Clubhouse: um aplicativo como alternativa à Opressão

Fonte: Free-Photos via Pixabay
Clubhouse: um aplicativo como alternativa à Opressão 1

Atualmente, uma rede social vem chamando atenção de usuários de Iphone ao redor do mundo. O aplicativo Clubhouse ganhou destaque nos últimos meses após o nome de diversas personalidades do mundo serem vistas interagindo dentro deste espaço virtual. Nomes como Elon Musk e Oprah Winfrey já marcaram presença em salas de bate-papo do aplicativo. Mas qual seria a relação do aplicativo com debates internacionais? 

Esse aplicativo, não apenas seria utilizado por pessoas influentes, como também por cidadãos comuns ao redor do mundo que buscam se expressar acerca de diversas temáticas, especialmente sobre assuntos censurados por governos autoritários. Sendo assim, com as novas discussões sobre o papel dessa rede social, surge uma questão: Um único aplicativo teria a função de suprir demandas por livre expressão em regiões com regimes ditatoriais?

A seguir, inicia-se um breve debate acerca do papel da sociedade e mídia nas Relações Internacionais, a funcionalidade do aplicativo e sua aplicação no Oriente Médio.

A sociedade e a mídia como parte integrante das Relações Internacionais

A globalização, nos anos de 1980, introduziu novos atores e temas de estudo nas Relações Internacionais. As novas tecnologias, a valorização do indivíduo na sociedade internacional e os novos problemas surgidos contribuíram para remodelar a área das RIs, que até então era considerada estadocêntrica. Com o advento da internet, as barreiras territoriais foram se enfraquecendo e as informações passaram a ser disseminadas de modo mais rápido e prático, diminuindo as dificuldades de se adquirir informações da comunidade internacional visto a dependência às mídias tradicionais que poderiam determinar quais e como as informações seriam dadas às populações. 

As comunidades passaram a conhecer diferentes estilos de vida e diferentes opiniões; tendo um amplo escopo informativo. Assim, o conhecimento acerca dos tipos de organizações políticas e sociais acabaram por serem “descobertas” em regiões pelas quais não se tinha muito contato com o exterior. A ação da sociedade, já no século XXI, passou a ser potencializada com a criação de redes sociais – mídias eletrônicas – que facilitaram a comunicação global entre indivíduos, servindo ao compartilhamento de ideais e troca de informações na construção do que se tem por “mundo ideal” (APPADURAI, 1996).

Os desdobramentos tecnológicos influenciam a criação de políticas entre movimentos sociais que passam a questionar a atuação de governos.  A legitimidade da sociedade civil no sistema internacional ocorre, então, quando ela visa agir frente aos desequilíbrios dos Estados que afetam o bem-estar, bem como identidades culturais e direitos da população. As pessoas, com intuito de melhorar condições de vida, reivindicam seus direitos, principalmente dado a influência de mídias sociais, fazendo frente aos governos nacionais, levando-os a serem caracterizados, não apenas como parte do Estado, mas como influentes nele (APPADURAI, 1996; TOSTE;VILLA, 2006).

Ao abordar as discussões presentes na teoria da Estruturação de Anthony Giddens (2003) – teórico da sociologia política -, podemos compreender um pouco mais a relação sociedade e Estado, aqui caracterizado como agência e estrutura. A teoria reconhece que o mundo físico (estrutura) seria diretamente influenciado pelo mundo subjetivo (normas, cultura, regras da agência). Desse modo, a agência possui capacidade de influenciar o meio em que vive. O preceito principal seria o do rompimento da ideia de dualismo agente-estrutura, para uma sociedade pautada em dualidade agente-estrutura. Essa dualidade seria compreendida como o mundo objetivo – estrutura natural – influenciando e sendo influenciado pelo mundo subjetivo- ideias, identidades de agentes (GIDDENS, 2009). 

