Na madrugada de 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel lançaram ataques coordenados contra múltiplos alvos em território iraniano. A operação ocorreu após meses de mobilização militar norte americana no entorno do Golfo e em paralelo a negociações diplomáticas ainda em andamento sobre limites ao programa nuclear iraniano. O efeito imediato foi o colapso do processo diplomático e a abertura de um novo ciclo de confrontação regional.
A interpretação dominante em análises iniciais não se concentra apenas na escala dos ataques, mas na natureza de seus objetivos. A escolha de alvos ligados a infraestrutura estratégica e a estruturas de liderança sugere que a operação não se limitou a degradar capacidades militares. Ela parece ter sido desenhada para pressionar o núcleo do regime iraniano. Essa distinção é crucial. Operações de punição e operações de transformação política produzem respostas estratégicas radicalmente distintas.
Essa diferença aparece com clareza quando se observa a percepção iraniana. Analistas indicam que a liderança em Teerã interpreta a ofensiva como ameaça existencial ao regime. Em termos teóricos, isso altera a função da força no cálculo estratégico. O uso da força deixa de ser um instrumento de coerção limitada e passa a ser percebido como tentativa de remoção do adversário. Nesse contexto, a moderação perde racionalidade e a escalada passa a ser vista como mecanismo de sobrevivência.
A tese central deste artigo é que a crise atual não deve ser interpretada como mais um episódio de pressão militar no histórico contencioso entre Washington e Teerã. Ela representa uma mudança de patamar estratégico, marcada pela convergência entre coerção militar, sinalização política de mudança de regime e erosão simultânea da via diplomática. Essa combinação aumenta significativamente a probabilidade de um conflito prolongado.
O que se sabe até agora: fatos e limites da informação inicial
As informações disponíveis indicam que a operação foi precedida por mobilização militar gradual e deliberada. Nas semanas anteriores, os Estados Unidos posicionaram meios navais e aéreos adicionais na região. Esse tipo de movimento raramente tem apenas função defensiva. Em estudos estratégicos, ele costuma funcionar como instrumento de coerção antecipada, destinado a influenciar negociações.
Os ataques começaram antes do amanhecer e atingiram diversos pontos simultaneamente. Autoridades norte americanas classificaram a ação como operação militar de grande escala. Israel descreveu como ataque preventivo. Essa divergência terminológica é politicamente significativa. A categoria preventiva tenta enquadrar a operação dentro da lógica de autodefesa antecipatória, enquanto a categoria ofensiva implicaria maior contestação jurídica e diplomática.
A resposta iraniana foi rápida e geograficamente ampliada, incluindo disparos contra Israel e contra países do Golfo que hospedam presença militar dos EUA. Esse ponto é estratégico. Ele demonstra que a capacidade de retaliação não foi neutralizada e indica decisão deliberada de internacionalizar o custo do conflito.
Ao mesmo tempo, persistem incertezas relevantes. Não há confirmação pública consolidada sobre o impacto real na cadeia de comando iraniana ou sobre o grau de degradação das capacidades estratégicas do país. Essa opacidade informacional é típica das fases iniciais de guerra e aumenta o risco de erro de cálculo. Estados tomam decisões com base em estimativas incompletas, o que eleva a probabilidade de escalada não planejada.
Outro elemento crítico é temporal. Os ataques ocorreram enquanto negociações diplomáticas ainda estavam em curso e apresentavam sinais de progresso limitado. Esse dado fragiliza a narrativa de inevitabilidade militar e levanta questionamentos sobre a necessidade do uso da força naquele momento específico. Em termos analíticos, isso sugere que a decisão não foi apenas reativa, mas estratégica.
Objetivos declarados e objetivos implícitos
A justificativa oficial norte americana enfatiza a necessidade de impedir que o Irã desenvolva capacidade nuclear militar e reduzir sua capacidade de projeção regional. Esse argumento segue a lógica clássica da contraproliferação coercitiva, segundo a qual a força pode ser usada para impedir que um adversário adquira capacidades consideradas desestabilizadoras.
