A Busca da China por Autossuficiência Alimentar e Energética

Photo by Aaron Greenwood on Unsplash
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Em uma economia moderna, quase tão importante quanto dispor dos meios de produção, do capital e da tecnologia é o acesso rápido e seguro às matérias-primas necessárias para fazer tal parque industrial funcionar, com destaque especial para a energia e os alimentos, os quais são igualmente indispensáveis. Como a segunda maior potência econômica do globo e o país mais populoso do mundo, a China é um Estado particularmente afetado por essas variáveis, principalmente pelo fato de já ter ficado claro que não dispõe de meios de resolver essas questões sozinha. A nós, resta analisar o quão grave é a dependência energética e alimentar do país e quais os meios por ela utilizados para driblá-la.

Garantindo a Energia para uma Economia de $14 Trilhões

Se levarmos em conta apenas a matriz elétrica da China, a situação não parece tão grave: cerca de 65% de toda a eletricidade gerada no país é produzida por meio da queima de carvão, recurso que o país possui em abundância. Em 2020, a produção carvoeira chinesa foi de quase 4 bilhões de toneladas, mais do que a soma dos oito maiores produtores da lista. A longo prazo, contudo, essa perspectiva não é tão otimista, dado que a expansão da indústria chinesa vem aumentando o consumo de eletricidade a um ponto que mesmo essa gigantesca produção doméstica não é capaz de suprir. Essa tendência já vem se mostrando na balança de importações do país: em 2020, a China já importou 300 milhões de toneladas do exterior para dar conta de sua demanda cada vez maior (REN, 2020).

E a tendência é que esses números só aumentem. Mesmo esse suprimento estável vem demonstrando ser vulnerável a alterações bruscas no cenário global, como nos mostra crise energética chinesa de 2021, quando o aumento brusco da atividade produtiva causado pela recuperação da pandemia esgotou as reservas nacionais de carvão e forçou o governo chinês a introduzir o racionamento nas províncias do coração industrial do nordeste do país. A perda da Austrália como fornecedora, o que foi acarretado por uma disputa comercial e geopolítica crescente entre os dois países acabou por reduzir o número de opções de compra da China, que hoje depende da Indonésia, da Rússia e da Mongólia para garantir suas necessidades (REN, 2020).

Se levarmos toda a matriz energética (inclui eletricidade, combustíveis, aquecimento interno e cozinha) em consideração, a situação torna-se ainda mais pessimista. Por meio de suas três estatais petrolíferas, a Sinopec, a Corporação Nacional Chinesa de Petróleo e a Corporação Nacional Chinesa de Óleo Offshore, o governo chinês é o sexto maior produtor de petróleo do mundo, com uma produção de quase 4 milhões de barris por dia. Contudo, essa quantia gigantesca é suficiente para suprir apenas 40% de toda a demanda nacional. Com a economia chinesa crescendo a todo vapor, é esperado que a fatia de produção doméstica caia ainda mais, para 35%, até 2040. Com relação ao consumo de gás natural, existe também uma dependência de fontes estrangeiras, com ¼ de toda a demanda de 8 trilhões de pés cúbicos tendo de ser suprida por meio de importação (SPEED, 2011). 

Em resumo, fica claro o quanto a expansão industrial chinesa, ainda que por um lado a tenha tornado uma superpotência econômica, por outro também acentuou sua dependência de fontes externas até um ponto em que uma ruptura dessa cadeia teria efeitos devastadores sobre a economia nacional. Ciente desse problema, o governo chinês vem calibrando suas estratégias energéticas de acordo, de modo que podemos elencar três possíveis soluções para o impasse da autossuficiência: a expansão da produção doméstica, a redução do consumo de combustíveis fósseis importados por outras fontes domésticas e a garantia de abastecimento externo seguro por meio de compra de fornecedores confiáveis (SPEED, 2011). 

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Refinaria da Corporação Nacional de Petróleo Chinesa em Tianjin. Fonte: Pixabay.

A primeira alternativa pode ser descartada quase logo de cara. A produção interna já vem sendo extensivamente explorada até quase o ponto da exaustão e, com exceção de certas jazidas em áreas periféricas, como a província de Xingjian, a tendência é que a produção não cresça mas sim diminua. A única possibilidade de crescimento doméstico seria se a China conseguisse consolidar sua posição sobre os arquipélagos do Mar do Sul da China, região a qual se estima que possua reservas de mais de 30 bilhões de barris de óleo, mas que no momento se encontra disputada entre China, Filipinas, Vietnã, Indonésia, Taiwan e Malásia. Não se trata, portanto, de uma certeza de acesso, o que força o governo chinês a pensar outras possibilidades para garantir seu abastecimento (YANG, 2017).

