A crise econômica da Grécia em 2015

Bandeira da Grécia - Foto Anders Kristensen
Bandeira da Grécia - Foto Anders Kristensen

Quem ligasse os noticiários em 2015, provavelmente veria a população grega fazendo filas nos caixas eletrônicos para retirarem as suas economias pessoais, se preparando para as piores consequências da inflação econômica naquele país (como o bloqueio das contas pelas quedas da bolsa de Atenas e a crescente dívida pública do governo).

Algumas pessoas poderiam associar, de forma prévia, que os efeitos da crise econômica de 2008 ocorrida nos EUA poderia ser o único fator em questão que desencadearia a crise grega. Acompanhando ainda os mesmos noticiários, veria a Grécia divida com relação a permanência na zona do Euro ou a sua saída do mesmo bloco econômico.

Mas, afinal, a crise econômica da Grécia em 2015 foi provocada  apenas por fatores internos ou foi resultado de  fatores externos? Essa será a pergunta que este artigo se propõe a responder.

Alguns autores, como Pereira, tende a ver como causa da crise grega em 2015 as ações das grande potências europeias e das instituições como o FMI (Fundo Monetário Internacional), Comissão Européia e o Banco Central Europeu. Essas instituições o autor chama de “Troika”:

Quando o Syriza tomou democraticamente o poder no início de 2015 , sob a liderança de Alexis Tsipras (um quase-desconhecido na política europeia), encontrou um país  devastado e vandalizado pelas ‘medidas de austeridade’ impostas pela TROIKA aos países da Eurozona atingidos pela crise do subprime, e cujos governos, em desespero financeiro, apelaram a uma ajuda económica por parte dos seus pares nos países da UE que aderiram ao Euro. (PEREIRA, 2015, p. 24)

Já outros autores, como Kouretas em artigos antes mesmo do ápice da crise, já apontava para fatores históricos endógenos que resultaram na crise grega. Fatores esses associados a descontrole fiscal desde o final dos anos 1970 com excessivos gastos pelo governo do primeiro ministro socialista Papandreou:

O governo socialista implementou um programa de política econômica que se baseava, principalmente, no aumento do rendimento médio das habitações gregas através de empréstimos extensivos contraídos dos mercados. Este empréstimo foi  completamente racionalizado para níveis de consumo mais elevados, num esforço para elevar o padrão de vida das família[1]. (KOURETAS, 2010, p.394)

            Para, então, podermos entender melhor a situação que desencadeou na crise grega de 2015, a forma metodológica do process tracing será utilizada uma vez que o process tracing é “ útil para analisar fenômenos complexos,situados historicamente, cujas explicações demandam a articulação de diferentes fatores, como os estruturais, institucionais, sociais, dentre outros” (SILVA e CUNHA, 2015, p.107).

A hipótese para essa pergunta norteadora é que a economia grega já vinha se deteriorando por descontrole fiscal, os reflexos da crise econômica mundial de 2008 serviram como ápice para o que se desencadearia em 2015. Ainda a teoria que iremos mobilizar para entender o fenómeno da crise grega será a Interdependência complexa de Robert Keohane e Joseph Nye uma vez que o pensamento de interdependência mútua poderá melhor ilustrar a situação grega perante a economia mundial.

Contudo, antes de entramos na questão teórica propriamente dita, é necessário entendermos o contexto grego na época em questão assim como o cenário econômico internacional desenvolvido no mesmo período.

Contextualização

Quando o então primeiro ministro grego, Alexis Tsipras, disse no parlamento europeu em 08 de julho de 2015 que a crise na Grécia era um ‘problema europeu’ e, portanto, era necessário uma solução a luz da comunidade europeia podia-se pensar que o primeiro ministro, que foi eleito naquele mesmo ano pela coalizão Syriza, já estaria jogando um problema do seu governo à comunidade da zona do Euro. Entretanto, esse discurso podia ser visto como uma tentativa de permanência da Grécia ao grupo (no qual é membro desde 2001). O ministro evocava à coesão da comunidade europeia perante a um problema grave em seu país em meio aos efeitos que os demais países sentiam devido a crise económica norte-americana de 2008.