Entretanto, essa justificativa é insuficiente para explicar o padrão de alvos e a retórica política associada à operação. Instalações ligadas à liderança e ao aparato de comando foram atingidas. Paralelamente, mensagens públicas dirigidas à população iraniana incentivaram mudança política interna. Esses elementos apontam para um objetivo mais ambicioso do que contenção militar.
A literatura estratégica distingue entre coerção para mudança de comportamento e coerção para mudança de regime. A primeira busca alterar políticas. A segunda busca alterar o próprio sistema político. Confundir essas duas metas costuma gerar impasses estratégicos, porque cada uma exige instrumentos distintos. Campanhas aéreas podem degradar capacidades militares, mas raramente produzem transformação política sem fatores internos adicionais, como divisões entre elites ou deserções institucionais.
Há ainda um problema de consistência estratégica. A campanha parece perseguir simultaneamente três objetivos: neutralizar capacidades militares, enfraquecer o regime e incentivar mobilização interna. Essa multiplicidade cria ambiguidade operacional e reduz a clareza do ponto final desejado. Estratégias com metas sobrepostas tendem a prolongar conflitos porque cada objetivo exige critérios diferentes de sucesso.
Outro ponto crítico é a mudança de narrativa histórica. Ao enquadrar a operação como capítulo decisivo de uma rivalidade iniciada em 1979, autoridades norte americanas elevam o conflito de crise conjuntural para disputa estrutural. Esse enquadramento reduz espaço para soluções intermediárias e aumenta o risco de radicalização.
A lógica iraniana: racionalidade da escalada
Do ponto de vista iraniano, a interpretação dominante não é de punição militar, mas de ameaça ao regime. Essa percepção altera completamente a racionalidade estratégica. Quando a sobrevivência política é colocada em risco, o custo da escalada passa a ser secundário diante do custo da derrota.
Crises anteriores mostram que o Irã é capaz de respostas calibradas quando avalia que a estabilidade interna não está em jogo. O padrão atual sugere outra lógica. A combinação de ataques extensos e discurso de mudança política reduz o incentivo à contenção.
O sistema político iraniano possui características que reforçam sua resiliência. A estrutura de segurança é institucionalmente densa e interligada a setores econômicos e administrativos. Mesmo sob pressão, esse tipo de sistema tende a preservar capacidade de coordenação e reação.
Além disso, a estratégia iraniana privilegia a externalização do conflito. Em vez de responder apenas dentro de suas fronteiras, busca ampliar custos para adversários e parceiros regionais. Esse método tem função estratégica clara. Ao espalhar riscos, dificulta a formação de coalizões estáveis e aumenta a pressão política sobre terceiros.
Redes armadas alinhadas desempenham papel central nessa arquitetura. Elas permitem expandir o teatro de operações sem depender exclusivamente de forças regulares. Em termos de teoria estratégica, trata se de uma forma de dissuasão distribuída.
Vias de escalada: capacidades remanescentes e instrumentos de retaliação
A tendência mais provável é que a escalada siga uma lógica combinada. O Irã deve alternar meios diretos, como mísseis e drones, com meios indiretos, por redes armadas alinhadas e pressão econômica sobre gargalos estratégicos. Essa combinação é coerente com a doutrina de dissuasão iraniana: elevar custos, ampliar incerteza e impor dilemas aos adversários, sobretudo aos parceiros regionais que hospedam presença militar norte americana.
Vetores diretos: ataques calibrados, saturação e sinalização
Mesmo sob degradação inicial, o Irã mantém capacidade de lançar ataques voltados não apenas ao dano físico, mas ao efeito estratégico. Ataques por volume e dispersão têm função de saturar defesas e produzir uma mensagem política de continuidade operacional. Em conflitos desse tipo, a sinalização importa tanto quanto a destruição. Se o adversário demonstra que ainda pode retaliar, ele preserva parte de sua capacidade de dissuasão.