A terceira alternativa é de longe a mais viável a curto prazo: incapaz de se tornar, ao menos por hora, autossuficiente, a China deve tornar sua dependência de fontes externas menos insegura ao garantir que suas fontes sejam países confiáveis tanto do ponto de vista estrutural (resilientes frente a fatores de instabilidade que podem interromper o fornecimento) quanto diplomático (próximos da China o suficiente para não cortarem o fornecimento em caso de atrito ou pressão por parte de terceiros). Outra prioridade é a diversidade, já que a dependência dos produtores de uma única região pode ser muito desastrosa se a mesma for comprometida. Mas quem são esses países e como a China está agindo em relação a eles? (YANG, 2017).

Atualmente, a maior parte dos hidrocarbonetos importados pela China (43% do total) vem das petromonarquias da Península Arábica e embora essa fonte seja considerada prática e barata, ela não é muito segura segundo os dois critérios mencionados anteriormente. Do ponto de vista estrutural, eventos recentes, como os ataques constantes a refinarias da Saudi Aramco, a companhia saudita de petróleo, por parte de rebeldes Houthi do Iêmen mostram que a instabilidade militar na região pode levar a uma interrupção severa da produção. Já do ponto de vista diplomático, embora a influência norte-americana esteja em queda na região, os EUA ainda dispõem de bases militares em quase todos os países da área, o que significa uma interrupção quase certa do abastecimento em caso de guerra (REN, 2020).  

Uma alternativa que parece óbvia é a Rússia. Uma superpotência energética, ela é um Estado forte e, também impelida pela hostilidade a Washington, vem adotando uma política externa cada vez mais favorável à China. Essa proximidade se reflete na relação energética, com a Rússia suprindo hoje 15% das importações chinesas de óleo e 20% das de gás. Em 2019, os dois países inauguraram o gasoduto Power of Siberia e preparativos vêm sendo feitos para que outro seja construído. Contudo, o governo chinês mostra certa relutância em se tornar dependente da Rússia, uma potência militar que conserva ampla autonomia em relação a Pequim e que historicamente sempre se portou mais como um concorrente do que como um aliado. Se por um acaso a aliança se desintegrasse, as consequências para a China seriam trágicas. Exemplo disso é a ruptura sino-soviética de 1961, quando a URSS, antagonizada pela tentativa chinesa de disputar a liderança do bloco comunista, rompeu todos os laços com a China e cessou a exportação de óleo. Se naquela época, a economia chinesa já sofreu um grande abalo, hoje, o mesmo seria catastrófico (REN, 2020). 

A África surge como uma excelente opção, ao menos do ponto de vista diplomático. Sedentos de capital estrangeiro, vários países africanos abraçaram com entusiasmo a entrada da China como investidor na região e abriram suas economias ricas em recursos naturais para o mercado chinês. Agindo agressivamente, companhias chinesas penetraram com força na região, desbancando concorrentes ocidentais com ofertas de grandes investimentos e o estabelecimento de joint ventures com empresas locais, como a Sonangol de Angola, a Sudapet do Sudão e a Companhia Nigeriana de Petróleo. Hoje, o continente responde por 25% de toda a importação energética da China, com a maior parte vindo de Angola, Gabão e Nigéria. Não há dúvidas de que, a longo prazo, a África pode se tornar o principal baluarte energético da China no exterior, mas por hora, existe um entrave crucial: a infraestrutura ruim e a instabilidade crónica da região, o que força o governo chinês a investir bilhões em obras que vão demorar muitos anos para dar retorno e que muitas vezes precisam ser feitas a partir da estaca zero. Ainda assim, parece um investimento muito promissor a longo prazo (REN, 2020).