A Grécia enfrentava, naquele ano, uma queda significativa do PIB (produto interno bruto) que chegou a 354.461 bi em 2008 em comparação 195.605 bi em 2015, segundo dados do Banco Mundial, 2022. Além disso “a população viu reduzido em 1/3 o seu poder de compra, o país importa mais de 70% dos bens essenciais.” (PEREIRA, 2015)

A revista “The Economist”, em uma matéria publicada em 2019, mostrou a evolução da dívida pública grega em relação ao PIB desde 2004. Sendo que o crescimento exponencial da dívida do governo chegou a cobrir uma percentagem equivalente a 150% do PIB grego em 2015 com tendência a um aumento, conforme o gráfico a seguir demonstra:

A crise econômica da Grécia em 2015 3
(ECONOMIST, 2019)

Em outras palavras, a situação econômica grega beirava a um grave colapso com tendência à uma situação cada vez pior. Analisando a partir da teoria de Relações Internacionais (a Interdependência Complexa), conseguimos visualizar como o contexto econômico internacional influenciou o cenário grego e como a econômia grega refletiu no ambiente Internacional.

A Interdependência Complexa no caso grego 

Como foi dito anteriormente, a teoria da interdependência complexa desenvolvida por R. Keohane e J. Nye será utilizada para entendermos a situação grega. Tomando por base o livro “Poder e Interdependencia, la política mundial  en transición” de Keohane e Nye (1977), temos alguns princípios básicos que sustentam essa teoria: 1º Diversos canais conectam a sociedade. Disso podemos entender conexões sejam elas informais entre os governos, sejam acordos formais entre as agências que prestam serviço exterior ou organizações transnacionais ou multinacionais.

2º  Não há uma “hierarquia” nos temas internacionais. Ou seja, diferente dos realistas que tendem a colocar as questões de segurança (sobretudo militar) como prioridade nos assuntos internacionais, temas internos e externos aos Estados podem assumir patamares diferentes no grau de prioridade Internacional. E, por fim,

3º Os Estados não tendem a recorrer sempre ao poder bélico-militar para resolver os seus conflitos. Sobretudo em regiões que predominam a Interdependência complexa, onde a cooperação pode ser mais útil do que uma ameaça militar: “A força militar, por exemplo, pode ser irrelevante na resolução de desacordos sobre questões económicas entre membros de uma aliança, mas, ao mesmo tempo, pode ser muito importante para as relações políticas e militares dessa aliança com um bloco rival.” [2](KEOHANE e NYE, 1977, p.41)

Tendo esses príncipios em vista devemos lembrar que o caso grego não se tornou um caso isolado no sistema econômico mundial. Em sintonia com o primeiro princípio mencionado, sobre os diversos canais que conectam a sociedade, neste caso se mostra na integração econômico. Mais do que isso, retomando a frase de Tsipras da primeira parte, era um problema que afetava um bloco econômico e a sua unidade. De forma que uma dívida econômica em um integrante do bloco ressulta em um “efeito dominó” para os demais, como recorda Kouretas:

O índice da dívida bruta/PIB aumentou em todas as economias da EMU (União Monetária Européia) durante o período 2007-2010, mas não de forma simétrica; foi aumentada em 62,3% na Irlanda, em 38,2% na Grécia e em 36,3% na Espanha. Estes foram os maiores aumentos do índice da dívida bruta/PIB na zona euro[3].(KOURETAS, 2010, P. 392)

Embora aqui vale ressaltar a questão da vulnerabilidade e da sensiblidade na Interdependência complexa. Entendida a sensibilidade como a rapidez em que a mudança em uma parte do Sistema provoca a mudança em outra parte. Ao passe que vulnerabilidade está relacionada com os custos de saída do Sistema ou alterações nas regras do jogo, ou seja, custos da alteração estrutural (NYE, 2002, p. 229). Assim, retomando a fala de Kouretas, a sensibilidade da Grécia (assim como Irlanda e Espanha) foi maior do que os demais países europeus sobretudo devido aos efeitos da crise norteamericana de 2008. O que leva Pereira a chamar a Grécia de “laboratório do totalitarismo financeiro.” (PEREIRA, 2015, p. 33)

O que, também, podemos mencionar é o alto custo (ou alta vulnerablidade) da Grécia perante essa situação de crise global. O gráfico de variação do PIB grego, feito pelo Banco Mundial, demonstra claramente essa vulnerabilidade grega. Os custos para “alterar as regras do jogo” seriam altas demais para a Grécia:

A crise econômica da Grécia em 2015 4
Banco Mundial, 2022

Atentando-se ao fato de um crescimento vagaroso do PIB grego até o ano 2000. Com a adesão da Grécia ao bloco europeu em 2001 houve um aumento exponencial do PIB grego. Após a crise financeira norte-americana em 2008, o PIB grego começa a decair de forma assustadora. Mais uma vez a Interdependência se mostrou atuante a partir do momento que uma crise financeira de um Estado do outro lado do Atlântico afetou de forma tão drástica países europeus (sobretudo a Grécia).