O problema é que a escalada direta aumenta o risco de incidentes politicamente irreversíveis. Morte de militares norte americanos, colapso de defesa aérea em um episódio específico ou impacto sobre infraestrutura crítica pode acelerar decisões de ampliação da campanha. Em outras palavras, o risco não é apenas de escalada deliberada, mas de escalada por inércia e reação.
Vetores indiretos: redes armadas, atribuição e ampliação do teatro
A dimensão indireta é, ao mesmo tempo, a mais flexível e a mais perigosa. A atuação de redes armadas alinhadas permite ampliar o conflito sem depender exclusivamente de forças regulares. Além disso, multiplica pontos de pressão e cria dilemas de atribuição. Mesmo quando a coordenação é parcial, a atuação desses atores pode ser interpretada como extensão da estratégia iraniana, o que amplia riscos de retaliação.
Aqui surge um dilema estrutural para Washington. Responder com intensidade elevada pode ampliar ainda mais o teatro. Responder de forma limitada pode incentivar novas ações por percepção de tolerância. Esse tipo de assimetria produz uma zona cinzenta, onde as decisões tendem a ser tomadas sob pressão política e com informação incompleta.
Vetor econômico: gargalos estratégicos e custo sistêmico
O risco econômico não é uma consequência secundária. Ele é parte do próprio mecanismo estratégico. A elevação do risco em rotas marítimas, seguros e logística pode gerar custos imediatos, mesmo sem bloqueios totais. O estreito de Ormuz é o símbolo mais evidente desse tipo de vulnerabilidade. A simples possibilidade de perturbação pode reprecificar energia, afetar expectativas e gerar efeito em cadeia em economias importadoras.
Esse ponto é crucial porque amplia o conjunto de atores afetados. Quando o custo econômico se espalha, aumenta a pressão por mediação e contenção, mas também aumenta a probabilidade de alinhamentos rígidos e políticas defensivas por parte de terceiros Estados.
Legalidade e legitimidade: a dimensão normativa como variável estratégica
A disputa jurídica não é detalhe formal. Ela molda o espaço político do conflito. Quanto mais contestada for a legitimidade da operação, mais difícil se torna sustentar coalizões, produzir consenso diplomático e manter apoio doméstico ao longo do tempo.
Direito interno dos Estados Unidos: sustentabilidade política e limites institucionais
No plano doméstico, a decisão de lançar ataques sem autorização prévia do Congresso reabre o debate sobre limites do poder presidencial em matéria de guerra. Ainda que a Casa Branca invoque poderes constitucionais do comandante em chefe, há pressões legais e políticas associadas ao prazo imposto pela War Powers Resolution. Se a operação se prolongar, o governo precisa justificar objetivos e resultados de forma convincente.
Esse ponto tem impacto direto na estratégia. Campanhas militares longas exigem sustentação política. Sem consenso institucional interno, a operação se torna vulnerável a disputas, investigações e perda de apoio público.
Direito internacional: autodefesa, iminência e ausência de mandato
No plano internacional, a controvérsia se concentra na justificativa de autodefesa e na ausência de mandato do Conselho de Segurança. A doutrina de autodefesa exige ameaça iminente e necessidade. Quando negociações diplomáticas estavam em andamento, o argumento de necessidade tende a ser fragilizado, porque ainda existiam alternativas políticas disponíveis.
Esse elemento importa porque influencia como terceiros Estados se posicionam. Muitos países evitam apoiar explicitamente ações percebidas como juridicamente frágeis, mesmo quando reconhecem o problema estratégico representado por capacidades militares iranianas. Esse é o ponto crítico. A contestação normativa pode reduzir apoio mesmo entre parceiros, ao criar custos políticos para o alinhamento.