A Ásia Central é outra cesta na qual a China está disposta a colocar alguns ovos. Ricos em gás natural, os países da região vem registrando altíssimas taxas de crescimento econômico ao avançarem suas relações econômicas com a China, e o setor energético é a chave desse relacionamento. Hoje, Cazaquistão, Uzbequistão e Turcomenistão respondem por 33% da importação e 15% do consumo chinês de gás e essa importância se reflete na presença cada vez maior de infraestrutura chinesa na região, como o oleoduto sino-cazaque e o gasoduto sino-turcomeno. No caso do Turcomenistão, essa relação se tornou próxima a ponto de 80% de todos os hidrocarbonetos produzidos no país serem exportados para o gigante chinês. Contudo, essa é outra área onde a China avança com calma, ciente tanto da impopularidade de sua presença em uma região de povos túrquicos historicamente hostis ao “reino do meio” quando da predominância estratégica da Rússia sobre essa área, o que pode causar atritos que nenhum dos dois lados por hora deseja (REN, 2020).  

Na América Latina, os chineses vem seguindo uma versão menos agressiva de sua estratégia africana com sucesso no Equador e na Venezuela, onde conseguiram obter a posse de vários campos importantes de petróleo. O Brasil, principal produtor da região, acabou por se orientar naturalmente em relação ao mercado petrolífero chinês e hoje responde por 5% de seu consumo total, ainda que a pegada chinesa direta no país seja pequena, com a estatal nacional Petrobras detendo o predomínio da exploração. No sudeste asiático, a estratégia energética chinesa fez pouco progresso devido à hostilidade histórica entre esses países e a China. O único lugar onde um trunfo foi obtido foi Mianmar, onde os chineses construíram um grande oleoduto conectando os poços da Baía de Bengala com seu próprio território (REN, 2020). 

Por fim, o país que, na opinião deste autor, representa a principal oportunidade de curto prazo para a China no setor energético é o Irã. Visceralmente hostil aos Estados Unidos e, por conta do embargo deste, desesperado para encontrar compradores para seu petróleo, a nação persa, que é a 9a maior produtora desse recurso do mundo, emerge como um aliado natural dos chineses. Além de seu posicionamento diplomático favorável e sua garantia de estabilidade interna como Estado consolidado, o Irã apresenta a vantagem de ser vizinho do Paquistão e do Turcomenistão, principais parceiros da China na iniciativa da Nova Rota da Seda, que inclui gigantescos corredores de infraestrutura passando por seus territórios Caso essas rotas seja expandiram para o Irã, a China teria acesso terrestre ao petróleo iraniano sem ter mais de se preocupar que o estreito de Ormuz, por onde o escoamento marítimo atualmente é feito, ser  interrompido ou bloqueado pelos norte-americanos. A China já vem avançando nesse sentido: em 2021, Pequim fechou um acordo com o Irã que prevê um aporte de 400 bilhões de dólares pelos próximos 25 anos, dos quais a maioria ($280 bi) será investida no setor petrolífero (REN, 2020).          

Alimentando um Quinto do Mundo:

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Fazenda com terraceamento no sul da China. Fonte: Pixabay.

Um problema ainda maior surge para a China na esfera alimentar: contando com uma população de 1,4 bilhões, quase ⅕ de toda a população mundial, o Estado chinês tem a hercúlea missão de alimentar essa imensa quantidade de pessoas, uma tarefa essa tornada ainda mais difícil pelo fato da bem-sucedida transição econômica estar aumentando o poder aquisitivo da classe média chinesa e, por consequência, expandindo as suas necessidades calóricas (DU, 2018).

A princípio, é necessário detalhar um pouco como funciona o sistema agrícola chinês: com 27% de sua população empregada no campo e uma área cultivável igual a apenas 10% de seu território total, a China ainda assim é o maior produtor agrícola do mundo, com um output avaliado em cerca de 2 trilhões de dólares anuais e 2018. Dentre esse setor, se destacam o cultivo de arroz, trigo, algodão, frutas (uvas, peras, maçãs, melancias, etc.) e hortaliças (cebolas, cenouras, batatas, berinjelas, etc.), bem como a pecuária de frango, porco, cabras e ovelhas, com a China sendo considerada a maior produtora de todos esses gêneros. O coração agrícola da China é e sempre foi a região histórica do “reino do meio”, compreendida entre os rios Yangtzé e Amarelo, embora o sul quente tenha se destacado também nos anos recentes (DU, 2018).

Contudo, essa produção quantitativamente gigantesca esconde uma série de problemas qualitativos graves, referentes ao funcionamento estrutural da agricultura chinesa. Enquanto o setor urbano e a indústria chinesa vêm conhecendo uma era de ouro, o campo vem ficando para trás no esforço modernizador do país devido a uma série de problemas estruturais que, a despeito dos esforços do governo, ainda não foram totalmente resolvidos. Entre eles, podemos citar a parca integração da cadeia logística entre produtores e consumidores, a metodologia arcaica de cultivo ainda utilizada por uma parte substancial dos agricultores e as distorções de mercado causadas pela falta crônica de informação (DU, 2018).

