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A fé virou força política no Brasil e nos EUA: por que isso ameaça pluralismo democrático

Photo by Joice Rivas on Pexels

A religião voltou a ocupar o centro da disputa política nas democracias contemporâneas. Nos Estados Unidos e no Brasil, a ascensão de Donald Trump e Jair Bolsonaro evidenciou algo que vai além da polarização eleitoral: a consolidação de alianças entre lideranças políticas e setores religiosos organizados, especialmente evangélicos, capazes de moldar o debate público, mobilizar identidades coletivas e redefinir o que conta como legitimidade política.

O fenômeno não se explica apenas pelo crescimento das igrejas ou pela religiosidade dos eleitores. O ponto central é mais profundo: a conversão da fé em recurso político e em linguagem pública de pertencimento, autoridade e mobilização.

Isso não significa que religião e democracia sejam incompatíveis. Tradições religiosas participaram de lutas por direitos civis, justiça social e resistência a regimes autoritários. O problema surge quando a religião deixa de ser uma voz entre outras na esfera pública e passa a reivindicar autoridade moral privilegiada para definir o bem comum e legitimar o poder.

Nos EUA e no Brasil, esse processo ganhou força com o avanço das chamadas guerras culturais, disputas que transformam valores e identidades em fronteiras políticas rígidas.

Guerras culturais e a moralização da política

Guerras culturais são disputas sobre valores, identidades e visões de mundo. Família, sexualidade, gênero, educação, religião e identidade nacional deixam de ser apenas temas de política. Tornam-se marcadores simbólicos de pertencimento e exclusão.

Mais que divergências programáticas, essas disputas organizam percepções de ameaça moral. O conflito democrático deixa de ser visto como competição legítima entre projetos distintos e passa a ser interpretado como confronto entre valores considerados incompatíveis.

No Brasil, pesquisas sobre religião e espaço público mostram que, mesmo com a separação constitucional entre Igreja e Estado, a influência religiosa nunca desapareceu do debate político. O que mudou nas últimas décadas foi a intensidade e a institucionalização dessa presença, por meio de igrejas, bancadas parlamentares e redes de comunicação religiosas.

Nos Estados Unidos, processo semelhante ganhou impulso com a aproximação entre setores do evangelicalismo branco conservador e a nova direita republicana. Em ambos os países, a religião passou a operar como linguagem política capaz de organizar emoções coletivas como medo, ressentimento, esperança e proteção.

Essa moralização da política cria um ambiente em que adversários deixam de ser opositores legítimos e passam a ser vistos como forças hostis à ordem moral e cultural.

Trump e a direita religiosa nos Estados Unidos

Donald Trump nunca foi o modelo tradicional de liderança religiosa. Mesmo assim, tornou-se figura central para amplos setores do evangelicalismo branco norte-americano. Pesquisas da revista Politics and Religion, publicada pela Cambridge University Press, mostram que o apoio evangélico branco a Donald Trump está associado sobretudo a fatores identitários e políticos, e não apenas religiosos. Esses estudos indicam que a aparente irreligiosidade do ex-presidente não reduziu o apoio entre esses grupos: o vínculo era mais cultural e estratégico que teológico.

Temas como imigração, raça, educação sexual e direitos LGBTQIA+ tornaram-se centrais na mobilização conservadora. A política passou a ser enquadrada como disputa moral e, nesse enquadramento, o desacordo democrático perde legitimidade.

Essa aparente contradição revela a natureza do fenômeno. O apoio evangélico a Trump não veio de identificação espiritual ou exemplaridade moral. Foi uma aliança política construída sobre a percepção de ameaça cultural e a promessa de proteção identitária.

Bolsonaro e a institucionalização da fé no Brasil

Se nos EUA a relação entre religião e política se intensificou com Trump, no Brasil ela se tornou mais institucionalizada no governo de Jair Bolsonaro.

O país é laico na Constituição, mas a presença religiosa na esfera pública nunca foi residual. A ascensão de Bolsonaro tornou isso mais visível. Seu projeto político encontrou em setores evangélicos uma base decisiva. Não foi apenas afinidade ideológica: houve convergência em torno de guerras culturais, conservadorismo moral e crítica às elites políticas tradicionais.

Algumas pesquisas sobre populismo religioso e sobre as relações institucionais entre o governo Bolsonaro e lideranças evangélicas mostram como essa aproximação afetou a laicidade estatal e o pluralismo democrático. Entre elas destaco: Religião e política no Brasil contemporâneo, de Magali Cunha, que analisa a articulação entre igrejas, mídia e política no bolsonarismo; A onda conservadora, de Ronaldo de Almeida, que examina o avanço do conservadorismo religioso e sua relação com o Estado; e os estudos de Christina Vital e Paulo Victor Leite Lopes, Religião e política: atuação de parlamentares evangélicos, que investigam a atuação política de lideranças evangélicas e seus efeitos sobre a laicidade.

Todos apontam que a convergência entre governo e setores religiosos organizados ampliou tensões sobre neutralidade estatal, representação política e pluralismo democrático.

Eu e Horrana Oliveira pesquisamos sobre a guerra cultural e as batalhas morais no legislativo brasileiro] e mostramos que expressões como “ideologia de gênero”, defesa da “família tradicional” e denúncias de ameaça aos valores cristãos tornaram-se instrumentos de mobilização eleitoral e identitária, através da Teologia do Domínio. Mais que pautas específicas, ajudaram a criar uma narrativa: a política seria o espaço de defesa da fé contra forças anticristãs ou moralmente corrosivas.

O que aproxima Brasil e Estados Unidos

Apesar das diferenças históricas e institucionais, Brasil e EUA exibem um padrão convergente. Trump e Bolsonaro são versões distintas do mesmo fenômeno: a mobilização de redes religiosas como fontes de legitimidade política e apoio social em contextos de crise e polarização.

Nos dois casos, a religião não apenas acompanha o conflito político. Ela ajuda a reorganizar seus significados. A fé vira linguagem de pertencimento e mecanismo de produção de autoridade. A força simbólica da religião mobiliza medo, esperança, proteção e senso de comunidade.

Por isso a recessão democrática não se explica apenas por ataques institucionais ou polarização eleitoral. É também uma transformação cultural e simbólica.

E o futuro?

Essa discussão projeta uma pergunta para 2026: a religião voltará a ser mobilizada como força decisiva nas eleições presidenciais brasileiras?

Os ciclos recentes sugerem que temas religiosos e morais continuarão estratégicos na disputa pública. A questão não é se a religião estará presente, ela já integra o repertório político nacional. A questão é como será mobilizada e quais efeitos terá sobre o pluralismo democrático e a qualidade do debate público.

O debate não é sobre excluir a religião da vida pública. Religiões participam legitimamente da democracia e muitas vezes impulsionam agendas de solidariedade e justiça social. A questão é outra: o que acontece quando a autoridade religiosa sai do espaço de deliberação e passa a reivindicar poder superior para definir quem pertence à comunidade política e quais valores devem prevalecer?

Quando religião, guerras culturais e projetos da extrema direita convergem para transformar diferenças políticas em antagonismos morais absolutos, a democracia fica vulnerável. A premissa básica da democracia, reconhecer adversários como iguais políticos e aceitar que o poder deve ser limitado, compartilhado e contestável, começa a ruir.

Defender a democracia hoje exige mais que fortalecer instituições formais. Exige entender como fé e política redefinem, juntas, os limites do pluralismo, da autoridade e da própria convivência democrática.

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