Caracterizando, aqui, a agência como sociedade, e o Estado sendo uma estrutura social, a mídia, mais especificamente as redes sociais, seria potencializadora desta relação. Um exemplo a destacar seria a Primavera Árabe (manifestações contra governos árabes ditatoriais em 2010), no qual a internet, blogs e redes de comunicação foram essenciais para a proliferação de informações acerca do que ocorria nos países em que se situavam os protestos. O impacto das redes foi tão grande que, a exemplo do Egito, o país desconectou a população da internet por vários dias como forma de evitar a proliferação de informações. Embora o governo tenha reconhecido a força das redes sociais, é necessário destacar que não houve resultados pois os movimentos já estavam estabelecidos e o mundo já estava ciente do que ocorria. 

Há também o impacto negativo das redes sociais. Um exemplo similar, recentemente, seria o impacto que essas redes possuem nos movimentos de contra-revolução no Egito. As plataformas Twitter e Facebook foram utilizadas em campanhas políticas com discursos discriminatórios a partir de ameaças à democracia do país. Outro retrato seria o movimento de monitoramento da internet, como exemplo governos árabes que passaram a controlar ainda mais as atividades de seus cidadãos, desde a Primavera Árabe, retirando a liberdade de expressão nas plataformas on-line de milhares de pessoas. Portanto, até os Estados reconhecem a importância das redes sociais na formulação e na condução das políticas, tanto domésticas, quanto internacionais. 

Tendo essa breve contextualização da importância da sociedade e das redes sociais, reitero a essencialidade de discutir movimentos em plataformas digitais. Embora o presente tema seja novo e que não esteja previsto uma nova onda de manifestações que poderiam promover impactos nos governos, é, ainda, um movimento que pode levar a novas ideias de comunicação como forma de contornar a grande barreira que Estados ditatoriais impõe sobre suas populações. Portanto, aplicativos como Clubhouse, mesmo que possua suas falhas – evidenciadas mais à frente -, pode ser reconhecido como um instrumento de tentativa para modificar as estruturas governamentais existentes. 

O funcionamento do Clubhouse

O Clubhouse surgiu em 2020 e foi criado por Rohan Seth (ex-funcionário da Google) e Paul Davidson (Empresário do Vale do Silício – local que abriga startups e diversas empresas de tecnologia do mundo). O aplicativo exclusivo para Iphone com sistema operacional iOS é baseado em conversas por áudios para chats, conferência e talkshows. Os usuários podem ouvir diálogos, como um podcast, e também podem se comunicar com outros integrantes. Para participar dos grupos de conversação é necessário, para além de possuir um eletrônico da Apple, receber um convite de usuários. Sendo assim, é um aplicativo considerado mais restrito.

O que mais se diferencia de outras redes de comunicação virtual seria o fato de que todos os bate-papos e grupos de discussões (comunidades permanentes) possuem tempo determinado. Ou seja, após o término de uma reunião, todos os áudios são excluídos e a sala, no caso de bate-papos, é apagada. Ademais, salas e comunidades possuem um limite de 5 mil pessoas. Assim, por mais que seja uma quantidade pequena, possui uma capacidade maior de interação quando se compara a aplicativos de comunicação como Google Meet

Há três opções para se ingressar nas salas de conversação criadas por áreas de interesses e/ou tópicos: Moderador (bloquear contatos, permitir e rejeitar alto-falantes, silenciar ou remover alto-falantes), palestrante e ouvintes. Não importa em qual das funções você se encontra, caso haja vazamento de áudios, o integrante responsável é banido da comunidade Clubhouse. Outras duas importantes regras são: apenas usuários verdadeiros (com identificação) podem ingressar e  o princípio de não discriminação, em qualquer sentido, entre eles. 

Portanto, mesmo não havendo a certeza de que não haveria pessoas, em um cenário de governos ditatoriais, que denunciem discursos de usuários, o fato de não ser possível guardar áudios, haver maior facilidade em identificação de supostos delatores e um número consideravelmente grande de usuários nas salas, podem dificultar tais tipos de ação. Tendo isso em vista, pessoas em diversas regiões do mundo passaram a utilizar a plataforma, não apenas como meio de comunicação, mas para denunciar, protestar e expressar seus anseios para com políticas estatais e repressão à sociedade civil.

