Saddam Hussein inicia o genocídio de Anfal no norte do Iraque – 23 de fevereiro de 1988

Monumento na vala comum das vítimas do ataque químico de Halabja | Fonte: Wikimedia Commons | Design: Marianna Oliveira via Canva Pro
Saddam Hussein inicia o genocídio de Anfal no norte do Iraque – 23 de fevereiro de 1988 1

O genocídio curdo se iniciou em fevereiro de 1988 durante a progressão da guerra Iran-Iraque. As atrocidades praticadas por Saddam Hussein para o povo curdo foram denominadas por sua administração como Campanha de Anfal. Através de operações militares, seu objetivo foi o extermínio total da população curda no território iraquiano. Aqui iremos abordar a questão do povo curdo desde a queda do Império Otomano e de que forma o governo de Saddam Hussein promoveu o genocídio de mais de 180 mil civis curdos (SANTANA, 2021). 

Do final do Império Otomano a participação curda na guerra Irã-Iraque

Os curdos têm sua etnia nas origens indo-europeias que habitam a região montanhosa no Oriente Médio, atualmente se encontram divididos entre a Turquia, Síria e Iraque. Isto se decorreu pois após a Primeira Guerra Mundial ocorreu a dissolução do Império Otomano, a nova divisão das fronteiras do Oriente Médio foi intermediada pelo Reino Unido e pela França acarretando uma nova configuração de forças na região. “O final do Império Otomano significou a ruína da estrutura política na qual a maior parte do Oriente Médio esteve incluído por mais de quatro séculos” (SANTANA, 2021, p.64). 

Os Britânicos favoreceram os seus aliados hashemitas dando como recompensa pelo suporte durante a Primeira Guerra o controle do Estado iraquiano, que por sua vez se manteve como um estado fantoche inglês concedendo a presença militar britânica em seu território até 1930 (SANTANA, 2021).

Durante o período Otomano, os curdos eram autônomos, mas com a passagem da administração para os hashemitas, a divisão entre árabes e curdos foi ampliada. Esta problemática foi um entrave para a consolidação da identidade nacional iraquiana, concomitantemente os setores políticos curdos ficaram insatisfeitos com a perda de autonomia regional, motivando assim movimentos nacionalistas de massa no Curdistão (SANTANA, 2021). 

Com suporte inglês os movimentos de revolta curda eram suprimidos, visto que a questão curda no Iraque não era prioridade ou de interesse dos europeus. Apesar disto, o Estado iraquiano não conseguiu quebrar a capacidade do poder curdo em áreas rurais, possibilitando que os curdos se mantivessem no território iraquiano pelos anos seguintes (SANTANA, 2021). 

Em 1960 foi desenvolvido um projeto nacional curdo kurdayeti com o objetivo de liberar os curdos de uma posição de opressão dentro do Iraque e unir todos as partes do Curdistão em busca de um Estado independente. Em 1961, e com suporte do Irã, os curdos iraquianos entraram em conflito com Bagdá, o conflito prosseguiu durante os anos 60, só sendo resolvido em 1970. O acordo entre as partes foi negociado pelo então vice-presidente iraquiano, Saddam Hussein. A relação seguiu com inseguranças, os curdos se recusaram a fechar a fronteira com o Irã e buscaram se aproximar dos EUA e Israel devido ao alinhamento do Iraque com a União Soviética (SANTANA, 2021). 

O atrito entre os curdos e o governo iraquiano seguiu até que em 1975 ocorreu uma nova revolta, desta vez os curdos contavam que teriam apoio dos EUA, Israel e Irã, mas somente o Irã se envolveu. Saddam então negociou com o governo iraniano a retirada do apoio aos curdos no chamado Acordo de Argel(1975), onde concederia territórios de interesse iraniano (SANTANA, 2021). Assim foi impresso uma política de “Arabização” que consistia em pressionar famílias curdas para fora de suas casas nas áreas desérticas, além de forçar que os curdos fossem realocados para regiões onde o poder político curdo fosse diminuto. Este processo de fragmentação do povo curdo seguiu até o início da guerra Irã-Iraque, onde o governo iraquiano redirecionou as suas forças (EUROPEAN PARLIAMENT, 2013).

Saddam Hussein assumiria a presidência em 1979, nos seus primeiros anos adotou uma postura moderada quanto a questão curda, porém de forma a justificar ações violentas contra os curdos, foi colocado que aqueles que não apoiasse o regime iraquiano seriam considerados inimigos não só políticos como também religiosos. Saddam já se utilizava de armas químicas contra forças iranianas, mas ainda assim estava perdendo o conflito muito por conta do suporte curdo aos iranianos. Dessa forma, Saddam voltou sua disposição para o “problema curdo”, organizando diretamente a execução do plano de Campanha de Anfal com o objetivo de exterminar os curdos iraquianos (SANTANA, 2021).

