha.
Ao mesmo tempo, a Groenlândia vive uma tensão estrutural entre dependência econômica e aspiração política. O território recebe um subsídio anual significativo da Dinamarca, essencial para o funcionamento do Estado e para políticas públicas básicas. Essa dependência limita, na prática, o avanço rumo à independência plena, ao mesmo tempo em que reforça o desejo de construir uma base econômica própria, frequentemente associada à exploração de recursos naturais e à atração de investimentos estrangeiros.
É nesse ponto que a disputa geopolítica externa se cruza com o debate interno. Para muitos groenlandeses, o interesse de potências como os Estados Unidos ou a China não representa libertação, mas o risco de substituição de uma tutela por outra. A rejeição quase consensual à ideia de anexação norte-americana expressa justamente esse receio: a de que a Groenlândia continue sendo tratada como objeto estratégico, e não como sujeito político.
Nesse contexto, discursos externos que falam em compra, controle ou necessidade da Groenlândia ressoam de forma particularmente sensível. Eles reativam imaginários coloniais e reforçam a percepção de que decisões fundamentais sobre o território são discutidas fora dele. Ao invés de enfraquecer o movimento independentista, tais discursos tendem a fortalecê-lo, ao evidenciar que a autonomia groenlandesa permanece condicionada à lógica de poder das grandes potências.
Assim, a questão central não é apenas se a Groenlândia permanecerá ligada à Dinamarca ou se avançará rumo à independência, mas em que termos esse processo ocorrerá. O debate sobre soberania, nesse caso, não pode ser dissociado do legado colonial, das desigualdades estruturais e da pressão geopolítica externa. Ignorar esses elementos é reproduzir, sob novas formas, uma velha lógica imperial.
4. A face contemporânea do imperialismo: coerção, poder e precedentes
O caso da Groenlândia revela, com clareza incômoda, como o imperialismo não desapareceu da política internacional: ele apenas se transformou. No lugar da ocupação formal e da anexação direta, emergem hoje estratégias discursivas, pressões diplomáticas, econômicas e simbólicas que reativam lógicas imperiais sob novas roupagens. A retórica da necessidade e da segurança funciona como elemento central desse processo.
Ao afirmar que os Estados Unidos precisam da Groenlândia, o discurso desloca o debate da esfera do direito internacional para a do poder. A soberania deixa de ser um princípio inviolável e passa a ser condicionada aocálculo estratégico das grandes potências. Trata-se de um movimento recorrente em momentos de transição sistêmica, quando regras são relativizadas e precedentes são testados antes de serem consolidados.
SOON pic.twitter.com/XU6VmZxph3
— Katie Miller (@KatieMiller) January 3, 2026
Esse padrão não se limita ao Ártico. Ele dialoga com uma tendência mais ampla de normalização da coerção como instrumento legítimo da política internacional. A diferença central é que, no caso da Groenlândia, essa coerção se manifesta inicialmente no plano simbólico: mapas, declarações, insinuações e gestos políticos que ampliam a janela do aceitável. A força não precisa ser usada para produzir efeitos; basta que sua possibilidade seja publicamente enunciada.
O impacto mais profundo desse tipo de postura está na criação de precedentes. Se uma grande potência pode questionar abertamente o status de um território autônomo, integrante de um Estado soberano e inserido em alianças formais como a OTAN, o que impede que essa lógica seja aplicada a outros espaços considerados estratégicos? A seletividade na aplicação das normas internacionais fragiliza a própria ideia de ordem baseada em regras.
Além disso, o caso expõe uma assimetria estrutural do sistema internacional. Para potências centrais, a geopolítica é frequentemente apresentada como um jogo de escolhas estratégicas. Para territórios e sociedades periféricas ou semi-autônomas, ela se traduz em vulnerabilidade. A Groenlândia aparece, mais uma vez, como espaço onde disputas globais se projetam, independentemente da vontade de sua população.
Por fim, a disputa em torno da Groenlândia evidencia uma contradição central do mundo contemporâneo. Enquanto discursos oficiais reafirmam compromissos com soberania, autodeterminação e direito internacional, práticas políticas concretas apontam para a revalorização do poder bruto como elemento organizador das relações internacionais. O imperialismo, nesse sentido, não retorna como exceção, mas como possibilidade permanente.
A Groenlândia, portanto, não é apenas um território coberto de gelo no extremo norte do planeta. Ela é um espelho das tensões da ordem internacional atual: entre regras e força, entre autonomia e coerção, entre discurso e prática. Compreender o que está em jogo nesse caso é compreender, em grande medida, os contornos do sistema internacional que está emergindo.
Conclusão
A disputa em torno da Groenlândia revela muito mais do que um desacordo diplomático pontual. Ela expõe, de forma quase didática, as tensões centrais da política internacional contemporânea: o enfraquecimento das normas multilaterais, a revalorização do território como ativo estratégico e a persistência de lógicas imperiais sob novas justificativas. Quando a soberania passa a ser relativizada em nome da “segurança”, o que se observa não é uma exceção, mas um sintoma de transformação sistêmica.
O caso groenlandês mostra como discursos de poder podem anteceder, e até substituir, ações concretas. Ao normalizar a ideia de que um território pode ser ‘necessário’ a outro Estado, abre-se espaço para a erosão progressiva do direito internacional e para a consolidação de precedentes perigosos. Se isso é possível no Ártico, em um território ligado à Dinamarca e inserido na órbita da OTAN, torna-se ainda mais plausível em regiões com menor proteção institucional.
Ao mesmo tempo, a Groenlândia evidencia os limites das leituras exclusivamente estratégicas da geopolítica. Reduzir o território a minerais, rotas e bases militares significa ignorar a dimensão humana e política do espaço. Os quase 60 mil groenlandeses, em sua maioria inuítes, não são variáveis secundárias de um tabuleiro global, mas atores centrais de qualquer debate legítimo sobre o futuro da ilha. Desconsiderar essa agência é reproduzir, sob linguagem contemporânea, práticas coloniais antigas.
Por fim, a Groenlândia funciona como um espelho da crise mais ampla da ordem internacional. Entre regras e força, entre soberania e coerção, o sistema global parece caminhar para uma fase em que o poder volta a falar mais alto do que o direito. Compreender o que está em jogo nesse caso é, portanto, essencial não apenas para entender o Ártico, mas para refletir sobre o tipo de ordem internacional que está sendo construída e sobre quem paga o custo dessas transformações.
Analista de Relações Internacionais, organizador do Congresso de Relações Internacionais e editor da Revista Relações Exteriores. Professor, Palestrante e Empreendedor. Contato profissional: guilherme.bueno(a)esri.net.br