Oriente Médio: utilização do Clubhouse como via contrária à Opressão

O Oriente Médio é uma região que possui muitas especificidades. Concepções étnicas e religiosas, muitas vezes, influenciam as políticas estatais e, de forma muito evidente, as culturas locais. Para além disso, monarquias como Arábia Saudita legitimam ações ditatoriais nessas questões identitárias. Assim, o autoritarismo de diversos países é reforçado pelas concepções culturais impostas por governos, e muitas vezes reforçadas por parte populacional. Tendo isto em mente, o campo tecnológico não seria desvinculado desta situação, o autoritarismo governamental em tecnologias é uma realidade dessas populações.

Como já discutido acima, desde o fim da Primavera Árabe, alguns Estados árabes passaram a monitorar a comunidade virtual com objetivo de identificar movimentos contrários aos preceitos políticos e culturais defendidos por eles. Por este motivo, Clubhouse vem ganhando fama na região, ainda mais influente no Golfo Pérsico. O aplicativo promove espaço para discussões políticas, religiosas, de identidade e de movimentos como os de base feminista. A rede social também vem sendo usada por políticos que buscam chegar a uma maior parcela da população, respondendo aos anseios da parte da sociedade, como o caso do ex-Primeiro Ministro da Turquia,  Ahmet Davutoglu. 

No reino saudita, houve o download do aplicativo em mais de 200 mil aparelhos eletrônicos, em menos de cinco meses. Isso se deve ao fato do país possuir uma forte restrição social com táticas de manipulação de plataformas, tornando a nova rede social atrativa aos olhos de cidadãos que visam maior liberdade para realizar discussões dos mais variados temas considerados tabus, ou até mesmo censurados pelo governo. Dado sua interface considerada privada, devido a impossibilidade de se postar fotos, vídeos e, até mesmo, salvar áudios, oferece uma sensação de segurança para essas pessoas debaterem sobre o que desejarem. 

Na Turquia, movimentos estudantis passaram a utilizar da plataforma para protestar contra a nomeação, pelo presidente Erdogan, do governante Meleh Bulu (acusado de ser antidemocrático) como novo reitor da Universidade de Bogazici. Justamente devido às limitações das mídias tradicionais, aqueles que objetivaram compreender mais a fundo as motivações dos estudantes para realizar o protesto, recorreram à plataforma para se atualizarem do contexto em questão. Portanto, a legitimação de tal plataforma, por parte da população, foi estabelecida. Diversos canais de comunicação ao redor do mundo reconhecem a eficiência de tal rede social no que tange a promoção de conhecimento e uma via contra a repressão de governos ao redor do mundo. 

De fato, não se pode negar que o modelo do aplicativo traz uma experiência diferenciada, e a forma como seu design foi estabelecido fornece uma sensação de anonimidade, promovendo segurança aos usuários. Contudo, de acordo com o que vem acontecendo no Oriente Médio, não se pode afirmar a eficácia total no que tange à proteção das identidades daqueles que se manifestam contrários às estruturas governamentais.

Primeiramente, é necessário o reconhecimento de que o aplicativo fornece muitos dados de seus usuários. Há diversas questões para se levar em consideração: Os áudios podem ficar armazenados no banco de dados para casos em que há reporte de incidentes; é necessário dar o nome verdadeiro e dados identitários para ingressar no aplicativo; o Clubhouse também adquire acesso aos contatos da pessoa para facilitar o processo de envio de convites. Além disso, na cláusula de contrato é previsto a utilização dos dados para outras companhias para propagandas e, não menos importante, autoridades públicas, espiões e agentes de segurança nacional podem ingressar em salas de bate-papo e conseguirem informações de participantes. 