Precedente estratégico e erosão de confiança em negociações
Há também o problema do precedente. Se a percepção se consolidar de que a força é usada quando negociações não avançam no ritmo esperado por Washington, a credibilidade de futuros processos diplomáticos se deteriora. Isso pode produzir um efeito perverso: Estados alvos passam a ver a negociação como risco, não como saída, e reforçam incentivos à dissuasão e à escalada preventiva.
Três cenários para as próximas semanas: trajetórias e indicadores
Organizar cenários ajuda a evitar análises impulsivas baseadas apenas nas primeiras horas do conflito. Os cenários abaixo não são previsões, mas estruturas de monitoramento.
Cenário 1: contenção e barganha indireta
A escalada é parcialmente estabilizada e canais indiretos de negociação retornam, permitindo interrupções táticas e acordos limitados. Esse cenário exige redução de ambição política pública, sobretudo em relação à mudança de regime, e presença de mediadores com credibilidade.
Indicadores
- redução do ritmo de ataques
- mensagens oficiais enfatizando objetivos limitados
- sinais de ativação de canais indiretos de mediação
Risco: a confiança já foi degradada e incidentes podem reverter rapidamente a trajetória.
Cenário 2: escalada regional em cadeia
A crise amplia o teatro, envolvendo mais países, bases, infraestrutura e rotas estratégicas. Esse cenário tende a produzir custos econômicos e políticos rápidos, com potencial de envolver terceiros de forma involuntária.
Indicadores
- ataques recorrentes a ativos militares na região
- perturbações logísticas e elevação de risco marítimo
- ativação mais intensa de redes armadas alinhadas
Risco: a escalada em cadeia pode gerar episódios que forcem decisões de ampliação mesmo se não forem desejadas.
Cenário 3: conflito prolongado e crise interna sem transição clara
A campanha se alonga, com pressão sobre estruturas do regime e repressão interna. Mesmo que haja enfraquecimento do governo, isso não garante alternativa política funcional. O intervalo entre desgaste e transição é historicamente o período mais instável.
Indicadores:
- disputas intraelite e sinais de fragmentação institucional
- mobilização social intermitente com repressão discurso oficial centrado em sobrevivência e ameaça externa
Risco: instabilidade prolongada e possibilidade de colapso parcial sem reconstrução institucional.
Conclusão
Os ataques de fevereiro de 2026 representam uma mudança qualitativa. A decisão de priorizar coerção militar enquanto negociações ainda estavam em andamento sugere cálculo estratégico, não reação inevitável. Ao mesmo tempo, a combinação entre alvos sensíveis e discurso de mudança política intensifica a percepção iraniana de ameaça existencial.
Esse ponto é decisivo. Quando o conflito é percebido como disputa de sobrevivência, a força tende a produzir resistência, não capitulação. A coerção militar pode gerar ganhos táticos, mas também pode ampliar a disposição do adversário de escalar e prolongar o conflito para evitar derrota política.
Do lado norte americano, a multiplicidade de objetivos cria risco de aprisionamento estratégico. Neutralizar capacidades militares é uma coisa. Produzir mudança política interna é outra. Combinar ambas sem um ponto claro de saída costuma gerar operações longas, com custos crescentes e resultados incertos.
A dimensão jurídica reforça esse quadro. Contestação de legitimidade reduz margem de manobra diplomática e pode enfraquecer apoio político interno e externo se a campanha se prolongar.
O cenário mais plausível no curto prazo é instabilidade prolongada, marcada por ciclos de ação e reação, pressão econômica e disputas narrativas. O desfecho dependerá menos da intensidade inicial dos ataques e mais da capacidade de redefinir objetivos políticos de forma realista, criando algum canal de contenção antes que a escalada produza efeitos irreversíveis.
Analista de Relações Internacionais, organizador do Congresso de Relações Internacionais e editor da Revista Relações Exteriores. Professor, Palestrante e Empreendedor. Contato profissional: guilherme.bueno(a)esri.net.br