Analisando o 2º ponto da teoria da Interdependência Complexa, que menciona a falta de “hierarquia” dos temas internacionais. Não houve um conflito, no sentido bélico, entre a Grécia ou algum outro Estado-Nação. Além disso, podemos analisar a situação grega a partir da importância dada ao tema de acordo com cada ator do Sistema Internacional. A Interdependência complexa ressalta a questão das Instituições Internacionais na composição dessa agenda. “Os acordos consultivos globais desenvolvidos pela OCDE, GATT, FMI e a Comunidade Europeia indicam como é característica a sobreposição de políticas internas e externas entre países desenvolvidos pluralistas.”[4] (KEOHANE e NYE, 1977, p. 43). Assim sendo, a partir da visão desse segundo princípio, as questões da política macroeconômica interna grega tomam uma nova importância e as instiuições internacionais tomam uma protagonismo para tentar controlar a situação grega que estava beirando a uma depressão econômica. Kouretas explica de forma clara e sucinta a questão interna grega neste período “pré-crise”:

para além de qualquer dúvida, a principal responsabilidade pela crise da dívida na Grécia recai sobre os governos gregos e a existência de um sistema político fraco que levou a uma constante má gestão da economia interna, acrescentando a dívida pública a um ritmo que era muito mais elevado do que o resto da zona euro, numa altura em que o nível do público a dívida já foi superior a 100% do PIB[5] (KOURETAS, 2010, p. 393)

Ou seja, a questão da derrocada econômica grega assumiu um “papel” superior as demais questões internas e questões externas durante o período pré crise (por volta dos anos 2009 até 2014) até a crise em 2015. Mesmo tendo uma tentativa do bloco europeu juntamente com o FMI (Fundo Monetário Internacional) de atenuar a questão fiscal grega “sob a forma dos 110 mil milhões de euros do pacote de salvamento de três anos” (KOURETAS, 2010, p.393)  não se mostraram suficientes para aliviar a crise e evitar uma derrocada da econômia da Grécia (como vimos nos gráficos anteriores). O economista brasileiro Paulo Nogueira Batista Junior menciona que o caso grego se tornou mais complicado no fim de 2009 com a revelação “de que o governo vinha praticando gigantesca manipulação das estatísticas fiscais”  (BATISTA JÚNIOR, 2019, p. 202). O mesmo continua “para a Grécia, o ‘socorro’ se traduzia na imposição de um programa draconiano de ajustamento fiscal e reformas, monitorado em conjunto pelo FMI e pelas autoridades européias”.  (BATISTA JÚNIOR, 2019, p. 203). Para Batista Júnior (2019), a austeridade imposta pelas autoridades monetárias europeias e imposta pelo FMI desencadeou na derrubada da economia além de deprimir a arrecadação fiscal. Isso resultou no aumento do desemprego e aumento na depressão econômica. Ainda, para o mesmo autor, o fato da Grécia integrar a zona do euro “havia proporcionado à Grécia uma enganosa aura de confiabilidade. A revelação de que existiam imensos déficits fiscais, ocultados em grande parte por artifícios contábeis, caiu como uma bomba”. (BATISTA JÚNIOR, 2019, p. 202).  A partir dessa analise estrutural econômica grega que foi possível estabelecer a hierarquia temática além do papel das Instituições Internacionais na solução do conflito interno grego.

Por fim, colocando um olhar sobre o 3º princípio o “não uso da força militar para a resolução de conflito” vai de encontro ao que foi dito sobre o 2º ponto. Embora aqui podemos ressaltar a questão da cooperação entre os aliados dentro do mesmo bloco econômico para a resolução da crise grega. Como foi dito anteriormente, o próprio fundo monetário europeu ofereceu ajuda fiscal ao governo grego afim de amenizar a situação local.

Conclusão

Como foi visto ao longo deste artigo, a situação econômica grega em 2015 beirou a um desastre econômico. Vale a pena, aqui, retomar a pergunta e a hipótese desse artigo para tirarmos as conclusões. Temos como pergunta-norteadora: A crise econômica da Grécia em 2015 foi provocada  apenas por fatores internos ou foi resultado de  fatores externos? E como hipótese: A economia grega já vinha se deteriorando por descontrole fiscal. Os reflexos da crise econômica mundial de 2008 serviram como ápice para o que se desencadearia em 2015. Ora, vimos que, de fato, a crise econômica norte-americana atingiu a Europa, como um todo, de uma forma extremamente inesperada. Entretanto, dentro do bloco europeu alguns países (como Espanha, Irlanda e a própria Grécia) foram mais afetados do que outros.

Além disso, como alguns autores apontaram, o conjunto de pacotes fiscais enviados pelas Instiuições Internacionais como o FMI e o Fundo Monetário Europeu exigiram medidas austeras da Grécia, o que sufocou ainda mais a economia grega (que, de forma jocosa, podemos dizer que “respirava com ajuda de aparelhos”).