Há ainda o perigo de invasão por hackers. Por se tratar de um aplicativo por áudios em tempo real, a cifragem dos conteúdos é relativamente simples, o que pode ser um problema ao se tratar de possíveis tentativas de hackers invadirem o sistema. É necessário evidenciar que quanto mais reforçado a criptografia desses aplicativos, mais demorada seria a leitura para reprodução dos áudios, podendo também haver uma interferência na qualidade do app

Os incidentes de vazamento de áudios já começaram a surgir, e embora ainda não se tenha evidências de que governos tenham capturado protestantes, é uma questão de tempo para que se inicie novos planos de cibersegurança envolvendo o reconhecimento e prisão daqueles que discursam contra os governos de seus países. Um exemplo de caso relatado é o do grupo criado por Amani al-Ahmadi, ativista que criou um grupo para discutir o racismo na Arábia Saudita e que, no mesmo momento, houve o vazamento das conversas que ocorriam em tempo real, no Twitter.

Ademais, jornalistas em consonância com as medidas governamentais já estão promovendo ondas contrárias ao aplicativo, levando às massas populacionais a condenarem seus usuários. Salam Al-Dossary, editor chefe do jornal árabe Asharq Al-Awsat, explicitou sua aversão ao aplicativo informando que este promoveria obscenidade e desrespeitos à cultura e aos princípios morais da sociedade. Tendo isto em mente, o que poderia ser uma alternativa à opressão governamental, seria, pelo contrário, um facilitador para se reconhecer cidadãos considerados rebeldes e, até mesmo, terroristas por tais governos. Há uma linha tênue entre liberdade e insegurança nesses países, e o que começou como uma opção de livre expressão, está se tornando uma armadilha eletrônica àqueles que objetivam mudanças das estruturas governamentais às quais estão sujeitos.

Considerações finais

A internet surgiu resolvendo diversos problemas no mundo globalizado. As redes sociais seriam uma extensão do que se propõe como facilitador de comunicação e um campo onde as pessoas seriam livres para se expressarem. A internet é um grande instrumento para populações reivindicarem e modificarem estruturas sociais e governamentais. Contudo, é necessário reconhecer que há diversas limitações, e os riscos, muitas vezes, são maiores quando se utiliza deste meio. O aplicativo ClubHouse já está sendo questionado em sua eficácia no que tange à utilização para promoção de debates intelectuais em países que praticam a censura informativa. 

O Clubhouse, como uma Ágora eletrônica, não corresponde às expectativas de seus usuários. Quanto mais aplicativos tornam-se conhecidos, é inevitável seu controle sob a política repressora. Portanto, por mais que a ideia seja interessante, os riscos àqueles que objetivam mudanças ou, pelo menos, debater sobre suas opiniões, podem ser maiores que o desejado. Enquanto tais governos tiverem o apoio de outros Estados considerados influentes no Sistema Internacional, principalmente devido às questões econômicas, a opressão estará acobertada. 

Referências bibliográficas:

APPADURAI, Arjun. Global Ethnoscapes. In: APPADURAI, Arjun. Modernity at Large: Cultural Dimensions of Globalization. Minnesota: University of Minnesota Press, 1996. cap. 3, p. 48-68. ISBN 0-8166-2792-4.

GIDDENS, Anthony. A Constituição da Sociedade: Introdução. Tradução: Álvaro Cabral. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009, pg. 13- 42. ISBN: 8578270681

TOSTE, Ana Paula; VILLA, Rafael Duarte. Democracia Cosmopolita versus Política Internacional. Lua Nova, São Paulo, n. 66, p. 66-107, 9 fev. 2006. Disponível em: <https://www.scielo.br/pdf/ln/n66/29085.pdf>.  Acesso em: 3 abr. 2021.

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Sobre o Autor

Graduanda em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Áreas de pesquisa: Segurança Internacional e Geopolítica, em especial a região do Golfo Pérsico (Relações Arábia Saudita e Irã). Interesse de pesquisa voltado para Economia Política Internacional e Política Externa Brasileira. Colunista na Revista Relações Exteriores.

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