O principal problema, contudo, é o status legal incerto das terras chinesas, que nunca foram de fato privatizadas. Com a morte de Mao Tse-Tung em 1976, as fazendas coletivas ao estilo soviético foram desfeitas e os agricultores receberam lotes individuais para cultivar, mas a terra permanece do Estado, que se utiliza de um sistema de cotas para gerir a produção. A falta de eficiência do sistema, somada à carência de investimentos em um setor tão legalmente incerto força o governo a usar um conjunto de incentivos e subsídios extremamente caro para aumentar a produção. Pequim já reconheceu os problemas de seu modelo agrícola e vem tomando medidas para modernizá-lo, mas essas são iniciativas de longo prazo, sem solução no horizonte atual (DU, 2018).

Eventos recentes também mostram a vulnerabilidade do suprimento interno de comida do país frente a choques inesperados. O surto de febre suína em 2018 resultou na morte de mais da metade do rebanho suíno do país, um choque do qual a produção chinesa ainda não se recuperou. Se considerarmos esse gigantismo de escala na hora de pensar nas possíveis consequências de um choque alimentar sem uma fonte alternativa de alimento, fica patente o impacto catastrófico que essa  interrupção causaria para milhões de consumidores chineses (DU, 2018).

 E mesmo que a China conseguisse vencer o desafio hercúleo de aumentar a sua produção agrícola, é duvidável se esse novo volume de alimentos seria suficiente para colocar comida na mesa de quase um bilhão e meio de pessoas. Essa circunstância, assim como a que vimos no setor de energia, força o governo chinês a buscar a mesma estratégia: uma iniciativa internacional de compras que lhe garanta um fornecimento seguro do excedente alimentar necessário para o seu povo (ZHANG, 2018).

E como na questão energética, a base da estratégia chinesa é a diversificação, cooptando o maior número possível de importadores para não ter de depender de nenhum exclusivamente. Atualmente, a maior parte dos gêneros importados são soja e sementes oleosas (39,6% do total de importações), seguidos por gorduras e óleos (11,9%), carnes (9,6%), grãos (8,5%) e frutas (6,4%). A maioria desse alimento vem dos EUA, do Brasil, da Indonésia, da Austrália, da Rússia, da Tailândia e do Canadá (ZHANG, 2018).

Fica aqui patente também a sagacidade por trás da estratégia de diversificar os importadores: com as relações comerciais com os EUA e a Austrália ameaçadas pela guerra comercial, a existência de outras fontes de suprimento permite ao governo chinês preencher rapidamente lacunas no seu mercado ao mesmo tempo em que evita choques bruscos de desabastecimento e mudanças súbitas de preço. O tamanho do mercado chinês e a criação de fortes vínculos de interdependência com ele também favorecem o gigante asiático, dando-lhe um considerável poder de barganha com os seus fornecedores ao negociar com eles o acesso a um mercado gigantesco e com um potencial lucrativo na casa das dezenas de bilhões de dólares (ZHANG, 2018).

Ao analisar toda a estratégia de segurança alimentar e energética da China em âmbito global, o que podemos ver é uma inteligente política de minimização de riscos, pautada na ideia de que se a dependência do exterior é incontornável, ela deve ser gerida da forma mais eficiente possível para evitar que o Estado chinês fique a mercê tanto de fornecedores potencialmente perigosos quanto de variações bruscas que podem, de uma hora para outra, minar alicerces instrumentais para o funcionamento de uma economia industrial gigantesca, em pleno estado de expansão. Resta a ver como a estratégia chinesa vai se adaptar em uma era de competição econômica mais direta com os Estados Unidos e seus aliados (ZHANG, 2018). 

Referências bibliográficas:

BRAUTIGAM, Deborah. Will Africa Feed China?, 2015.

DU, Jun. Agricultural Transition in China, 2018.

REN, Jingzheng. China’s Energy Security, 2020.

SPEED, Phillip. China, Oil and Global Politics, 2011.

YANG, Chi-Jen. Energy Policy in China, 2017.

ZHANG, Hongzhou. Securing the ‘Rice Bowl’, 2018.

ZHAO, Hongtu. The Economics and Politics of China’s Energy Transition, 2019.

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Sobre o Autor

Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP).

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