Campanha de Anfal

O “problema curdo” como foi denominado pelo ditador Saddam Hussein, acabou levando uma investida bélica liderada pelo mesmo em 1980 através da guerra do Irã-Iraque. Mas foi em 1987 que o então ditador idealizou uma campanha de extermínio que ficou famosa no mundo todo por conta de suas atrocidades. A Campanha de Anfal, tinha como objetivo gerar um extermínio total do povo curdo que vivia em meio rural (SOARES e MENDES, 2008). O nome Al-Fal é o oitavo capítulo do Alcorão. Onde narra a vitória de 313 seguidores da fé muçulmana contra 900 pagãos na Batalha de Badr 624 D.C. Al-Fal tem o como significado de despojos de guerra e foi utilizado para denominar a forma que as campanhas militares que se baseavam em extermínio e pilhagem.

Os soldados iraquianos saqueavam ou destruíam tudo pelo caminho. Em oito rodadas bem coordenadas, eles destruíram (ou saddamizaram) das vidas dos curdos na zona rural do Iraque. Embora a ofensiva seja apresentada como uma missão de antiinsurgência, os insurgentes curdos armados não eram de forma alguma o único alvo. Saddam Hussein atacou todos os homens, mulheres e crianças que viviam na nova zona de exclusão. Curdos presos não foram mortos em combates pesados ​​ou quando representavam uma ameaça militar ao regime; eles foram enviados em grupos para áreas remotas e metralhados em execuções em massa planejadas (POWER, 2004).

Embora o extermínio étnico tivesse grandes proporções das mídias na época, o evento só ganhou proporção de repercussão mundial, quando então os iraquianos massacraram mais uma vez os curdos em um bombardeio com armas químicas, tal notoriedade se deu principalmente porque este bombardeio foi sob uma população civil na cidade de Halabja em 16 de março de 1988 durante a segunda rodada da campanha Anfal 2 (SOARES e MENDES, 2008). O responsável pelo massacre químico foi liderado pelo primo de Saddam Hussein, Ali Hassan al-Majid que ganhou o apelido de “Ali Químico”

De 25 de agosto a 6 de setembro de 1988, a última campanha Anfal, que foi sua oitava rodada, teve como alvo a área de Badinan, controlada pelo KDP. Durante esta campanha, aldeias como Wirmeli, Barkavreh, Bilejane, Glenaska, Zewa Shkan, Tuka e Ikmala foram alvo de ataques químicos. Em 26 de agosto de 1988, as forças iraquianas bloquearam a rota para a Turquia depois que milhares de curdos fugiram para o mesmo país. As pessoas que não conseguiram fugir foram presas e os homens foram separados das mulheres e crianças. Homens foram executados e mulheres e crianças foram levadas para campos de concentração. As campanhas, que ocorreram em várias fases entre 1987 e 1989, matou 182.000 civis e destruiu milhares de cidades e vilarejos principalmente na zona rural do Curdistão iraquiano, segundo os grupos de direitos humanos Anistia Internacional e Human Rights Watch.

Considerações Finais

A campanha de Anfal começou em 1986 e continuou até 1989, liderado por Ali Hassan al-Majid, primo do presidente iraquiano Saddam Hussein. Elas incluíram o uso de ofensivas terrestres, bombardeio aéreo, destruição sistemática de assentamentos, expulsões em massa, esquadrões de fuzilamento e guerra química, que valeram a Majid o apelido de “Chemical Ali”. O exército iraquiano foi apoiado pelos colaboradores curdos armados do governo iraquiano, as chamadas forças Jash, que lideram as tropas iraquianas em vilarejos curdos e seus esconderijos nas montanhas que muitas vezes estavam fora do mapa, levando a óbito cerca de 187.000 mil pessoas da etnia curda.

Referências

The Kurdish Genocide Achieving Justice through EU Recognition. European Parliament, 2013 Disponível em: <https://www.europarl.europa.eu/meetdocs/2009_2014/documents/d-iq/dv/03_kurdishgenocidesofanfalandhalabja_/03_kurdishgenocidesofanfalandhalabja_en.pdf> Acesso em: 18 de jan. de 2022.  

SANTANA, G. A. O nacionalismo curdo no Iraque: Identidade e mudanças sistêmicas como fontes de legitimidade internacional (1992-2017), 2021.

Campanha Anfal. Stringerfix, Disponível em: <https://stringfixer.com/pt/Anfal_campaign> Acesso em 19 de jan. de 2022.

Genocídio da campanha Anfal causou a morte de 182 mil civis curdos, G1, 2008 Disponível em: <https://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL332047-5602,00-GENOCIDIO+DA+CAMPANHA+ANFAL+CAUSOU+A+MORTE+DE+MIL+CIVIS+CURDOS.html> Acesso em 19 de jan. de 2022.

SOARES, Fernanda da Silva Vilhena; MENDES, Natália Rodrigues. Memórias em disputa: o genocídio curdo em Halabja. ANPUH-Rio, 2010.

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