Em meio a tensões comerciais com os Estados Unidos, o governo brasileiro busca ampliar sua presença no mercado financeiro chinês. A recente viagem de uma comitiva do Ministério da Fazenda a Pequim é mais um passo nessa estratégia.
Um dos principais objetivos da visita foi entregar a chamada Carta de Apresentação da República. O documento inicia o processo de emissão de títulos da dívida pública brasileira no mercado financeiro chinês. A medida faz parte de um esforço para diversificar as formas de financiamento e ampliar a inserção do Brasil na economia internacional.
A aproximação entre os dois países não vem de agora. Desde 2009, a China é o principal parceiro comercial brasileiro e o principal destino de exportações como soja, petróleo e minério de ferro. Em contrapartida, o Brasil importa principalmente bens manufaturados chineses.
Os investimentos também vêm ganhando força. Em 2025, o Brasil se tornou o principal destino dos investimentos chineses no mundo, com aumento de 45% em comparação ao ano anterior. Contudo, os Estados Unidos ainda permanecem como a principal fonte de investimento externo direto no país.
Disputa hegemônica com os Estados Unidos
O fortalecimento dos laços entre Brasil e China ocorre em um cenário de competição geopolítica entre Pequim e Washington pela preponderância econômica global. A influência chinesa na América Latina tem crescido em detrimento da influência americana, principalmente pelo fortalecimento de parcerias econômicas, incluindo acordos bilaterais de investimento e como importante destino das exportações de produtos primários da região.
Esse movimento tem levado os Estados Unidos a reafirmar sua influência na região. Em sua Estratégia de Segurança Nacional, divulgada em novembro de 2025, o governo Donald Trump deixou claro que a América Latina é vista como estratégica para os interesses americanos. No campo econômico, esse esforço tem sido marcado pela imposição de tarifas comerciais elevadas aos países latino-americanos, sob o argumento de práticas comerciais consideradas desleais que prejudicam as exportações americanas.
Países como Guiana, Guiana Equatorial, Nicarágua e Venezuela receberam tarifas recíprocas superiores aos 10% impostos aos demais países, anunciadas em abril de 2025. Já o Brasil, posteriormente foi alvo de sobretaxas de 40%, sob justificativas diversas. Elas envolvem a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, a regulação de plataformas digitais e críticas ao sistema de pagamentos Pix.
Apesar de boa parte dessas medidas ter sido recentemente suspensa ou flexibilizada pela Suprema Corte dos Estados Unidos, a questão ainda está longe de ser solucionada. Recentemente, já foram anunciadas novas tarifas de 25%, que deverão entrar em vigor em 15 de julho de 2026. As medidas foram propostas após investigação comercial conduzida com base na Seção 301 da legislação comercial americana.
Para países que têm os Estados Unidos como um de seus principais parceiros comerciais, essas tarifas podem gerar impactos econômicos significativos. Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, mas, desde 2025, as exportações brasileiras para o país vêm diminuindo. Em contrapartida, as exportações para a China continuam crescendo e, em 2026, já registraram aumento de 21% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Expansão da moeda chinesa no Brasil
O estreitamento da parceria com a China não ocorre apenas no comércio e nos investimentos. A moeda chinesa, renminbi (também conhecida popularmente como yuan), tem crescido muito no Brasil, tanto nas nas transações financeiras de relações comerciais, quanto nos ativos de reserva.
Desde 2023, o renminbi tornou-se a segunda principal moeda presente nas reservas internacionais do Banco Central, ultrapassando o euro, embora ainda esteja bastante aquém do dólar. Entre 2024 e 2025, o volume de importações brasileiras pagas em moeda chinesa passou de US$ 1,80 bilhão para US$ 3,81 bilhões. Ainda assim, representa apenas 1,36% das importações brasileiras.
Ao mesmo tempo, o país já conta com instituições financeiras habilitadas a realizar transações em renminbi. O banco BOCOM BBM foi a primeira instituição ligada diretamente ao CIPS, o sistema chinês de pagamentos internacionais. Também a primeira a concluir uma operação de crédito em renminbi com uma empresa brasileira.
Além disso, o Brasil também conta com uma filial do do Banco Comercial da China e, mais recentemente, a plataforma chinesa XTransfer, voltada ao comércio exterior, iniciou suas operações aqui. O objetivo é facilitar a participação de pequenas e médias empresas no comércio internacional, contribuindo também para ampliar o uso da moeda chinesa nessas transações.
Esses movimentos indicam que a parceria entre Brasil e China vai além da troca de mercadorias e envolve também a infraestrutura financeira que sustenta o comércio entre os dois países. A China tem demonstrado disposição para ampliar a cooperação econômica com o Brasil, considerado um parceiro estratégico na região. A recente missão do Ministério da Fazenda sinaliza que essa relação tende a se aprofundar.
No contexto de maior incerteza nas relações comerciais com os Estados Unidos, diversificar parceiros é uma estratégia importante para fortalecer a resiliência da economia brasileira e ampliar suas alternativas de crescimento. Contudo, isso tende a provocar reações dos EUA, que busca preservar sua influência na América Latina. O desafio será aproveitar as oportunidades dessa parceria sem perder de vista os próprios interesses em um cenário geopolítico cada vez mais complexo.
Este artigo, “Parceria econômica Brasil-China entra em nova fase”, de Fernanda Brandão, coordenadora de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, foi publicado originalmente no The Conversation (https://theconversation.com/parceria-economica-brasil-china-entra-em-nova-fase-286632) e está licenciado sob Creative Commons (CC BY-ND 4.0).
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