Podemos ainda ressaltar políticas de descontrole fiscal antes mesmo da crise de 2008 (como foi mostrado ao longo desse artigo) além de falta de transparência com a real situação econômica grega até 2010 (o que também foi dito no capítulo anterior). Dessa forma, podemos dizer que a hipótese levantada no início desse artigo responde parcialmente a pergunta norteadora. Não foram somente fatores internos ou exclusivamente fatores externos que provocaram a crise econômica grega em 2015, mas sim ambos fatores em conjunto. A crise de 2008 talvez tenha sido o ápice para uma reação em cadeia na econômia grega (o que chamamos de “efeito dominó”).

Ainda podemos fazer menção a teoria da Interdependência complexa desenvolvida por Keohane e Nye. Como a luz dessa teoria, podemos concluir sobre esse conjunto de fatores que desembocam na crise grega em 2015. A interdependência mútua, ou seja, a inter-conexão global contribuiu para a situação econômica grega e sua decadência.

Olhando para a atualidade grega, ainda se vê as consequência da crise económica ocorrida em 2015 (claramente de uma forma não tão catastrófica como no ano em questão). Ainda podemos esperar uma recuperação grega, embora não será tão rápida como foi no inicio desse milênio.

Referências Bibliográficas

BANCO MUNDIAL. Greece. Disponível em <https://data.worldbank.org/country/greece?view=char> Acesso em Fev. De 2022

BATISTA JÚNIOR, Paulo Nogueira. O Brasil não cabe no quintal de ninguém: Bastidores da vida de um economista bresileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata. São Paulo. LeYa. 2019.

ECONOMIST, the. Greece’s debt odyssey. Disponível em <https://www.economist.com/leaders/2019/10/03/greeces-debt-odyssey> Acesso em fev. De 2022

KEOHANE, Robert e NYE, Joseph. Poder e Interdependencia La política mundial  en transición. Disponível em <http://www.url.edu.gt/PortalURL/Biblioteca/Contenido.aspx?o=5244&s=49> Acesso em fev. De 2022.

KOURETAS, Georgious. The Greek Crisis: Causes and Implications. PANOECONOMICUS. Atenas. 2010, Ed.4.

MYLONAS, Harris. Greece. European Journal of Political Research Political Data Yearbook. Ed.55. Washington. 2016

NYE, Joseph. Compreender os conflitos Internacionais. Uma Introdução à teoria e à história. Portugal. Gradiva. 2002

PEREIRA, Henrique Garcia. CONSEQUÊNCIAS PARA A GRÉCIA DA CRISE FINANCEIRA ATUAL E EXPERIÊNCIA ORIGINAL DO SYRIZA COMO ‘MOVIMENTO-PARTIDO’ QUE SE OPÕE À AUSTERIDADE. Polêm!ca, Revista eletrônica da Uerj. v. 15, n.3, Rio de Janeiro. 2015

SILVA, Fábio Mariano Espíndola e CUNHA, Eleonora Schettini Martin.Process-tracing e a produção de inferência causal. TEORIA E SOCIEDADE. Belo Horizonte. nº 22. 2014


[1] “The socialist government implemented an economic  policy programme that was mainly based on inducing the income of the average Greek household through extensive borrowing from the markets. This borrowing was

completely streamlined to higher consumption levels in an effort to raise the standard of living of households” (tradução livre)

[2]La fuerza militar, por ejemplo, puede ser irrelevante para resolver desacuerdos ” sobre aspectos económicos entreIos miembros de una alianza, pero al mismo tiempo puede ser muy importante para las relaciones políticas y militares de esa alianza con un bloque rival. (tradução livre)

[3] [The] gross debt/GDP ratio increased across all EMU economies over the period 2007-2010 but not in a symmetric way; it was increased by 62.3% in Ireland, by 38.2% in Greece and by 36.3% in Spain. These were the largest increases of the gross debt/GDP ratio in the eurozone. (tradução livre)

[4] “Los ácuerdos consultivos globales desarrollados por la OCED, el GATT, el FMl y la Comunidad Europea indican cuán característico es, el solapamiento de las políticas internas ‘y externas entre los países desarrollados pluralistas.” (tradução livre)

[5] beyond any doubt the main responsibility for the debt crisis in Greece rests with the Greek governments and the existence of a weak political system that led to a constant mismanagement of the domestic economy adding government debt at a rate, which  was much higher than the rest of the eurozone at a time that the level of the public debt has already been more than 100% of GDP (tradução livre)

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Sobre o Autor

Analista de Relações Internacionais pela PUC Minas

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